Decisões políticas de irrigação em massa desviaram rios inteiros, salinizaram o solo, destruíram a pesca e transformaram o Mar de Aral em símbolo global de desastre ambiental provocado pelo homem.
Por muito tempo, o Mar de Aral foi um gigantesco lago salgado que sustentava cidades inteiras: pesca abundante, portos movimentados, barcos saindo diariamente e uma economia regional baseada na água. Em menos de 40 anos, esse cenário colapsou. O que era um mar interior virou um deserto salgado, com barcos enferrujados encalhados na areia onde antes havia ondas.
Hoje, o que restou do Mar de Aral é um conjunto de manchas d’água separadas, cercadas por solo salgado e clima mais hostil. A história de sua transformação não é fruto do acaso nem apenas de processos naturais. É o resultado direto de escolhas humanas sobre rios, barragens, canais e produção agrícola em larga escala.
O Mar de Aral antes do colapso

Antes dos anos 1960, o Mar de Aral era o quarto maior lago do mundo, com cerca de 68 mil quilômetros quadrados de superfície, área comparável a países como Irlanda ou Geórgia.
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Suas águas salgadas chegavam a profundidades de até 40 metros em alguns pontos, e o nome significava “mar das ilhas”, refletindo a quantidade de ilhas espalhadas por sua superfície.
Ele ficava na Ásia Central, compartilhado por Cazaquistão e Uzbequistão, e era alimentado por dois grandes rios, o Amu Dária e o Syr Dária.
Esse mar interior era rico em vida e sustentava uma poderosa indústria pesqueira, que movimentava a economia das cidades em suas margens.
Portos, fábricas de processamento de peixes e comunidades inteiras dependiam do Mar de Aral para sobreviver. A água regulava o microclima da região, ajudava na agricultura e garantia emprego e renda para milhares de pessoas.
O plano de irrigação que virou as costas para o Mar de Aral
Depois da Primeira Guerra Mundial, a União Soviética decidiu transformar desertos em campos produtivos. A estratégia foi desviar a água dos rios que alimentavam o Mar de Aral por meio de grandes canais de irrigação, para produzir alimentos e, sobretudo, algodão nas regiões áridas ao redor.
Nos anos 1940, esses canais foram ampliados. O problema é que uma parte enorme da água se perdia em vazamentos e evaporação ao longo do caminho, antes de chegar às plantações. Mesmo assim, o volume captado continuou aumentando, enquanto o lago não recebia reposição suficiente.
A partir de 1961, o nível do Mar de Aral começou a cair cerca de 20 centímetros por ano. Essa queda se acelerou até chegar a 70 centímetros anuais em 1990.
Enquanto o lago encolhia, o plano de irrigação parecia um sucesso de curto prazo: o Uzbequistão se tornou um dos maiores exportadores de algodão do planeta.
Mas o preço foi altíssimo. Com menos água entrando, a evaporação passou a dominar o balanço hídrico. A superfície do Mar de Aral recuava visivelmente, as margens se afastavam dos antigos portos e o lago deixava de ser um mar navegável para se tornar uma massa d’água em retração.
Sal demais, peixe de menos e cidades abandonadas
Com a redução constante do nível do Mar de Aral, a salinidade das águas aumentou rapidamente. A maior parte da vida aquática não resistiu.
Espécies de peixes que sustentavam a pesca comercial desapareceram ou foram reduzidas a populações residuais.
A indústria pesqueira local foi destruída. Fábricas fecharam, empregos sumiram e as cidades que viviam do lago começaram a definhar.
Portos que antes ficavam à beira d’água passaram a estar a quilômetros de distância das novas margens do Mar de Aral, cercados por areia e crostas de sal em vez de ondas e barcos.
Os navios que já não conseguiam navegar em áreas rasas permaneceram onde estavam e assistiram ao recuo da água. Com o tempo, ficaram totalmente encalhados em leitos secos, virando estruturas enferrujadas no meio de um novo deserto salgado.
Clima mais extremo e um deserto salino em expansão
O desaparecimento do Mar de Aral não afetou apenas a economia. O clima local também mudou. Sem a grande massa d’água para moderar temperaturas, os verões se tornaram mais quentes e secos, e as chuvas diminuíram.
Com a retração do lago, o sal depositado no leito exposto passou a ser carregado pelo vento para outras áreas. Isso aumentou a salinidade do solo em regiões agrícolas vizinhas, prejudicando plantações e empobrecendo ainda mais o entorno do Mar de Aral.
Hoje, a paisagem que substituiu boa parte do lago é um deserto salino com manchas de vegetação debilitada.
A combinação de poeira, sal e resíduos acumulados ao longo das décadas fez do antigo leito um ambiente hostil, frequentemente citado como um dos maiores desastres ambientais causados pela ação humana.
Um mar fragmentado em norte e sul
O Mar de Aral não desapareceu completamente, mas se fragmentou. Hoje ele existe em porções separadas: uma parte norte e uma parte sul, sendo que esta ainda se subdividiu em setores central e ocidental.
Atualmente, o Mar de Aral cobre apenas cerca de 30 por cento de sua área original e mantém em torno de 20 por cento do volume de água que tinha há cerca de 50 anos.
A única porção que apresentou alguma recuperação significativa foi o Aral do Norte, graças a uma obra de engenharia.
Em 2005, foi construída a barragem de Kok-Aral, com aproximadamente 12 quilômetros de extensão, para reduzir o fluxo de água que escapava da parte norte em direção ao sul.
Com essa barragem, o nível da porção norte do Mar de Aral subiu em cerca de 3 metros, a salinidade diminuiu e a pesca começou a se recuperar nessa área.
Já a parte sul do Mar de Aral continua em colapso. Mesmo recebendo por volta de 3 bilhões de metros cúbicos de água por ano vindos da porção norte, esse volume ainda é insuficiente para recuperar o lago. A tendência é de encolhimento contínuo e expansão do deserto salino ao redor.
Decisões humanas, armas biológicas e um alerta para o futuro

O desaparecimento acelerado do Mar de Aral é frequentemente classificado como um dos maiores desastres ambientais já vistos.
Há estudos que indicam que o lago já passava por um processo natural de mudança ao longo de séculos ou milênios, mas a intervenção humana encurtou brutalmente esse tempo. Em vez de séculos, o Mar de Aral foi praticamente drenado em algumas poucas décadas.
O caso fica ainda mais simbólico quando se lembra que, em 1948, os soviéticos instalaram em uma ilha do Mar de Aral uma base de armas biológicas, usada durante décadas e abandonada após o fim da União Soviética.
Um mar que sustentava vida, cidades e economia se tornou, ao mesmo tempo, deserto, depósito de sal e cenário de experimentos militares.
A história do Mar de Aral mostra como políticas de produção focadas apenas no resultado imediato podem ignorar completamente os custos ambientais e sociais de longo prazo.
Ao priorizar algodão e irrigação mal planejada, uma região ganhou exportações por alguns anos e perdeu um ecossistema inteiro para sempre, ou por tempo muito superior à escala de vida de quem tomou essas decisões.
No fim, o Mar de Aral se tornou um espelho do que decisões humanas são capazes de fazer com um grande corpo d’água quando rios são tratados apenas como fontes de volume e não como parte de um sistema vivo.
E você, acha que a história do Mar de Aral deveria ser ensinada em todas as escolas como exemplo do preço das decisões humanas sobre água e ecossistemas inteiros?


Sim
Absurda essa situação do Mar de Aral,como foi possível? Inaceitável, ****, pra dizer o mínimo
Este desastre ambiental deve ser propagado,dentre tantos outros, de como “o feitiço pode virar contra o feiticeiro” consequência da ganância e estuticia dos seres humanos. No Brasil corremos este risco com o perigo iminente da diminuição da vazão dos “rios voadores da Amazonia de vido a devastação da floresta Amazonica provocada por projetos agropecuários, construção de ferrovias e rodovias atraindo toda laia de grileiros.