Sobrevivência extrema registrada em laboratório revela capacidade inédita de organismo multicelular resistir por milhares de anos congelado e retomar atividade vital, ampliando limites conhecidos da vida em ambientes extremos e levantando novas questões científicas sobre preservação biológica.
Após permanecer congelado por cerca de 24 mil anos, um rotífero bdeloide microscópico voltou à atividade no permafrost da Sibéria e ainda conseguiu se reproduzir em laboratório, conforme estudo publicado na revista científica Current Biology.
De acordo com matéria publicada pelo jornal O Globo neste domingo (26). a pesquisa indica que o organismo permaneceu preservado desde o Pleistoceno Superior, período marcado pela última era glacial, o que amplia o interesse científico sobre a resistência de formas de vida multicelulares.
Diferentemente de microrganismos simples, o caso chama atenção por envolver um animal com estruturas biológicas mais complexas, o que torna sua sobrevivência ao congelamento prolongado um fenômeno considerado raro e de difícil explicação dentro dos padrões conhecidos.
-
Um médico mineiro alerta que dormir com o ventilador apontado para o corpo durante toda a noite não é tão inofensivo como você pensa; resseca as vias respiratórias, provoca acúmulo de muco, espalha ácaros e ainda pode irritar a córnea dos olhos
-
Vulcão equatoriano de 6.268 metros está mais de 2 mil metros mais perto do espaço do que o Everest, que tem 8.848 metros, porque a Terra é mais larga na linha do equador
-
Estudantes de escola pública no sertão do Maranhão criam bioinseticida com nim e mamona para proteger lavouras de milho, transformam resíduos rurais em biogás e biofertilizante e levam tecnologia sustentável para produtores na ExpoSertão
-
Ötzi, a múmia de 5.300 anos achada nos Alpes, revela um microbioma ainda ativo, e a levedura do Homem do Gelo aponta para uma fermentação que economiza energia
O que é o rotífero e por que ele surpreendeu cientistas
Identificado como um rotífero bdeloide, o organismo pertence a um grupo conhecido por sua capacidade de resistir a condições ambientais extremas, especialmente em ambientes aquáticos ou úmidos onde costuma habitar em estado ativo.
Quando expostos a situações adversas, como frio intenso, escassez de água ou ausência de oxigênio, esses animais microscópicos conseguem entrar em um estado de dormência, reduzindo drasticamente suas funções vitais para garantir a sobrevivência.

No experimento, o espécime foi recuperado de camadas profundas do permafrost siberiano, cuja idade foi estimada por datação por radiocarbono, reforçando a evidência de que o organismo permaneceu congelado por dezenas de milhares de anos.
Já em ambiente controlado, após o descongelamento gradual, o rotífero não apenas retomou suas funções biológicas, como também originou uma cultura clonal por partenogênese, forma de reprodução assexuada comum nesse grupo.
Criptobiose explica sobrevivência por milhares de anos
Associada diretamente à sobrevivência do organismo, a criptobiose é um estado biológico no qual a atividade metabólica cai a níveis quase indetectáveis, permitindo que o animal atravesse períodos prolongados de condições ambientais extremas.
Durante esse processo, funções essenciais são praticamente interrompidas, o que reduz danos celulares ao longo do tempo e possibilita que o organismo permaneça viável mesmo após longos períodos sem atividade metabólica regular.
Segundo o pesquisador Stas Malavin, um dos autores do estudo, o trabalho representa uma das evidências mais robustas de que animais multicelulares conseguem suportar dezenas de milhares de anos nesse estado de metabolismo quase completamente interrompido.
Além disso, o ambiente de permafrost, caracterizado por temperaturas constantemente baixas e baixa atividade biológica, atua como um sistema natural de preservação, mantendo organismos e matéria orgânica isolados da degradação por longos períodos.
Nesse contexto, a combinação entre frio intenso, ausência de luz e estabilidade ambiental contribuiu para reduzir processos de decomposição, fator essencial para que o rotífero permanecesse preservado por tanto tempo.
Testes em laboratório revelam resistência ao congelamento
Uma vez reativado, o organismo foi submetido a análises morfológicas e genéticas que permitiram classificá-lo dentro do gênero Adineta, conhecido por incluir espécies modernas com alta resistência a condições ambientais adversas.
Paralelamente, os pesquisadores conduziram testes específicos para avaliar a tolerância ao congelamento, utilizando descendentes do rotífero original para observar como essas estruturas biológicas respondem a variações controladas de temperatura.
Os resultados indicaram que esses organismos conseguem suportar congelamento lento por pelo menos sete dias, fornecendo pistas importantes sobre os mecanismos celulares responsáveis por proteger tecidos e estruturas internas contra danos causados pelo gelo.
Esse tipo de resistência é particularmente relevante porque o congelamento pode provocar rupturas celulares, alterações em membranas e danos ao material genético, efeitos que geralmente inviabilizam a sobrevivência em organismos mais complexos.

Por essa razão, os cientistas ressaltam que não há evidências de que animais superiores, como mamíferos, possam sobreviver ou ser reanimados após períodos tão longos de congelamento em condições naturais semelhantes.
A complexidade estrutural desses organismos torna seus sistemas biológicos mais vulneráveis a danos irreversíveis durante processos de congelamento e descongelamento prolongados, o que limita a aplicação desse fenômeno a formas de vida mais simples.
Impactos científicos e riscos ligados ao degelo do permafrost
Ao ampliar o conhecimento sobre os limites da vida em condições extremas, a descoberta reforça o interesse em áreas como criobiologia, biotecnologia e astrobiologia, que investigam a sobrevivência de organismos em ambientes hostis.
Nesse sentido, compreender os mecanismos que permitem a preservação celular pode contribuir para avanços em técnicas de conservação biológica, além de oferecer pistas sobre a possibilidade de vida em regiões fora da Terra.
Apesar disso, os pesquisadores destacam que o fenômeno observado é específico de certos organismos, como os rotíferos bdeloides, e não pode ser generalizado para outras formas de vida sem adaptações semelhantes.
Outro ponto de atenção envolve o degelo acelerado do permafrost em regiões árticas, processo que pode expor microrganismos antigos que permaneceram isolados por milhares de anos sob camadas de gelo.
À medida que essas camadas se tornam instáveis, vírus, bactérias e outros organismos podem voltar ao contato com ecossistemas atuais, o que levanta preocupações sobre impactos ambientais ainda pouco compreendidos.
Especialistas ressaltam que não é possível prever com precisão como esses organismos se comportariam após longos períodos de isolamento, o que reforça a necessidade de protocolos rigorosos em estudos científicos envolvendo esse tipo de material.
Embora o rotífero estudado não represente risco direto à saúde humana, o episódio evidencia que o permafrost funciona como um reservatório de material biológico antigo, cuja liberação pode ter consequências ainda desconhecidas.
Com isso, a reativação desse organismo amplia os limites conhecidos da sobrevivência biológica e reforça a importância de investigar como formas de vida podem persistir em condições extremas ao longo de escalas de tempo tão extensas.

Seja o primeiro a reagir!