Usinas britânicas de até 40 MW convertem resíduos de frango em eletricidade, abastecendo dezenas de milhares de residências.
Em 2000, entrou em operação no Reino Unido um modelo energético incomum que transformaria um problema ambiental da avicultura em fonte estável de eletricidade. A empresa Fibrowatt desenvolveu e operou usinas termelétricas movidas a “poultry litter”, termo técnico para a mistura de fezes, serragem e restos orgânicos acumulados nas granjas de frango. Cada unidade tinha capacidade instalada de até 38 a 40 megawatts, potência suficiente para abastecer dezenas de milhares de residências.
O projeto foi implementado em regiões com forte concentração de produção avícola, como Eye (Suffolk), Thetford (Norfolk) e Westfield (Escócia). O objetivo era resolver dois problemas simultaneamente: o descarte ambientalmente sensível da cama aviária e a necessidade de geração elétrica renovável dentro da matriz britânica.
O desafio ambiental da cama aviária no Reino Unido
O Reino Unido possui uma das indústrias avícolas mais consolidadas da Europa. A produção intensiva de frangos gera grandes volumes de resíduos orgânicos. A cama aviária contém nitrogênio, fósforo e potássio, mas, quando aplicada em excesso ao solo, pode contaminar lençóis freáticos e cursos d’água.
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Nos anos 1990, o acúmulo desse resíduo começou a gerar preocupação ambiental, especialmente em regiões com alta densidade de granjas. A alternativa encontrada foi utilizá-lo como biomassa para geração energética.
A lógica era clara: em vez de descartar o resíduo, convertê-lo em combustível sólido para usinas termelétricas dedicadas.
Como funciona a geração elétrica a partir de resíduos de frango
O processo industrial começa com a coleta da cama aviária diretamente das granjas. O material é transportado até a usina e passa por secagem e controle de umidade para garantir eficiência na combustão.
A biomassa é então alimentada em caldeiras especialmente projetadas para queimar material com alto teor mineral e presença de compostos nitrogenados. A combustão gera vapor em alta pressão, que movimenta turbinas acopladas a geradores elétricos.
A potência instalada de até 40 MW refere-se à capacidade máxima de geração contínua da planta. Em termos práticos, uma usina dessa escala pode fornecer energia para aproximadamente 40 a 50 mil residências, dependendo do consumo médio.
Além da geração elétrica, o sistema produz cinzas ricas em fósforo e potássio, que podem ser reaproveitadas como fertilizante mineral, fechando parcialmente o ciclo produtivo.
Tecnologia aplicada e controle de emissões
A queima de cama aviária exige controle rigoroso de emissões atmosféricas. O resíduo contém compostos nitrogenados e enxofrados que, sem tratamento adequado, poderiam gerar poluentes.
As usinas da Fibrowatt incorporaram sistemas de filtragem de partículas, controle de óxidos de nitrogênio (NOx) e captura de cinzas volantes. O design das caldeiras também foi adaptado para lidar com o alto teor de minerais da biomassa, reduzindo incrustações e corrosão.
Outro diferencial técnico foi a adaptação das câmaras de combustão para lidar com variações de composição do combustível, já que a cama aviária pode variar conforme dieta e manejo das granjas.
O modelo foi reconhecido como fonte renovável dentro da política energética britânica, pois utiliza resíduo biogênico que, teoricamente, faz parte do ciclo curto de carbono.
Escala, números e impacto econômico
Cada planta operava consumindo centenas de milhares de toneladas de resíduos por ano. Esse volume representa parcela significativa da produção regional de cama aviária.
É importante diferenciar capacidade instalada de geração anual efetiva. A capacidade de até 40 MW indica o potencial máximo de geração elétrica sob operação contínua. A produção anual depende de fatores como disponibilidade de combustível e manutenção.
O impacto econômico incluiu geração de empregos locais, redução de custos ambientais para produtores avícolas e contribuição para metas britânicas de energia renovável.
O modelo também influenciou projetos semelhantes nos Estados Unidos, especialmente na Pensilvânia, onde há grande concentração de produção avícola.
Desafios técnicos e controvérsias
Apesar das vantagens, o modelo não esteve livre de controvérsias. Comunidades locais levantaram preocupações sobre emissões e transporte de resíduos.
Além disso, a viabilidade econômica dependia fortemente de incentivos governamentais e contratos de compra de energia. Alterações na política energética impactaram a sustentabilidade financeira de algumas operações.
Do ponto de vista técnico, a queima de biomassa com alto teor mineral pode acelerar desgaste de equipamentos e elevar custos de manutenção.
Ainda assim, o projeto demonstrou que resíduos agrícolas podem ser integrados à matriz energética de forma estruturada e industrial.
Ao operar usinas de até 40 MW movidas a resíduos de frango, o modelo da Fibrowatt provou que um subproduto da avicultura pode se tornar combustível para geração elétrica em escala urbana.
O projeto uniu solução ambiental e produção energética, convertendo toneladas de cama aviária em eletricidade suficiente para abastecer cidades inteiras no Reino Unido.
Mais do que uma curiosidade técnica, trata-se de um exemplo concreto de economia circular aplicada ao agroindustrial. Em vez de tratar resíduos como passivo, a engenharia britânica os transformou em ativo energético estratégico.
O caso mostra que, no agronegócio moderno, até aquilo que antes era considerado problema pode se tornar fonte de energia quando aliado a tecnologia e planejamento industrial.


Porque o erro de estar escrita a palavra “cama” ao invés da correta, que seria “carne”, se repete tanto?
Uma revisão antes da publicação é indispensável…
Trabalho na avicultura, e o texto deixa bem claro que se trata de cama aviária, podendo conter também carcaças de aves que são depositadas nas composteiras onde se usa também cama aviária para acelerar a decomposição.