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O peixe-caracol Pseudoliparis é filmado a 8.336 metros, torna-se o mais profundo já registrado na história e surge no limite biológico da vida marinha nas trincheiras do Pacífico

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 16/01/2026 às 13:55
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Expedição filma peixe-caracol Pseudoliparis a 8.336 m, recorde absoluto de profundidade, e revela como a vida marinha desafia limites biológicos.

A maior parte do oceano permanece invisível para nós. Quanto mais fundo se desce, maior é a sensação de estar atravessando para um outro planeta: a luz desaparece, a temperatura cai, a pressão aumenta e quase tudo que conhecemos como “vida” deixa de existir. No entanto, uma expedição recente às trincheiras oceânicas do Pacífico, envolvendo pesquisadores japoneses e australianos, produziu uma das descobertas mais impressionantes da biologia marinha nos últimos anos: o registro mais profundo de um peixe vivo na história, captado a 8.336 metros de profundidade.

Essa filmagem mostra um pequeno animal translúcido, aparentemente frágil, flutuando calmamente em um ambiente onde a pressão é mais de 1.000 vezes maior do que ao nível do mar. O peixe pertence ao gênero Pseudoliparis, conhecido como peixe-caracol, e foi encontrado na fossa Izu-Ogasawara, ao largo do Japão. A nova marca ultrapassa em 158 metros o recorde anterior, registrado em 2017 na Fossa das Marianas, e se aproxima perigosamente do limite biológico conhecido para peixes, estimado entre 8.200 e 8.400 metros.

O resultado não é um achado isolado: faz parte de um esforço científico de mais de 15 anos liderado pelo professor Alan Jamieson, especialista em ecologia hadal e pioneiro na exploração das zonas mais profundas do planeta. Segundo ele, “a profundidade máxima que esses animais podem suportar é realmente surpreendente”, e o novo registro ajuda a entender quanto a vida pode resistir antes de colapsar sob a pressão.

Como esse recorde foi obtido e por que ele é tão importante

A expedição utilizou landers autônomos equipados com câmeras, iscas e sensores de profundidade, capazes de descer até o solo hadal sem necessidade de tripulação.

Ao contrário de relatos antigos feitos por submarinos, como os da década de 1960, as imagens modernas permitem comprovar a profundidade com precisão, excluir erros de interpretação e descartar confusões com organismos como pepinos-do-mar.

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Além do vídeo, a equipe também conseguiu um feito adicional raro: capturou os primeiros peixes abaixo de 8.000 metros, ainda que em poucas unidades, o que sugere que certas trincheiras do Japão podem servir como refúgios ecológicos para esses organismos extremos.

É um contraponto curioso ao que acontecia na Fossa das Marianas, onde Pseudoliparis já havia sido registrado “raspando” a marca dos 8.000 metros, mas sempre em números reduzidos. Segundo Jamieson, “ao redor do Japão, eles são realmente bastante abundantes”, o que indica que cada trincheira possui ecologia própria, com nichos diferentes e disponibilidade variável de alimento.

O que são os peixes-caracol (Liparidae) e por que eles dominam as zonas profundas

Apesar do nome frágil, os peixes-caracol pertencem a uma família extremamente bem-sucedida, com mais de 400 espécies descritas e uma capacidade notável de ocupar desde poças de marés até as zonas mais profundas da Terra.

Segundo o pesquisador Rupert Collins, do Museu de História Natural, eles estão entre os peixes que irradiam evolutivamente mais rápido, o que significa que geram novas espécies em ritmos incomuns.

Os que vivem na zona hadal pertencem ao gênero Pseudoliparis, e seus corpos mostram uma série de adaptações impressionantes:

esqueleto macio e flexível, essencial para suportar a compressão
camada gelatinosa externa, em vez de escamas
produção intensa de muco, interna e externamente
ausência de bexiga natatória cheia de gás, que explodiria sob pressão
estômago proporcionalmente maior, permitindo comer muito quando há alimento
lipídios especializados, mantendo as células flexíveis
produção elevada de TMAO (óxido de trimetilamina-N), estabilizando proteínas sob pressão

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Esses elementos revelam um fato importante: vivendo no limite, os peixes-caracol apostam em eficiência energética. A camada gelatinosa, por exemplo, não é só proteção: ela reduz o atrito, facilita a natação e economiza energia, um recurso escasso nas profundezas.

Outra curiosidade: os Pseudoliparis de maior profundidade não são adultos enormes, mas juvenis minúsculos, o que surpreendeu os cientistas durante a expedição. Eles parecem eclodir de ovos relativamente grandes, o que permite nascerem já como juvenis tolerantes à pressão, evitando o estágio larval — algo que não suportaria a profundidade.

O limite biológico da profundidade e o que ele significa

Desde o início do século XX, muitos relatos tentaram determinar até onde um peixe pode viver.
Em 1901, a enguia Abissobrotula galatheae foi capturada a grande profundidade durante arrasto, e um segundo espécime foi coletado na década de 1950. Mas como arrastos não registram a profundidade exata no momento da captura, esses dados são considerados insuficientes.

Na década de 1960, durante o primeiro mergulho tripulado ao fundo da Fossa das Marianas, a tripulação relatou ter visto um peixe a mais de 10.000 metros — algo hoje considerado improvável, possivelmente uma interpretação errada de um pepino-do-mar.

Com o avanço dos ROVs e landers, a partir dos anos 2000 passou a ser possível filmar, medir e comprovar a presença de peixes com precisão. Desde então, a zona entre 8.000 e 8.200 metros tem sido o ponto crítico da pesquisa. Isso porque, segundo Collins e outros especialistas:

“Entre 8.200 e 8.400 metros, estima-se que os peixes não conseguem mais acumular TMAO suficiente para estabilizar suas proteínas.”

Sem essa molécula, as proteínas começam a desnaturar, as membranas perdem integridade e a fisiologia falha — o que sugere um limite molecular da vida.

Essa previsão era teórica, mas a filmagem do Pseudoliparis a 8.336 metros está praticamente no meio dessa faixa, reforçando a hipótese de que estamos muito próximos do limite absoluto.

Por que isso importa para a biologia e para o futuro da exploração marinha

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A descoberta tem consequências importantes:

  • Define um limite biológico mensurável, algo raro em ecologia.
  • Mostra que a vida não desaparece abruptamente, mas declina conforme a pressão aumenta.
  • Fornece pistas para biotecnologia, já que proteínas que funcionam sob alta pressão podem inspirar novos materiais, enzimas industriais e compostos biomédicos.
  • Ajuda a entender a resiliência da vida, no contexto de pesquisa astrobiológica e adaptação extrema.

Mas talvez o impacto mais simbólico seja outro: ao registrar um peixe no limite físico do planeta, a ciência nos lembra que ainda conhecemos muito pouco sobre os ecossistemas profundos.

A maior parte da zona hadal permanece inexplorada. Cada trincheira é um mundo isolado, com condições próprias, populações únicas e espécies desconhecidas da ciência.

O pequeno peixe a 8.336 metros não é só um recorde: é um convite para continuar olhando para baixo, para um planeta que ainda é, em grande parte, misterioso e invisível, mesmo em pleno século XXI.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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