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Com Kilauea cuspindo lava a 300 metros, Havaí corre para explorar calor oculto sob o vulcão, reativar energia geotérmica e virar usina limpa para data centers de IA por eletricidade

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 01/12/2025 às 09:10
Atualizado em 01/12/2025 às 09:11
Vulcão Kilauea no Havaí expõe como a energia geotérmica pode alimentar data centers de IA e redes, ligando erupções a uma nova era de energia limpa.
Vulcão Kilauea no Havaí expõe como a energia geotérmica pode alimentar data centers de IA e redes, ligando erupções a uma nova era de energia limpa.
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Enquanto o vulcão Kilauea exibe erupções controladas no Havaí, pesquisadores e autoridades veem na energia geotérmica uma saída para transformar calor profundo em eletricidade firme e alimentar data centers de IA em escala

O calor das profundezas da Terra voltou ao centro do debate no Havaí. Enquanto o Kilauea apresenta episódios eruptivos que lançam colunas de lava a cerca de 300 metros e, em algumas fases, a até 457 metros de altura, cientistas e autoridades discutem como transformar esse espetáculo vulcânico em fonte estável de energia geotérmica para a rede elétrica local.

Sob a crosta, porém, o foco já não está apenas no magma. O arquipélago abriga um vasto mapa de calor utilizável que pode ser explorado por tecnologias geotérmicas mais avançadas, capazes de ir além da usina hoje operante em Puna. A disputa agora envolve financiamento público, novas perfurações e o interesse de gigantes da tecnologia que procuram eletricidade contínua para data centers de IA.

Kilauea em erupção controlada, mas em escala industrial de energia

As imagens recentes do Kilauea, na Ilha Grande do Havaí, mostram colunas de cinzas e lava que chegam a centenas de metros de altura.

Desde dezembro do ano passado, o vulcão já registrou entre 36 e 37 episódios eruptivos, segundo alertas do Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Em alguns eventos, a altura das colunas se aproxima da de um arranha céu de 100 andares.

Apesar da intensidade, a atividade permanece confinada à cratera, distante de casas e outras estruturas.

Em um dos episódios, o USGS calculou que 6,3 milhões de metros cúbicos de lava foram ejetados em apenas nove horas, a uma taxa de cerca de 190 metros cúbicos por segundo, uma vazão que ilustra a escala energética em jogo.

Para além do risco imediato, esse comportamento reforça um ponto central da discussão: mesmo quando o vulcão parece apenas fazer “espetáculo”, o sistema geológico que o alimenta é um reservatório gigantesco de calor contínuo, potencialmente aproveitável pela energia geotérmica.

Puna, a usina que prova o potencial geotérmico do Havaí

O Havaí não parte do zero. Desde 1993, a Puna Geothermal Venture opera na Zona de Fenda Leste do Kilauea.

Estudos da Universidade do Havaí indicam que essa usina geotérmica comercial produz cerca de cinco vezes mais eletricidade que um dos principais parques solares do estado, usando aproximadamente 80 por cento menos terra.

Mesmo assim, o potencial permaneceu subexplorado.

As razões combinam riscos vulcânicos reais, custos elevados de exploração e resistência cultural em comunidades que enxergam perfurações profundas como profanação de Pele, a deusa dos vulcões.

Por anos, a energia geotérmica foi relegada a segundo plano, mantendo Puna quase como exceção em vez de modelo.

A atividade contínua do Kilauea e a pressão por eletricidade firme, porém, reabriram a discussão.

A pergunta estratégica é direta: o Havaí deve usar o calor que alimenta seus vulcões para reforçar a própria segurança energética, em um contexto global de transição para fontes de baixo carbono.

Mapas de calor profundo e a corrida por 80 milhões de dólares

A Universidade do Havaí vem há anos defendendo que o subsolo das ilhas guarda recursos geotérmicos bem além de Puna.

Com apoio do Departamento de Energia dos Estados Unidos, o projeto Play Fairway produziu os primeiros mapas de calor profundo fora da área já explorada, apontando oportunidades em diferentes regiões do arquipélago.

Esses mapas agora alimentam uma disputa política concreta. Três agências estaduais competem por cerca de 80 milhões de dólares em fundos públicos para retomar a exploração geotérmica.

O pacote inclui mapeamento detalhado, perfuração de poços de teste e estudos para uma possível expansão da energia geotérmica que está paralisada há décadas.

O plano não se limita à Zona de Fenda Leste.

propostas de perfurações em outras áreas da Ilha Grande e em ilhas como Maui e Oahu, onde se acredita que os recursos estejam em profundidades maiores.

Na prática, isso significaria sair de um modelo concentrado em Puna para um sistema mais distribuído, com múltiplos pontos de geração geotérmica.

EGS, AGS e rocha superaquecida: a nova engenharia da energia geotérmica

O movimento havaiano acontece em paralelo a um renascimento mais amplo da energia geotérmica nos Estados Unidos.

Relatório da Wood Mackenzie aponta que o investimento geotérmico na América do Norte cresceu 85 por cento apenas no primeiro trimestre de 2025, com cerca de 1,7 bilhão de dólares em fundos públicos destinados ao setor.

O impulso não vem só de vulcões ativos, mas de novas tecnologias capazes de transformar quase qualquer rocha quente em eletricidade. Três frentes se destacam:

EGS, os sistemas geotérmicos aprimorados, que fraturam rochas quentes em profundidade para criar reservatórios artificiais, aumentando a circulação de fluidos e a extração de calor.

AGS, os sistemas geotérmicos avançados, que usam circuitos fechados e isolam completamente os fluidos do subsolo, reduzindo riscos de contaminação e vazamentos.

Perfuração em rocha superaquecida, a mais de cinco quilômetros de profundidade, onde as temperaturas ultrapassam 374 graus Celsius e a energia disponível por poço aumenta significativamente.

Segundo essa análise, os Estados Unidos poderiam alcançar até 500 gigawatts de capacidade geotérmica, patamar capaz de remodelar a matriz elétrica do país.

Nesse contexto, o Havaí se torna um laboratório natural em que a geologia vulcânica facilita o acesso a gradientes térmicos extremos.

Data centers de IA como motor oculto dessa transformação

O renascimento da energia geotérmica não é apenas acadêmico.

Centros de dados e inteligência artificial se tornaram motores centrais da nova demanda por eletricidade contínua, que não pode ficar à mercê da variabilidade solar ou eólica.

Análises citadas por veículos especializados indicam que essa energia subterrânea poderia suprir cerca de dois terços do consumo de eletricidade dos novos centros de dados a serem construídos nos Estados Unidos até 2030.

Diante dessa perspectiva, grandes empresas de tecnologia já se movimentam.

A Meta firmou acordo com a startup californiana XGS Energy para gerar 150 megawatts de eletricidade geotérmica até 2030, usando um sistema de circuito fechado que evita vazamentos de água.

O Google fez movimento similar ao se associar à Fervo Energy.

A energia geotérmica deixou de ser um experimento marginal e passou a integrar a estratégia energética de empresas que lideram o desenvolvimento da IA, justamente por oferecer um perfil de geração firme, previsível e de baixo carbono.

Para o Havaí, isso abre uma fronteira específica: posicionar ilhas vulcânicas como base de usinas geotérmicas dedicadas a data centers de IA, conectados à rede local e, potencialmente, a clientes externos, desde que a infraestrutura de transmissão suporte essa ambição.

Cultura, risco vulcânico e legitimidade social da perfuração

O caminho, porém, não é apenas tecnológico.

A perfuração profunda em áreas vulcânicas toca em dimensões culturais e espirituais que pesam no debate público havaiano.

Para comunidades ligadas à tradição de Pele, a deusa dos vulcões, furar o subsolo em busca de calor é visto como profanação.

Além disso, os riscos geológicos são reais.

Mesmo com a atividade do Kilauea atualmente confinada à cratera, qualquer expansão da energia geotérmica precisa lidar com incertezas sobre sismicidade induzida, interação com reservatórios naturais e respostas do sistema vulcânico a novos poços.

Esses pontos alimentam a resistência local e condicionam licenças ambientais e sociais.

Por isso, o futuro da energia geotérmica no Havaí dependerá tanto de processos participativos quanto de engenharia.

Mapas de calor, estudos de impacto e transparência sobre riscos precisarão caminhar junto com a pressão por mais eletricidade estável, em um arquipélago que observa com atenção o movimento nacional em direção a fontes subterrâneas.

Vulcão, IA e a pergunta energética que o Kilauea deixa em aberto

Enquanto o Kilauea segue inflando, rugindo e projetando lava a alturas não vistas desde a década de 1980, o Havaí e o restante dos Estados Unidos voltam o olhar para baixo, em direção ao calor primordial que pulsa sob a crosta terrestre.

Onde a natureza exibe seu poder mais selvagem, a tecnologia enxerga uma promessa de energia geotérmica contínua, abundante e limpa para data centers de IA, redes elétricas e indústrias intensivas em eletricidade.

A questão que fica não é se esse calor existe, mas até que ponto será social, política e tecnicamente aceitável aproveitá lo em larga escala.

Diante de um vulcão que lança milhões de metros cúbicos de lava em poucas horas, você acha que o Havaí deve acelerar projetos de energia geotérmica para se tornar um polo de eletricidade estável para a era da IA, ou que os riscos e conflitos locais ainda pesam mais que essa oportunidade?

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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