Aos 17 anos, com apenas R$ 400 no bolso e sem dinheiro para comprar roupas em lojas tradicionais, a jovem Michelle Svicero começou a garimpar peças usadas em Bauru, no interior de São Paulo, e a revendê-las pela internet. Mais de uma década depois, em 2025, essa mesma menina transformou o improviso na Release, uma rede de brechós que agora mira 50 lojas e R$ 90 milhões de receita por meio de franquias. Um salto que partiu de R$ 400 e hoje se apoia em um mercado de moda circular avaliado em cerca de R$ 24 bilhões no país.
Segundo a Exame, o negócio nasceu da necessidade: sem recursos para acompanhar as amigas nas vitrines, a jovem passou a caçar roupas de segunda mão e a vendê-las com lucro. Segundo o Diário do Comércio, Michelle Svicero resume aquele começo com uma frase que explica seu pioneirismo: “Eu comecei vendendo online, antes mesmo do Enjoei existir. Criava sites simples e postava as peças.” Daquele improviso caseiro à marca Release, o caminho foi longo, e cada etapa ajuda a entender por que os brechós deixaram de ser um mercado de nicho.
Os R$ 400 que começaram tudo aos 17 anos
Antes de existir a Release, existia apenas uma adolescente inconformada com o próprio orçamento. Michelle Svicero tinha 17 anos e não tinha dinheiro para comprar roupas nas lojas do shopping como as colegas. Em vez de desistir do desejo de se vestir bem, ela fez as contas ao contrário: se não podia pagar caro, iria garimpar barato. Os R$ 400 que juntou viraram, ao mesmo tempo, capital de giro e matéria-prima de um negócio que ninguém, naquela época, chamaria de promissor.
O ponto de partida foi o garimpo. Ela vasculhava peças em bazares e sebos de roupa, escolhia o que tinha valor e potencial de revenda e devolvia cada achado ao mercado com uma etiqueta nova. Não havia glamour nisso. Havia trabalho, olhar treinado e a disciplina de transformar R$ 400 em algo maior a cada rodada de compra e venda. A lógica da revenda, comprar bem para vender melhor, estava ali desde o primeiro dia.
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O detalhe que torna a história de Michelle diferente é que a escassez virou método. Sem investidor, sem empréstimo e sem rede de segurança, ela aprendeu a operar com margem apertada e reinvestimento total. Cada peça vendida financiava a próxima compra. Era uma operação de uma pessoa só, tocada no talento de enxergar em uma roupa usada aquilo que o dono anterior já não via.
De Bauru para a internet, antes mesmo do Enjoei

O segundo salto foi geográfico sem sair de casa. De Bauru, no interior de São Paulo, Michelle Svicero levou o brechó para a internet numa época em que vender roupa usada online ainda soava estranho. Não existia Enjoei, não existia marketplace de segunda mão popularizado, não existia manual. Ela criava sites simples, fotografava as peças e publicava os anúncios por conta própria.
Esse pioneirismo digital deu à futura Release uma vantagem de tempo. Enquanto o Brasil ainda associava roupa usada a loja empoeirada de bairro, ela já testava vitrine virtual, logística caseira e atendimento direto ao cliente. A moda circular, termo que só ganharia força anos depois, já estava sendo praticada ali, sem nome pomposo, no quarto de uma jovem do interior paulista.
Vender pela internet também ensinou escala. Uma loja física atende quem passa na porta. Um site alcança quem está a centenas de quilômetros. Foi essa percepção que separou o hobby do negócio e plantou a semente do que viraria uma rede. A ideia de que um brechó podia ser grande, e não apenas charmoso, nasceu nesse período.
O bazar que vendeu o dobro do mês em um único dia
Todo negócio tem um dia que divide o antes e o depois. Para Michelle, esse dia foi um bazar montado dentro de uma loja parceira. Em 24 horas, ela vendeu o equivalente ao dobro do que costumava faturar em um mês inteiro. O número, sozinho, já seria animador. O que ele revelava era mais importante: havia demanda reprimida por roupa de segunda mão com qualidade e curadoria.
Aquele resultado funcionou como prova de conceito. Se um único bazar bem-feito rendia tanto, um ponto fixo, organizado e constante poderia render muito mais. A moda circular deixava de ser uma alternativa apenas de quem não tinha dinheiro e passava a ser escolha de quem queria peças diferentes, boas e com preço justo. O negócio ganhava um novo público.
O bazar também ensinou sobre experiência de compra. Não bastava ter roupa boa e barata. Era preciso apresentar bem, organizar por curadoria e fazer o cliente se sentir em uma loja de verdade, não em um saldão. Essa obsessão por experiência viraria, mais tarde, uma das marcas registradas da Release.
A primeira loja nascida nos fundos de outra loja
A primeira loja fixa não nasceu em um ponto nobre. Nasceu, literalmente, nos fundos da mesma loja que havia sediado o bazar histórico. Com móveis reformados e uma curadoria rigorosa das peças, Michelle Svicero montou ali o embrião físico da Release. Cada real de lucro voltava direto para a operação.
Essa fase revela o método financeiro por trás da marca. “Nunca tive dinheiro de banco ou investidor. O lucro de um mês ia para ar-condicionado”, contou a empreendedora, resumindo anos de reinvestimento paciente. Não havia atalho. O crescimento era financiado pela própria operação, peça vendida após peça vendida.
Foi nesse ambiente de fundos de loja que a Release começou a ganhar identidade. A curadoria rigorosa separava a marca das concepções antigas de brechó. Ali, roupa usada não significava roupa qualquer. Significava seleção, organização e a promessa de que valia a pena garimpar naquele espaço. A moda circular ganhava, enfim, uma vitrine à altura.
A rede Release e a aposta nas franquias
Com o modelo validado, chegou a hora de multiplicar. A Release partiu para a expansão por franquias, em parceria com a 300 Franchising, especializada em escalar negócios. A seletividade da parceira diz muito sobre o potencial da marca. “A 300 seleciona poucos negócios para escalar. No dia da apresentação, éramos 12 empreendedores e só dois foram escolhidos”, relatou Michelle Svicero.
O formato de franquia foi desenhado para replicar a experiência, e não apenas a fachada. Cada unidade da Release é pensada 100% para o público feminino, com espaços de descanso, cadeira de massagem e até área pet e kids. A ideia é que comprar em um brechó da rede seja tão agradável quanto comprar em uma loja nova, com a diferença do preço e do apelo da moda circular.
Para blindar a qualidade, a fundadora decidiu acompanhar de perto o começo da expansão. As 10 primeiras franquias terão mentoria direta de Michelle Svicero, que faz questão de transmitir a curadoria e o padrão que construiu ao longo de mais de uma década. A franquia, nesse caso, não vende apenas uma marca. Vende um método de operar que já foi testado no osso.
Moda circular: o mercado de R$ 24 bilhões que impulsiona a Release
A ambição da Release não flutua no vácuo. Ela surfa uma onda concreta. A moda circular movimentou cerca de R$ 24 bilhões no Brasil, e o consumo de segunda mão já representa perto de 12% do guarda-roupa dos brasileiros. Em outras palavras, mais de um décimo das roupas do país já passou por uma revenda antes de chegar ao armário de quem usa.
Os números de trajetória são igualmente eloquentes. O setor, que girava algo como R$ 7 bilhões em 2021, saltou para a casa dos R$ 24 bilhões em 2025, com expectativa de crescimento de até 30% ao ano. A projeção mais ousada aponta que, até 2030, os brechós podem ultrapassar as vendas do fast fashion. A moda circular deixou de ser tendência de nicho para virar força de mercado.
É esse pano de fundo que dá sentido à meta da Release. Quando a moda circular cresce dois dígitos ao ano e a compra de segunda mão ganha status de escolha consciente, uma rede de franquias bem estruturada tem espaço de sobra para crescer. A empreendedora não está apenas abrindo lojas. Está posicionando a marca no ponto exato em que o comportamento do consumidor virou a chave.
A meta dos 50 brechós e dos R$ 90 milhões
O destino declarado é ambicioso e específico: chegar a 50 lojas e R$ 90 milhões de receita. Para uma marca que começou com R$ 400, a distância entre o ponto de partida e a meta é quase vertiginosa. E é justamente esse contraste que dá força à história da Release.
A matemática por trás do plano é a da replicação. Se cada unidade da rede reproduz a experiência, a curadoria e o apelo da moda circular que deram certo em Bauru, a soma de dezenas de franquias pode, sim, empurrar o faturamento rumo à casa dos R$ 90 milhões. O modelo, tratado como negócio profissional, deixa de ser pequeno por natureza.
Há uma frase da fundadora que resume o espanto diante do próprio tamanho. “Se alguém tivesse me dito há 15 anos que o mercado de second hand estaria onde está hoje”, refletiu Michelle Svicero, deixando a conta no ar. Quinze anos atrás, ela era a menina dos R$ 400. Hoje, comanda uma rede que quer valer dezenas de milhões.
O que a trajetória da Release ensina sobre recomeços
A história não é só sobre dinheiro. É sobre enxergar valor onde outros veem descarte. A Release nasceu de uma limitação, a falta dos R$ 400 virou impulso, e cresceu justamente por levar a sério aquilo que o mercado tradicional desprezava: a roupa usada e a segunda mão. A moda circular foi o veículo, mas a matéria-prima sempre foi o olhar.
Também é uma história sobre paciência. Não houve cheque de investidor nem virada da noite para o dia. Houve reinvestimento, curadoria e mais de uma década transformando lucro em estrutura. A franquia chega agora, no fim de um processo, e não como atalho no começo. É o oposto da pressa que costuma definir startups.
Michelle Svicero provou que um brechó pode ser grande, moderno e desejável, e que a moda circular tem lastro para sustentar uma rede inteira. De R$ 400 aos 17 anos à mira dos R$ 90 milhões, a Release é a prova de que recomeço, às vezes, é só uma roupa esperando um novo dono. E se um único armário guarda tantas peças que poderiam ganhar uma segunda vida, quantas fortunas silenciosas ainda estão penduradas, esquecidas, à espera de alguém com coragem de garimpar?
