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Com Vaca Muerta garantindo metade do petróleo argentino, Añelo salta de 3 mil para 12 mil moradores, tem aluguel de 2,8 milhões, estradas, hospitais e salários de até 12 milhões

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 30/11/2025 às 19:08
Atualizado em 30/11/2025 às 19:10
Vaca Muerta transforma o petróleo argentino e a cidade de Añelo em símbolo do boom do petróleo, com salários milionários e infraestrutura sob pressão.
Vaca Muerta transforma o petróleo argentino e a cidade de Añelo em símbolo do boom do petróleo, com salários milionários e infraestrutura sob pressão.
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À sombra de Vaca Muerta, a cidade de Añelo sai da pecuária para o centro do petróleo argentino, vive um boom do petróleo com salários milionários, aluguéis recordes e estradas saturadas, enquanto hospitais, escolas e serviços públicos tentam acompanhar o ritmo imposto pela nova fronteira energética

Vaca Muerta saiu dos mapas técnicos de geólogos e executivos para redesenhar a geografia econômica da Argentina. Desde o acordo de 2013 entre YPF e Chevron, a formação no norte da Patagônia se consolidou como o grande trunfo energético do país, fornecendo hoje mais da metade do gás e do petróleo argentinos e ajudando a virar um déficit histórico em superávit de cerca de 6 bilhões de dólares na balança energética. Essa virada garantiu abastecimento interno e devolveu dólares a uma economia cronicamente dependente de importações de energia.

No coração desse processo, a pequena Añelo deixou de ser um povoado agropecuário centrado na criação de cabras para se transformar em cidade-base de Vaca Muerta, com trânsito pesado, bairros surgindo sobre o planalto árido e uma pressão inédita sobre habitação, escolas, saúde e infraestrutura. A população permanente saltou de cerca de 3 mil habitantes para algo em torno de 12 mil, acompanhada por cerca de 15 mil trabalhadores que “pousam” na cidade em rotatividade, desenhando um cotidiano em que o dinheiro do petróleo convive com estradas em colapso, serviços faltando e um custo de vida proibitivo para quem não está na folha das grandes operadoras.

De vila esquecida à porta de entrada de Vaca Muerta

Vaca Muerta transforma o petróleo argentino e a cidade de Añelo em símbolo do boom do petróleo, com salários milionários e infraestrutura sob pressão.

Até 2013, Añelo ficava à margem da história petrolífera de Neuquén.

Outras localidades, como Plaza Huincul, Cutralcó e Rincón de los Sauces, já haviam sido transformadas pelo petróleo convencional desde o início do século 20, enquanto Añelo permanecia como uma vila de pouco mais de 3 mil moradores, sem gás encanado, sem água regular e com quedas constantes de energia.

A chegada de Vaca Muerta mudou a escala. O fracking, técnica de exploração não convencional de petróleo e gás, levou ao primeiro grande acordo entre YPF e Chevron e exigiu uma reorganização completa do território.

A promessa de uma rocha-mãe rica em hidrocarbonetos a 3 mil metros de profundidade converteu Añelo em plataforma logística, centro de serviços e alojamento para uma indústria que opera 24 horas por dia.

Caminhões, areia e estradas no limite do colapso

O boom de Vaca Muerta começou pelas estradas.

As simples vias rurais que levavam a chácaras e áreas agrícolas passaram a receber vans brancas de empresas, caminhões pesados e carretas carregando areia.

A areia é essencial para fraturar a rocha-mãe e manter as fissuras abertas, mas não existe na qualidade adequada em Neuquén.

Ela vem da província de Entre Ríos, a cerca de 1,3 mil quilômetros, toda transportada por caminhões, já que não há linha férrea ligando as duas regiões.

O resultado foi uma saturação inédita. Em um único trecho da rodovia 7, que conecta Añelo a Chañar, a secretaria de Emergências e Gestão de Riscos da província registrou 10 mortos em apenas seis meses.

Em um período recente, quase 25 mil veículos passaram a ingressar diariamente em Añelo, sendo cerca de 6,4 mil caminhões.

As estradas, antes pensadas para tráfego leve, começaram a rachar, a malha viária entrou em emergência e reacendeu o debate sobre quem deve pagar a conta: o governo provincial, que recebe royalties, ou as petroleiras, que sobrecarregam a infraestrutura.

No acostamento dessa nova “via expressa” de Vaca Muerta, pequenos negócios também explodiram.

Favio Javier Jiménez, borracheiro desde a infância, viu sua oficina familiar “El Pampita” passar de um ponto isolado nas dunas a endereço central, cercado pelo avanço da cidade.

Vaca Muerta transformou até a borracharia em ativo estratégico, ao ponto de Jiménez abrir uma segunda unidade exclusiva para veículos pesados no planalto, acompanhando a expansão para cima de Añelo.

Planalto, aluguel de 2,8 milhões e cidade partida

Com a área original saturada, a solução foi subir. No planalto árido, acima do centro histórico, ergueu-se uma segunda Añelo, sem rio, sem árvores, varrida por nuvens de poeira, mas com espaço para alojar trabalhadores e famílias recém-chegadas.

Loteamentos privados avançaram, inicialmente com bairros sociais destinados a moradores antigos, seguidos pela entrada de construtoras em grande escala.

Os terrenos de cerca de 360 metros quadrados deram lugar a lotes de aproximadamente 5 mil metros quadrados para conjuntos de apartamentos e hotéis.

As petroleiras passaram a exigir unidades padronizadas, com dois quartos para quatro pessoas, sala, cozinha e dois banheiros, além de pequenas churrasqueiras, para acomodar equipes em turnos intensos.

O efeito imediato foi uma explosão nos preços dos aluguéis.

Uma unidade típica no planalto pode ser alugada por cerca de 2,8 milhões de pesos, valor que, convertido, se aproxima de 2,2 mil dólares ou quase 12 mil reais.

Na capital provincial, Neuquén, um imóvel similar custa pouco mais de 1 milhão de pesos, aproximadamente 800 dólares ou 4,3 mil reais.

Em termos práticos, Vaca Muerta criou um mercado imobiliário paralelo, muito mais caro do que o da capital, empurrando professores, servidores e pequenos comerciantes para a borda da cidade ou para o vaivém diário de dezenas de quilômetros.

Escola em contêineres e giro migratório acelerado

O boom de Vaca Muerta também chegou às salas de aula.

O colégio secundarista CPEM 39, em Añelo, viu as matrículas quase dobrarem em poucos anos, saltando de cerca de 260 para mais de 500 estudantes.

Sem expansão proporcional da infraestrutura, parte das aulas passou a ser ministrada em contêineres instalados no pátio, expressão concreta de uma cidade que cresce mais rápido do que o poder público consegue acompanhar.

A diretoria da escola descreve um fluxo contínuo de novos alunos, algo entre 10 e 12 por mês, vindos de diferentes regiões da Argentina e de países vizinhos.

Famílias do norte argentino, de outras áreas petrolíferas do sul, como Chubut e Santa Cruz, e migrantes do Paraguai e da Bolívia compõem o novo mosaico de Vaca Muerta.

Há ainda mulheres dominicanas que chegaram com maior poder aquisitivo, associadas a serviços e à prostituição em cidades do entorno.

Vaca Muerta reconfigurou o mapa humano de Añelo, tornando a escola um espelho da migração acelerada, mas também da instabilidade, já que muitos estudantes passam por três ou quatro colégios em um único ano escolar devido às transferências dos pais.

Hospital pressionado e a difícil missão de trazer especialistas

Se o crescimento da população foi rápido, a ampliação dos serviços de saúde não acompanhou o ritmo.

O hospital público de Añelo conta com uma equipe de 10 clínicos gerais, mas carece de especialistas essenciais, como ginecologistas, obstetras, pediatras e dentistas residentes, mesmo com o aumento de nascimentos e da demanda por atendimento.

Para médicos em início ou meio de carreira, a conta custo-benefício pesa. Trabalhar em Añelo, cidade em transição e com déficits de serviços básicos, oferece remuneração similar à de destinos mais atrativos, como San Martín de los Andes, Villa La Angostura ou a própria Neuquén.

A falta de escolas estáveis, as longas distâncias percorridas por professores e a precariedade de parte da infraestrutura urbana funcionam como desincentivos.

Vaca Muerta traz pacientes e recursos, mas não garante, por si só, a fixação de profissionais qualificados, obrigando o hospital a operar no limite.

Salários de até 12 milhões e uma desigualdade escancarada

Do ponto de vista da renda, a cidade vive um choque de realidades.

Segundo o prefeito Fernando Banderet, o trabalhador direto da indústria petrolífera pode ganhar entre 3 milhões e 10 ou 12 milhões de pesos, algo entre 2,4 mil e 9,6 mil dólares, ou de 13 mil a 52 mil reais, dependendo da conversão usada.

Já funcionários públicos, médicos, professores e policiais começam na faixa de 500 mil pesos e, após muitos anos, podem chegar a 1,5 milhão ou 2 milhões, patamar que oscila entre 400 e 1,6 mil dólares, ou de 2,2 mil a 8,6 mil reais.

Essa diferença de renda força o município a criar programas de habitação com planos de pagamento de longo prazo para quem não é absorvido diretamente pela cadeia de Vaca Muerta.

Professores relatam pagar cerca de 1 milhão de pesos por apartamentos pequenos, consumindo metade do salário apenas com aluguel.

Na prática, Vaca Muerta produz uma espécie de cidade partida, em que borracheiros, donos de trailers de comida, pequenos comerciantes e trabalhadores de serviços precisam disputar espaço com salários petrolíferos em um mercado inflacionado.

Vaca Muerta entre a salvação energética e o custo social

No plano macroeconômico, Vaca Muerta permitiu à Argentina encerrar duas décadas de dependência externa em energia, converter déficit em superávit e mirar a exportação de petróleo e gás como fonte de divisas em meio a uma crise crônica de dólares.

Mas, junto com os benefícios, vieram críticas ligadas ao consumo de água, à contaminação e ao aumento de atividade sísmica associada ao fracking em regiões próximas a lagos que abastecem Neuquén e o vale do Rio Negro.

Na sala de aula, professores como José Luis Cabrera se veem divididos entre explicar aos alunos a riqueza que Vaca Muerta trouxe e os impactos ambientais e sociais que ela impõe.

Ao mesmo tempo em que as famílias dependem dos salários do petróleo para manter seus filhos na escola, muitos jovens já não querem sair de Añelo para estudar em outras cidades.

Para parte deles, o objetivo é entrar diretamente nas empresas de Vaca Muerta assim que completam 18 ou 19 anos, enquanto algumas alunas dizem desejar se casar com trabalhadores do setor, atraídas pelos altos rendimentos.

Em um lugar onde o sanduíche de lombinho vendido na beira da estrada convive com caminhões de areia, poços de alta tecnologia e salários milionários em pesos, Vaca Muerta consolidou uma nova fronteira de riqueza e também de tensão social.

Diante de uma Vaca Muerta que garante metade do petróleo argentino, multiplica salários e, ao mesmo tempo, pressiona estradas, escolas e hospitais em Añelo, você acha que o boom deve ser acelerado para gerar mais dólares ou freado até que a infraestrutura e os serviços consigam acompanhar esse ritmo de crescimento?

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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