Casa feita com resíduos de cogumelos e arbustos invasores na Namíbia mostra como blocos de micélio entraram no debate sobre construção sustentável, moradia acessível e reaproveitamento de biomassa em escala experimental.
Uma casa feita com resíduos de cogumelos e arbustos invasores na Namíbia colocou os blocos de micélio no debate sobre construção sustentável.
O material, formado a partir da parte vegetativa dos fungos, foi usado pelo projeto MycoHab em uma casa demonstrativa aberta ao público em fevereiro de 2024, em Brakwater, ao norte de Windhoek.
A iniciativa voltou a aparecer em publicações de 2025 sobre alternativas ao concreto, crise habitacional e reaproveitamento de biomassa.
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O projeto combina três questões documentadas no país: falta de moradias acessíveis, avanço de arbustos invasores sobre áreas de pastagem e destinação de resíduos gerados no cultivo de cogumelos.
No processo descrito pelo MycoHab, os arbustos são triturados e usados como substrato para cultivar cogumelos ostra.
Depois da colheita, o resíduo restante é comprimido e aquecido para formar grandes blocos marrons, chamados blocos de micélio.
A tecnologia não deve ser apresentada como solução já difundida em larga escala.
A própria iniciativa é tratada como projeto em fase experimental e ainda enfrenta desafios de custo, transporte, certificação e aceitação no setor da construção.
A casa demonstrativa construída em 2024, no entanto, permitiu testar em escala real uma aplicação de materiais à base de fungos em uma moradia.
Esse ponto é relevante porque retira a discussão apenas do laboratório e a leva para um protótipo físico, submetido a condições de uso e visitação.
Uma dúvida recorrente, segundo Kristine Haukongo, cultivadora sênior do MycoHab, envolve o cheiro dos blocos.
“As pessoas acham que a casa teria cheiro porque os blocos são feitos de produtos totalmente naturais, mas ela não tem cheiro”, afirmou ela ao The Guardian.
Segundo Haukongo, às vezes há um leve odor de madeira, mas o material é descrito como praticamente inodoro.
Como resíduos de cogumelos viram blocos de construção
O funcionamento do projeto começa no manejo dos arbustos invasores lenhosos, que avançaram sobre grandes áreas da Namíbia.
Essas plantas competem com gramíneas, afetam regiões agrícolas e são associadas a impactos sobre a recarga de águas subterrâneas em um país de baixa disponibilidade hídrica.
Em vez de destinar essa biomassa apenas à produção de carvão ou madeira, o MycoHab adota outro fluxo de aproveitamento.
O material é moído e usado como base para o cultivo de cogumelos ostra, que podem ser vendidos no mercado local.
Após a colheita dos cogumelos, o substrato usado no cultivo passa por uma nova etapa.
O resíduo é comprimido e aquecido para formar os blocos de micélio e biomassa que podem ser aplicados em sistemas construtivos.
Segundo informações divulgadas pelo projeto e por reportagens internacionais, cada bloco usa cerca de 10 quilos de arbusto invasor.
A lógica do processo é transformar um material associado a impactos ambientais em insumo para alimento e construção.
A produção, porém, exige controle técnico.
Materiais à base de micélio dependem de tipo de fungo, umidade, compactação, secagem, formato e proteção contra água para manter desempenho adequado em uma obra.

Déficit habitacional na Namíbia entra no centro do projeto
A Namíbia enfrenta déficit habitacional e presença expressiva de moradias informais.
O texto original cita que o país, com população de cerca de 2,7 milhões de habitantes à época da referência usada, precisava de pelo menos meio milhão de novas casas para enfrentar a escassez habitacional.
Também havia referência a dados de 2016 segundo os quais quase 90% dos domicílios recebiam menos de N$ 2.700 por mês, valor equivalente a cerca de US$ 145 naquele recorte.
Nesse cenário, parte da população não consegue acessar habitação formal construída com materiais convencionais.
A questão habitacional se cruza com outro desafio ambiental.
Reportagens e materiais ligados ao projeto citam cerca de 45 milhões de hectares afetados por arbustos invasores no país.
O governo namibiano planejava reduzir parte dessa biomassa, inclusive com queima e produção de carvão.
Ambientalistas ouvidos na matéria original apontaram que esse modelo libera carbono, especialmente quando os arbustos são usados para carvão e madeira.
“Tradicionalmente, os arbustos invasores na Namíbia são colhidos e usados para produção de carvão e madeira, o que provoca uma grande liberação de emissões de carbono”, afirmou o ambientalista Tulimo Uushona no texto original.
Nesse contexto, o MycoHab apresenta uma rota alternativa para parte desse material.
A proposta não substitui políticas públicas de habitação, manejo ambiental e infraestrutura urbana, mas testa uma cadeia construtiva diferente da produção tradicional baseada em cimento.
Primeira casa de micélio foi aberta ao público em 2024
A atualização mais relevante do caso é a casa demonstrativa aberta ao público em 29 de fevereiro de 2024, em Brakwater, na Namíbia.
O projeto foi apresentado pelo MIT Sloan Executive Education como a primeira construção estrutural de micélio do MycoHab.
A iniciativa resulta de colaboração entre Standard Bank Group, MIT Center for Bits and Atoms, MIT Label Free Research Group e Redhouse Studio.
Organizações locais também aparecem associadas ao projeto, especialmente na discussão sobre moradia acessível.

A construção serviu como demonstração técnica para mostrar como os blocos poderiam formar uma moradia real.
Segundo a NASA Spinoff, o MycoHab concluiu em 2024 uma casa demonstrativa que usa micélio como estrutura, com o objetivo de exemplificar o uso dos tijolos em uma casa de baixo custo.
A relação com a NASA aparece porque materiais de micélio também são estudados para habitats espaciais.
Pesquisas sobre ambientes extremos inspiraram aplicações terrestres em materiais que podem crescer a partir de resíduos locais.
Na Namíbia, o foco é outro.
A aplicação está ligada à disponibilidade de biomassa, à necessidade de moradia e ao reaproveitamento de resíduos gerados no cultivo de cogumelos.
O MycoHab afirma que sua proposta busca regenerar áreas afetadas por arbustos, armazenar carbono em materiais de construção, produzir alimentos e oferecer habitação.
Essas metas, porém, dependem de avaliação conforme o projeto avance em escala, uso real e validação técnica.
Blocos de micélio não têm cheiro, mas enfrentam logística
A curiosidade sobre o cheiro dos blocos aparece porque o material vem de fungos e resíduos orgânicos.
Haukongo afirmou que os blocos não têm odor e explicou que, em alguns casos, há apenas uma nota semelhante a madeira.
A viabilidade prática envolve outros fatores.
Heinrich Amushila, codiretor da Federação de Moradores de Assentamentos Informais da Namíbia, afirmou que os blocos são resistentes ao fogo e ambientalmente favoráveis, mas que o custo ainda pode ser um obstáculo.
Segundo Amushila, os preços das casas poderiam ficar relativamente próximos aos de construções de concreto.
O motivo, de acordo com ele, é que o transporte dos blocos de micélio até os locais de construção ainda é caro.
A federação busca reduzir custos ao envolver futuros moradores no processo de fabricação dos blocos e na construção das moradias.
Esse modelo também aproxima a produção do público que pode vir a ocupar as casas.
O ponto ajuda a contextualizar a diferença entre custo de produção e custo final de uma moradia.
Uma unidade pode usar material mais barato, mas o preço total também inclui transporte, mão de obra, fundação, acabamento, licenças, infraestrutura e organização comunitária.
Haukongo afirmou que os blocos são mais pesados do que tijolos convencionais, mas podem ser erguidos mais rapidamente.
Segundo ela, uma pequena casa para uma família exigiria mais de 12 toneladas de arbusto.
Micélio, concreto e impacto ambiental da construção
O interesse por materiais de micélio também está ligado ao impacto climático da construção civil.
Estudos e reportagens técnicas apontam que o concreto responde por parcela relevante das emissões globais de dióxido de carbono, principalmente por causa da produção de cimento.
A matéria do The Guardian cita estimativas de que o concreto responda por 4% a 8% das emissões mundiais de CO₂ e possa emitir quase 1 quilo de CO₂ equivalente para cada quilo produzido.
O MycoHab, por sua vez, estima que blocos de micélio armazenem 0,8 quilo de CO₂ equivalente por quilo de material produzido.
Esses números devem ser lidos como estimativas associadas ao material e ao processo descrito pelo projeto.
Eles não representam uma comparação definitiva para todos os tipos de obra, já que o desempenho ambiental de uma casa depende de transporte, vida útil, manutenção, proteção contra umidade, origem dos materiais e substituição de componentes.
A pesquisa em micélio tem atraído atenção de arquitetos, engenheiros e laboratórios.
Em 2014, a instalação experimental Hy-Fi, em Nova York, já havia usado resíduos agrícolas e micélio como material de construção, mostrando que esse campo de estudo é anterior ao projeto namibiano.
No caso do MycoHab, a diferença está na associação com uma condição local específica.
A iniciativa usa uma biomassa abundante e vinculada à degradação de pastagens para cultivar cogumelos e produzir blocos destinados a moradias.
Cogumelos ostra fazem parte da cadeia produtiva
Antes de virar bloco, a biomassa alimenta cogumelos ostra.
Essa etapa permite que o projeto produza alimento ao mesmo tempo em que prepara o material que será usado na construção.
Os cogumelos cultivados podem ser vendidos a varejistas locais, segundo o The Guardian.
Depois da colheita, o substrato exaurido passa a ser matéria-prima para os blocos.
Em uma fazenda convencional de cogumelos, esse resíduo poderia ser descartado ou usado como composto.
No MycoHab, ele é comprimido e processado para virar material construtivo.
“Se essa tecnologia se tornar disseminada, poderíamos mitigar grande parte das mais de 300 milhões de toneladas de arbustos que o governo da Namíbia quer reduzir”, afirmou Haukongo.
Ela acrescentou que, em uma produção comum de cogumelos, o substrato seria descartado ou compostado, enquanto no projeto é transformado em blocos de micélio.
