Entre deserto, sal e história milenar, a Dead Sea Marathon revela muito mais do que uma corrida — ela expõe camadas geográficas, fisiológicas e culturais a 430 metros abaixo do nível do mar
Comecei a escrever na internet no início dos anos 2000, quando os blogs surgiram e transformaram a forma como compartilhamos experiências. Naquela época, especialmente entre 2009 e 2010, existia um debate intenso: “blogueiro não é jornalista”. Mesmo trabalhando em uma grande revista de corrida, escutava essa frase com frequência ao participar de eventos. No entanto, o tempo passou. Chegamos a 2026 e, hoje, não me defino nem como blogueira nem como jornalista. Sou nutricionista, corredora e sigo escrevendo. Foi exatamente assim que recebi, em meados de novembro, um convite do Ministério do Turismo de Israel para integrar um grupo de jornalistas e correr a Dead Sea Marathon, em fevereiro. Independentemente do rótulo, tratava-se de um convite irrecusável.
Antes da viagem, contudo, protestos explodiram no Irã e reacenderam tensões no Oriente Médio. Naturalmente, surgiram questionamentos sobre segurança e ética. Muitas pessoas me perguntaram se eu me sentia confortável em viajar para Israel diante das complexidades políticas da região. Confesso que, no início, não tinha resposta pronta. Portanto, fiz o que sei fazer: estudei. Estudei mais do que treinei para a prova. E essa decisão mudou completamente minha experiência.
A descida até -430 metros: quando o corpo sente antes da mente

Não é simples chegar ao Oriente Médio. Foram 10 horas de voo de São Paulo a Madrid, seguidas de uma conexão de 2 horas e mais 5 horas até Tel Aviv. Ainda no aeroporto espanhol, passei por uma minuciosa inspeção de segurança antes do embarque para Israel. Assim que expliquei que era corredora e participaria de uma prova no Mar Morto, percebi como o esporte cria vconexões instantâneas.
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De Tel Aviv até Ein Bokek, principal área hoteleira israelense do Mar Morto, a paisagem muda drasticamente. Primeiro, o azul do Mediterrâneo e a arquitetura Bauhaus. Depois, o ocre do deserto. Com cerca de 40 minutos de estrada, a vegetação diminui, os camelos surgem e o cenário ganha traços bíblicos. As placas indicam a descida: 0 metros, -100, -200, -300, -400. Até atingir aproximadamente -430 metros abaixo do nível do mar, o ponto mais baixo da Terra.
O corpo percebe a mudança antes da consciência. A pressão atmosférica é maior. O ar é mais denso. Há mais oxigênio por volume. Ao fundo, o azul intenso do Mar Morto contrasta com as montanhas esculpidas pelo vento. Ali, uma vez por ano, corredores têm acesso ao dique que separa águas industriais das naturais. A paisagem parece lunar.
A informação foi divulgada por “revista outside”, conforme convite oficial enviado à imprensa esportiva internacional para cobertura da Dead Sea Marathon 2026, evento patrocinado pela Salomon e organizado com apoio do Tamar Council, órgão responsável pela região.
O sal, a ciência e o terreno mais inusitado da minha vida

O terreno da Dead Sea Marathon é puro sal. Diferente de asfalto, terra batida ou cascalho, trata-se de uma superfície irregular, por vezes compacta, por vezes quebradiça. Em alguns pontos lembra areia fofa de praia. O diretor técnico da prova explicou que quedas podem causar ardência intensa, pois o sal penetra imediatamente na pele.
Para mim, nutricionista e estudiosa de fisiologia, correr ali tinha um simbolismo adicional. O sal é vital. Ele regula volume sanguíneo, conduz impulsos nervosos e permite contração muscular. Sem sódio suficiente, morremos. Durante milênios, foi moeda de troca. A palavra “salário” vem dessa história. Livros como The Salt Fix, de James DiNicolantonio, e The Art and Science of Low Carbohydrate, de Volek e Phinney, reforçam a importância do mineral na performance humana.
Ali, no lugar mais salgado do mundo — onde a água é 10 vezes mais salgada que a do mar comum — eu não vivia apenas turismo esportivo. Vivenciava um encontro entre ciência, história e corpo.
Por que escolhi 21 km em vez de 50 km

A Dead Sea Marathon oferece distâncias de 5 a 50 km. Tenho 42 anos e corro há 20. Já completei cerca de 20 maratonas, com recorde pessoal de 3h04 em Chicago 2019. Já participei do Cruce de los Andes e de provas de 50 km. Entretanto, a perimenopausa mudou minha relação com o esporte. Hoje, busco equilíbrio.
Por isso, escolhi a meia maratona. Na largada, às 6h45, senti algo diferente. A ansiedade pré-prova não apareceu. Em vez disso, experimentei presença. Ajustei meu ritmo para 4:50 por km, uma velocidade de cruzeiro próxima ao limiar aeróbio/anaeróbio. Fisiologicamente, é um ponto sustentável. Psicologicamente, é quase meditativo.
Entre o Deserto da Judeia e as Montanhas de Moabe, entre Israel e Jordânia — países que assinaram um Tratado de Paz em 1994 — entre águas onde não há peixe nem alga, senti-me viva como nunca. Completei os 21 km em 1h42. Ao cruzar a linha de chegada, sentei no sal e chorei.
É seguro correr em Israel?
Essa foi a pergunta que mais recebi. Israel integra uma região geopolítica complexa. Entretanto, durante toda a estadia, não presenciei instabilidade. A segurança é rigorosa. O aeroporto realiza inspeções detalhadas. Forças de segurança circulam visivelmente treinadas.
A Dead Sea Marathon acontece anualmente e reúne milhares de corredores locais e estrangeiros. Além dela, o país oferece provas como a Tel Aviv Marathon, que atrai dezenas de milhares de participantes; o Hermon Challenge, nas montanhas do Golã; a Volcano Race; a Eilat Desert Marathon; e eventos em Arad e Masada.
Israel mantém um calendário esportivo robusto, mesmo em meio às tensões regionais. Isso não elimina a complexidade do contexto, mas demonstra que a vida cotidiana, inclusive esportiva, continua.
Por Paula Narvaez Teixeira
Você correria 21 km no ponto mais baixo da Terra para viver uma experiência transformadora como essa?
