1. Início
  2. Indústria Naval
  3. Com 108 metros de comprimento e formato de colher gigante, o FLIP era o único navio do mundo capaz de girar 90 graus no oceano e ficar na vertical, com 91 metros submersos, operando assim por 60 anos até ser aposentado e enviado ao ferro-velho em 2023
5 comentários 6 min de leitura

Com 108 metros de comprimento e formato de colher gigante, o FLIP era o único navio do mundo capaz de girar 90 graus no oceano e ficar na vertical, com 91 metros submersos, operando assim por 60 anos até ser aposentado e enviado ao ferro-velho em 2023

Imagem de perfil do autor Valdemar Medeiros
Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 29/03/2026 às 23:59
Assista o vídeoCom 108 metros de comprimento e formato de colher gigante, o FLIP era o único navio do mundo capaz de girar 90 graus no oceano e ficar na vertical, com 91 metros submersos, operando assim por 60 anos até ser aposentado e enviado ao ferro-velho em 2023
Foto: CPG Redimensionada – IA + ADobe
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
1010 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

FLIP, navio que virava torre no oceano, operou por 60 anos com 91 metros submersos e estabilidade única antes de ser desativado em 2023

O R/P FLIP, sigla para Floating Instrument Platform, foi uma das estruturas mais incomuns já construídas para pesquisa oceânica, operando por mais de seis décadas como um laboratório flutuante capaz de mudar completamente sua orientação no mar. Segundo o Scripps Institution of Oceanography, a plataforma participou de mais de 300 missões científicas ao longo de 60 anos, sendo descomissionada em agosto de 2023 após se tornar um dos projetos mais únicos da história da engenharia naval.

Diferente de qualquer navio convencional, o FLIP não possuía motor próprio e precisava ser rebocado até sua área de operação. No entanto, ao chegar ao local, realizava um procedimento que nenhuma outra embarcação do mundo executava: girava 90 graus, ficando na posição vertical, com 91 metros submersos e apenas 17 metros acima da superfície, transformando-se em uma torre flutuante extremamente estável.

Origem do FLIP: projeto naval criado por cientistas para resolver medições acústicas no oceano

A história do FLIP começou em 1960, no Marine Physical Laboratory do Scripps Institution of Oceanography, quando os pesquisadores Fred Fisher e Fred Spiess buscavam uma solução para medições acústicas subaquáticas.

Na época, utilizavam um submarino desativado da Marinha dos Estados Unidos, mas enfrentavam um problema crítico: o movimento constante comprometia a precisão dos dados.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Fisher propôs uma solução radical: criar uma estrutura longa e fina que, ao ser posicionada verticalmente no oceano, permaneceria praticamente imóvel. Spiess apoiou a ideia e incentivou o desenvolvimento do conceito.

O primeiro modelo foi feito utilizando um taco de beisebol Louisville Slugger, que demonstrou a viabilidade da proposta. O projeto recebeu financiamento do Office of Naval Research e apoio da empresa Glosten and Associates.

Essa solução simples deu origem a uma das estruturas mais inovadoras já criadas para pesquisa científica no mar.

Construção do navio FLIP: 108 metros de comprimento e engenharia em formato de torre

O FLIP foi construído em apenas seis meses no estaleiro Gunderson Brothers, em Portland, Oregon, com custo aproximado de 600 mil dólares. Foi lançado em 22 de junho de 1962.

Com 108 metros de comprimento e formato de colher gigante, o FLIP era o único navio do mundo capaz de girar 90 graus no oceano e ficar na vertical, com 91 metros submersos, operando assim por 60 anos até ser aposentado e enviado ao ferro-velho em 2023
Foto: CPG Redimensionada – IA + ADobe

A plataforma possui 108 metros de comprimento e deslocamento de cerca de 700 toneladas. Sua estrutura é dividida em duas partes principais:

  • Uma seção tubular longa chamada de “cabo”
  • Uma seção mais larga denominada “concha”

O casco foi construído com aço de alta resistência Tri-ten, projetado para suportar tensões extremas durante a transição entre posições.

Na horizontal, a embarcação parece desproporcional. Na vertical, assume a forma de uma torre flutuante — uma característica que frequentemente levava observadores a acreditarem que estavam presenciando um naufrágio.

Funcionamento do FLIP: como a plataforma gira 90 graus em 28 minutos

O processo de rotação do FLIP é baseado em controle de lastro. Ao chegar ao ponto de operação, os operadores bombeiam cerca de 700 toneladas de água do mar para tanques localizados na extremidade tubular.

Simultaneamente, ar comprimido é injetado na extremidade oposta. Esse desequilíbrio de massa faz com que a estrutura gire lentamente.

O processo completo leva cerca de 28 minutos, sendo que os minutos finais ocorrem de forma mais rápida e perceptível. Durante esse período, a tripulação permanece no convés externo enquanto o interior se reorganiza completamente.

Para retornar à posição horizontal, o sistema é invertido, com ar comprimido expulsando a água dos tanques. Esse mecanismo transforma o FLIP em uma das poucas estruturas capazes de alterar completamente sua orientação operacional no oceano.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Engenharia interna do FLIP: ambientes que funcionam na horizontal e na vertical

O interior do FLIP foi projetado para operar em duas orientações distintas. Isso exigiu soluções de engenharia incomuns.

Os cômodos possuem portas duplicadas para uso em ambas as posições. Pias são instaladas em diferentes superfícies. Chuveiros possuem cabeças ajustadas em ângulo de 90 graus.

Camas, fogões e sanitários são montados em sistemas de gimbal que giram automaticamente durante a transição. Instrumentos científicos são posicionados de forma que só funcionem corretamente na posição vertical.

Durante a rotação, o piso se transforma em parede e vice-versa, exigindo adaptação constante da tripulação. Essa configuração interna torna o FLIP uma das estruturas habitáveis mais complexas já projetadas.

Estabilidade do FLIP: torre flutuante com 91 metros submersos reduz impacto das ondas

Quando está na posição vertical, o FLIP opera como uma estrutura do tipo spar buoy, com a maior parte de sua massa submersa.

Isso permite que a plataforma fique abaixo da zona de influência das ondas superficiais. Uma onda de 9 metros causa apenas cerca de 1 metro de oscilação.

O FLIP foi projetado para operar em ondas de até 9 metros, mas já suportou condições superiores a 24 metros sem danos estruturais. Podia operar em profundidades superiores a 3.600 metros, ancorado ou à deriva, dependendo da missão.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Essa estabilidade extrema foi o principal diferencial que tornou o FLIP essencial para pesquisas oceânicas de alta precisão.

Sistema sem motor do FLIP garante medições acústicas precisas no oceano

O FLIP não possuía motor próprio por decisão de engenharia. Vibrações mecânicas interfeririam nas medições acústicas realizadas a bordo.

A plataforma operava com hidrofones, sonares, sensores de pressão e temperatura, além de instrumentos meteorológicos altamente sensíveis. A energia era fornecida por dois geradores diesel de 150 kW montados em pivôs, além de um gerador de emergência de 40 kW.

A ausência de propulsão garantiu um ambiente extremamente silencioso, essencial para coleta de dados científicos precisos.

Uso científico do FLIP: de projeto militar a laboratório oceânico global

Inicialmente concebido para o programa antissubmarino SUBROC da Marinha dos Estados Unidos, o FLIP rapidamente se tornou uma plataforma científica multifuncional.

Ao longo de seis décadas, foi utilizado para estudos de:

  • Dinâmica de ondas
  • Temperatura e densidade da água
  • Propagação de som no oceano
  • Turbulência oceânica
  • Estrutura térmica das camadas marinhas
  • Comportamento de mamíferos marinhos

A versatilidade do FLIP consolidou sua importância em diversas áreas da oceanografia. O FLIP possuía sistema de osmose reversa capaz de produzir cerca de 117 litros de água doce por hora, com armazenamento total de 5.600 litros.

Isso permitia operação contínua por até 30 dias sem reabastecimento. A rotina a bordo envolvia trabalho científico em altura elevada, com acesso por escadas íngremes e passarelas estreitas. A operação exigia preparo físico e adaptação a um ambiente altamente incomum.

Descomissionamento do FLIP em 2023 encerra seis décadas de pesquisa oceânica

Ao longo de sua vida útil, o FLIP participou de mais de 300 missões, principalmente no Oceano Pacífico, mas também no Atlântico.

A pandemia de COVID-19 impactou o financiamento e reduziu a frequência de missões. Em 2023, foi estimado que seriam necessários cerca de 8 milhões de dólares para manter a plataforma ativa.

Em 3 de agosto de 2023, o FLIP foi rebocado pela última vez, sendo destinado a um ferro-velho no México. O fim do FLIP marcou o encerramento de um dos projetos mais singulares da história da ciência oceânica.

A aparência do FLIP na posição vertical frequentemente gerava confusão. Navios ao redor relatavam à Guarda Costeira a presença de uma embarcação aparentemente afundando.

A estrutura, com proa apontando para o céu e corpo submerso, parecia um navio em colapso. Para os pesquisadores, no entanto, era uma operação normal.

FLIP nunca foi replicado e permanece único na história da engenharia naval

Apesar de sua eficácia, o FLIP nunca foi reproduzido por nenhuma outra instituição, marinha ou universidade.

Durante seus 61 anos de existência, permaneceu como uma estrutura única, capaz de operar tanto na horizontal quanto na vertical, com sistemas internos adaptáveis e estabilidade incomparável.

Mesmo após sua desativação, o conceito permanece sem equivalente no mundo, consolidando o FLIP como uma das criações mais extraordinárias da engenharia naval moderna.

Inscreva-se
Notificar de
guest
5 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Thiago Lucato
Thiago Lucato
05/04/2026 10:54

A primeira imagem foi gerada por IA, não é? O navio não se dobra, se inclina em 90°

Paulo Cesar Sousa
Paulo Cesar Sousa
04/04/2026 16:03

Realmente, muito interessante, uma verdadeira obra de engenharia inteligente prá época, prestou importantes serviços de pesquisas que com certeza, ajudou , ajuda e continuará contribuindo com a ciência. Pena que foi levado pro ferro velho, poderia ser transformado num museu, pela importância que representava😞👍😀 parabéns aos que tiveram a oportunidade de fazerem parte da história desse navio.

Laerte Fernandes de Oliveira
Laerte Fernandes de Oliveira
02/04/2026 07:00

Esse navio deveria ter ido pra um museu naval ,pois sua história e seu serviço prestado merece destaque como seus engenheiros e sua tripulação. Parabéns pra todos envolvidos nesse projeto.

Fonte
Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
5
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x