Projeto feito por Victoria Ou e Justin Huang nasceu depois de uma visita a uma estação de tratamento nos Estados Unidos, onde os adolescentes perceberam que partículas plásticas microscópicas ainda escapam de métodos comuns de filtragem
Dois estudantes de 17 anos do Texas, nos Estados Unidos, chamaram atenção ao criar um dispositivo compacto capaz de remover microplásticos da água usando ondas ultrassônicas. O projeto foi desenvolvido por Victoria Ou e Justin Huang e venceu um dos principais prêmios da Regeneron International Science and Engineering Fair, a ISEF 2024.
O equipamento tem formato semelhante ao de uma caneta e usa transdutores elétricos para gerar ondas sonoras de alta frequência. Nos testes de laboratório, o sistema conseguiu remover entre 84% e 94% das partículas suspensas em uma única passagem da água pelo dispositivo.
A dupla recebeu o prêmio Gordon E. Moore Award for Positive Outcomes for Future Generations, no valor de US$ 50 mil, quantia divulgada no Brasil como cerca de R$ 250 mil. A conquista colocou o projeto no centro de uma discussão maior sobre tratamento de água, poluição plástica e tecnologias que ainda precisam sair da bancada para ganhar escala.
-
EUA tentaram “domar” furacões jogando iodeto de prata dentro das nuvens, enviaram aviões direto para tempestades gigantes e passaram quase 20 anos tentando reduzir a força dos monstros tropicais
-
Tinta ultrapreta para carros absorve 99,9% da luz e faz veículos parecerem um “buraco negro” sobre rodas
-
Cidade maia é encontrada com pirâmide de 12 metros, palácios, canais e 14 monumentos preservados em área isolada do México
-
Aos 8 anos, menina indígena juntou 10 garrafas PET pintadas de preto, uma mangueira velha e a porta de vidro de um freezer quebrado para criar um aquecedor de água movido apenas pela luz do sol, e a invenção a tornou a primeira criança a ganhar um prêmio de ciência da maior universidade do país.
A ideia toca em um problema difícil para estações de tratamento, filtros domésticos e sistemas industriais, já que os microplásticos são pequenos, variados e podem passar por etapas convencionais de separação.
O problema apareceu quando os estudantes visitaram uma estação de tratamento
A ideia surgiu depois que Victoria Ou e Justin Huang visitaram uma estação de tratamento de água e perguntaram como os microplásticos eram removidos. Segundo relato publicado pelo Business Insider, a resposta que ouviram foi direta: aquele tipo de partícula não era tratado como alvo principal do processo.

Esse ponto ajudou a definir o projeto. Em vez de tentar criar mais um filtro físico, que pode entupir com o uso, os estudantes buscaram uma solução que empurrasse as partículas para longe do fluxo principal da água sem depender de telas finas ou produtos químicos.
Como o filtro ultrassônico separa plástico microscópico sem barrar a passagem da água
O dispositivo criado pelos adolescentes funciona com duas etapas de filtragem acústica. A água entra por uma extremidade do tubo, passa por regiões onde os transdutores emitem ultrassom e sai pela outra ponta com menor concentração de partículas plásticas.
As ondas sonoras geram pressão dentro do canal por onde a água circula. Essa força acústica desloca os microplásticos para uma área de retenção, enquanto o fluxo de água continua seguindo adiante.
De acordo com a Society for Science, os testes feitos para a ISEF indicaram remoção de 84% a 94% de microplásticos suspensos em uma única passagem. A avaliação incluiu partículas de poliuretano, poliestireno e polietileno, três materiais comuns em produtos plásticos.
O ponto que torna o projeto chamativo é a ausência de barreira física tradicional. Em filtros comuns, quanto menor a partícula a ser barrada, maior costuma ser o risco de entupimento, perda de vazão e manutenção frequente.
Ainda assim, o protótipo não deve ser confundido com um produto pronto para uso doméstico ou municipal. Os próprios estudantes afirmaram que o sistema precisa de equipamentos melhores, novos testes e adaptação para funcionar em volumes maiores de água.
Microplásticos estão na água, no solo, no ar e ainda desafiam a medição
Microplásticos são fragmentos de plástico com menos de 5 milímetros, conforme a definição usada pela NOAA, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos. Eles podem surgir da degradação de embalagens, tecidos sintéticos, pneus, tintas, produtos de higiene e resíduos industriais.
O problema é que essas partículas não têm um único tamanho, peso ou composição. Algumas flutuam, outras afundam, algumas se quebram em pedaços ainda menores e podem chegar à escala dos nanoplásticos, que são mais difíceis de detectar.
A Organização Mundial da Saúde já apontou lacunas relevantes na pesquisa sobre microplásticos na água potável. O relatório da entidade não trata o tema como caso encerrado, mas pede melhores métodos de monitoramento e mais estudos sobre exposição humana.
Nos Estados Unidos, a EPA afirma que pesquisadores ainda trabalham para padronizar formas de coleta, extração, quantificação e identificação desses materiais. Em 2026, a agência incluiu microplásticos na lista de contaminantes candidatos para água potável, mas a inclusão não significa, por si só, um limite obrigatório de concentração.
Por que remover microplásticos da água ainda é tão complicado
Os métodos já estudados incluem coagulação química, membranas, filtros físicos, flotação, tratamentos biológicos e combinações entre tecnologias. Cada caminho tem um entrave prático, seja custo, geração de resíduo, entupimento, consumo de energia ou dificuldade para operar em grande escala.
Filtros físicos muito finos podem segurar partículas pequenas, mas tendem a exigir manutenção constante. Coagulantes químicos ajudam a agrupar partículas, mas podem alterar características da água e gerar resíduos que precisam ser tratados depois.
A proposta dos adolescentes entra nesse espaço porque tenta separar o plástico pela força acústica, e não apenas pelo tamanho dos poros. Se a técnica avançar, poderia ser estudada para estações de tratamento, água residual industrial, máquinas de lavar roupa e sistemas menores de circulação de água.
Mesmo com os bons resultados iniciais, ainda faltam respostas. O dispositivo precisa ser testado com água real, que contém barro, matéria orgânica, sais, microrganismos e misturas de contaminantes, não apenas amostras controladas de laboratório.
O prêmio de US$ 50 mil ajuda, mas o próximo teste será fora da feira

A vitória na ISEF deu visibilidade e recursos para Victoria Ou e Justin Huang continuarem o projeto. O prêmio também mostrou como soluções de baixo volume, feitas em ambiente escolar, podem apontar caminhos para problemas que ainda desafiam laboratórios e empresas.
O desafio agora é provar que o sistema funciona fora do protótipo. Para sair da escala de uma caneta e chegar a uma estação de tratamento, o filtro ultrassônico precisaria lidar com vazão alta, consumo energético, durabilidade, limpeza, custo de fabricação e segurança operacional.
A ideia dos dois estudantes não resolve sozinha a poluição por plástico. Mas mostra uma rota técnica curiosa: usar som para empurrar partículas invisíveis para fora da água, sem depender apenas de uma peneira microscópica.
Você acha que uma tecnologia como essa poderia chegar primeiro às casas, às máquinas de lavar ou às estações de tratamento? Deixe sua opinião nos comentários e diga onde esse tipo de filtro teria mais impacto no dia a dia.
