O megacampo de gás Jafurah vai liberar até 1 milhão de barris diários para exportação, inaugurar um superávit global de petróleo e pressionar preços para cerca de US$ 60
A Arábia Saudita está prestes a provocar uma das maiores viradas no mercado global de energia desde a ascensão do shale americano. O gigantesco campo de gás Jafurah, considerado o maior projeto não convencional do Oriente Médio, começa a operar no fim de 2025 e promete mudar a lógica de consumo do país. O que está em jogo não é apenas gás barato para o uso interno, mas um rearranjo completo da estratégia saudita: reduzir o uso de petróleo dentro de casa para liberar uma enxurrada de barris ao resto do mundo.
Especialistas têm sido categóricos: quando Jafurah atingir sua plena capacidade, a Arábia Saudita poderá despejar no mercado internacional até 1 milhão de barris de petróleo por dia, alterando preços, estratégias da Opep e projeções para a próxima década.
Um país que queima petróleo para gerar energia prepara sua própria ruptura
A Arábia Saudita é uma exceção no mundo moderno. Enquanto países utilizam gás natural, energia renovável ou nuclear para abastecer suas redes elétricas, os sauditas ainda queimam petróleo para gerar eletricidade. Não é por falta de alternativas tecnológicas, mas sim porque o país sempre teve petróleo de sobra e nunca se viu pressionado a mudar.
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Esse cenário começa a ruir. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), o consumo interno de combustíveis líquidos deve cair 1 milhão de barris por dia até 2025, sendo cerca de meio milhão de barris apenas de petróleo. A queda não acontecerá por mágica: ela será impulsionada por uma combinação de novos campos de gás, expansão acelerada de fontes renováveis e substituição direta do petróleo por gás nas indústrias petroquímicas e na geração de energia.

Esse movimento faz parte da ambiciosa Visão 2030, o megaprograma de investimentos liderado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. A ideia central é simples e radical: usar o petróleo que sobra para transformar a economia e, ao mesmo tempo, preparar o país para sobreviver a um mundo que consumirá menos combustíveis fósseis.
Riad entende uma verdade incômoda: se o mundo migrar mais rápido do que o previsto para carros elétricos, energia solar e hidrogênio, o preço do petróleo poderá despencar. E uma queda estrutural nos preços colocaria em risco toda a estabilidade saudita. Por isso, os investimentos em gás são vistos como uma forma de blindar o país antes que o choque aconteça.
Jafurah: o campo que pode empurrar o petróleo para US$ 60 (ou menos)
O banco Julius Baer foi direto ao ponto em seu relatório: Jafurah inaugura uma nova era para o mercado internacional. Com a substituição do petróleo por gás nas operações internas, o país não só reduz custos como libera volumes gigantescos para exportação.
A instituição afirma que a entrada em operação do campo de gás criará um superávit de oferta muito maior que o estimado inicialmente, pressionando os preços globais. O banco projeta que o petróleo pode recuar para US$ 60 ou até abaixo disso, caso o excedente saudita seja mantido por tempo prolongado.
Não é exagero: Jafurah é um projeto colossal, avaliado em US$ 11 bilhões, com participação de gigantes como BlackRock e GIP. Quando entrar totalmente em operação, poderá elevar em 60% a produção de gás natural da Aramco, reforçando o que os analistas chamam de “a década da energia barata” no Oriente Médio.
Segundo a consultoria Argus, hoje 57% da eletricidade saudita vem do gás e 43% de derivados do petróleo. Com Jafurah, esse equilíbrio muda definitivamente. A primeira fase começa no final de 2025, com produção de 200 milhões de pés cúbicos por dia. Em 2030, a capacidade chega a 2 bilhões — dez vezes mais.
Além de reduzir o uso interno de petróleo, o campo trará outro impacto relevante: a Aramco espera gerar entre US$ 9 bilhões e US$ 10 bilhões adicionais por ano em fluxo de caixa até o fim da década, unindo segurança energética, dinheiro novo e capacidade exportadora ampliada.
O novo tabuleiro: mais gás para dentro, mais petróleo para fora
A consultoria S&P Global projeta um corte expressivo no consumo de petróleo dentro do país: de 440 mil barris por dia em 2025 para 390 mil em 2026, tendência que deve se intensificar com o avanço de Jafurah. Isso libera volumes estratégicos para exportação e reforça a posição dominante da Arábia Saudita na Opep.
O analista Rucker, em entrevista recente, destacou que o campo funciona como uma garantia de que a Arábia Saudita continuará abastecendo o mercado mundial por muitos anos, ampliando o superávit já observado em algumas previsões da própria Opep.
Ele ressalta outro ponto pouco discutido: o impacto no setor petroquímico. A oferta abundante de gás natural, muito mais barato que o petróleo, altera a dinâmica de custos e pode favorecer indústrias que dependem profundamente de insumos derivados. É um efeito em cascata que reorganiza preços, margens e competitividade internacional.
Para Julius Baer, o simbolismo é claro: Jafurah é o “projeto emblemático” de uma transformação estrutural no mercado energético. Um movimento que não apenas reforça a posição saudita, mas também sinaliza que o petróleo pode estar entrando em sua fase de maior oferta desde 2014.
