Submarino não tripulado do tamanho de um ônibus curto já foi operado a milhares de quilômetros de distância, em testes oficiais que unem Reino Unido e Austrália. Batizado de XV Excalibur, o veículo abre caminho para missões persistentes e discretas no fundo do mar.
Um submarino sem tripulação, grande o bastante para lembrar um mini-submarino e conectado a operadores a mais de 16 mil quilômetros de distância, passou a simbolizar uma nova etapa da autonomia naval.
Trata-se do Experimental Vessel (XV) Excalibur, veículo subaquático não tripulado classificado pela Royal Navy como um Extra-Large Uncrewed Underwater Vehicle (XLUUV), com 12 metros de comprimento e deslocamento de 19 toneladas.
Em testes divulgados oficialmente, o sistema foi controlado em águas do Reino Unido a partir de um centro de operações na Austrália, numa demonstração de interoperabilidade em larga escala entre aliados.
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Royal Navy e o XLUUV operado a mais de 16.000 km
O Excalibur foi apresentado como o primeiro submarino não tripulado da Royal Navy e, pelas dimensões, também como o maior veículo subaquático não tripulado já testado pela força.
A própria Marinha britânica descreveu o modelo como um “vessel” experimental com dois metros de largura, construído para acelerar o aprendizado sobre como operar plataformas autônomas de grande porte abaixo da superfície.
A proposta é clara: colocar no mar um sistema capaz de navegar, executar tarefas e coletar dados sem a presença de tripulantes, mantendo a discrição típica do ambiente subaquático.
O que mais chama atenção, porém, não é apenas o tamanho.
O marco mais incomum veio em uma série de experimentos ligados à cooperação tecnológica entre Reino Unido, Austrália e Estados Unidos.
Segundo comunicado da Royal Navy sobre o exercício, o controle de um XLUUV britânico em águas britânicas foi executado a partir de um centro remoto na Austrália, a mais de 10 mil milhas de distância do porto-base de Plymouth.
Essa equivalência supera 16 mil quilômetros e foi tratada como uma primeira demonstração, no âmbito do AUKUS Pillar 2, de “interchangeability” e interoperabilidade do tipo “uma só força” para esse nível de veículo subaquático não tripulado.
Comunicação subaquática e interoperabilidade AUKUS Pillar 2
A operação a longa distância ocorre em um cenário em que o fundo do mar impõe limitações naturais à comunicação.
Ondas de rádio têm alcance extremamente reduzido na água do mar, e a transmissão de dados costuma depender de métodos acústicos e de rotinas específicas de comunicação.
Dentro desse contexto, o Excalibur foi citado como peça central de uma iniciativa que busca tornar mais natural o emprego de sistemas robóticos e autônomos no domínio marítimo, sem exigir a presença constante de navios de apoio ou de equipes embarcadas.
Project Cetus, Submarine Delivery Agency e o Excalibur experimental
A origem do Excalibur está no Project Cetus, programa britânico que resultou em um veículo experimental desenhado para testar tecnologias, procedimentos e cargas específicas.
De acordo com o governo do Reino Unido, o projeto foi desenvolvido pela Submarine Delivery Agency (SDA), em parceria com a empresa MSubs Ltd, com patrocínio da Royal Navy.

A intenção declarada é construir confiança em autonomia e usar a plataforma como bancada de testes para avaliar missões e “payloads” militares, sem enquadrá-la como um submarino de emprego operacional imediato.
A cerimônia de nomeação e apresentação pública aconteceu na base naval de Devonport, e o Excalibur foi descrito como resultado de um ciclo de desenvolvimento de três anos.
O anúncio oficial da Royal Navy destacou que, nos dois anos seguintes à apresentação, o veículo passaria por extensos testes de mar para mapear desafios específicos da operação de um sistema desse porte sem tripulantes.
Entre os objetivos citados pelas autoridades da Marinha britânica, está a construção de conhecimento prático que permita, no futuro, a coexistência de plataformas tripuladas e não tripuladas em um mesmo conjunto de capacidades.
A explicação para tanto interesse aparece no tipo de ambiente que esses sistemas procuram atender.
A Royal Navy associou a iniciativa a demandas de proteção de infraestrutura e coleta de informações no domínio subaquático, além do avanço de tecnologias que ampliem a presença persistente no mar.
O discurso institucional enfatiza que um veículo experimental como o Excalibur pode ajudar a entender limites e oportunidades de sensores, navegação, controle e integração com outros meios, criando uma base para conceitos mais avançados.
Relógio quântico Tiqker, Infleqtion e navegação sem GPS
Além dos testes de interoperabilidade a longa distância, o governo britânico relatou um experimento com um componente que costuma aparecer em projetos de ponta: um relógio quântico.
O Excalibur foi ao mar com um dispositivo descrito como “quantum optical atomic” e apelidado de Tiqker, desenvolvido pela empresa britânica Infleqtion.
O objetivo apresentado foi melhorar precisão de tempo e navegação em um tipo de embarcação que não pode depender integralmente do GPS quando está submersa.
Na prática, a promessa de maior estabilidade temporal reduz a necessidade de sinais externos e pode apoiar missões em que permanecer submerso por períodos maiores é parte importante do desempenho.
O modelo também foi citado pelo governo como tendo passado por um conjunto de testes de aceitação desde o lançamento e, ao final do processo, ter sido oficialmente entregue à Royal Navy para um programa de avaliação e aprendizado.
Nessa fase, a SDA seguiria apoiando a Marinha britânica para extrair lições sobre a introdução de autonomia em usos futuros, com foco em entender como sistemas desse tipo podem ser integrados a capacidades já existentes no domínio subaquático.
O Excalibur, portanto, aparece como um “grande laboratório” em escala real: grande o suficiente para representar desafios operacionais semelhantes aos de meios maiores, mas concebido explicitamente para testar tecnologias, protocolos e integração entre países aliados.
Ao confirmar que o controle e a comunicação com o veículo ocorreram enquanto ele estava submerso e em um cenário de operação remota a mais de 10 mil milhas, a Royal Navy colocou um ponto de referência para o que considera possível fazer com veículos autônomos de grande porte no fundo do mar.
Se um submarino robótico de 12 metros já pode ser controlado a mais de 16.000 km e servir de plataforma para testes de navegação quântica, qual será o próximo limite prático da autonomia subaquática?


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