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Expedition 501: Cientistas perfuram o fundo do oceano e descobrem uma reserva gigante de água doce escondida sob o mar, extraem quase 50 mil litros e revelam um sistema invisível que pode redesenhar o mapa da escassez hídrica

Escrito por Ana Alice
Publicado em 28/03/2026 às 13:34
Atualizado em 28/03/2026 às 13:36
Assista o vídeoExpedição revela água doce sob o oceano em Cape Cod e reacende estudos sobre aquífero submarino e escassez hídrica. (Imagem: Ilustrativa)
Expedição revela água doce sob o oceano em Cape Cod e reacende estudos sobre aquífero submarino e escassez hídrica. (Imagem: Ilustrativa)
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Expedição perfurou o fundo do mar e trouxe novas evidências sobre um reservatório subterrâneo pouco conhecido, em uma descoberta que recolocou os aquíferos submarinos no centro das pesquisas sobre água doce.

Reservas de água doce escondidas sob o fundo do mar voltaram a atrair atenção científica após uma expedição internacional perfurar a plataforma continental ao largo de Cape Cod, nos Estados Unidos, e retirar milhares de amostras de um sistema subterrâneo que pode se estender de Nova Jersey até o Maine.

O interesse em torno desse tipo de reservatório está ligado a um dado central da pesquisa: trata-se de um aquífero submarino raso, identificado sob uma faixa costeira já estudada há décadas, mas que ainda não havia sido investigada com perfuração direta em uma operação científica desse porte.

A missão, conhecida como Expedition 501, foi apresentada pelos organizadores como a primeira iniciativa internacional estruturada especificamente para perfurar o fundo marinho com foco na investigação sistemática de água doce ou pouco salina sob o oceano.

Durante os trabalhos, os pesquisadores coletaram cerca de 50 mil litros de água e sedimentos para análise laboratorial, em uma tentativa de esclarecer a origem, a idade, a composição e o potencial de renovação desse sistema subterrâneo.

O que mantém o tema atual não é apenas a dimensão estimada do aquífero, mas o contexto mais amplo de pressão sobre os recursos hídricos.

Segundo a Organização das Nações Unidas, a demanda mundial por água doce pode superar a oferta em 40% até 2030.

Nesse cenário, reservatórios escondidos sob áreas costeiras e plataformas continentais passaram a ser observados por pesquisadores como um campo relevante de estudo, embora ainda distante, por ora, de qualquer uso em larga escala.

Água doce sob o mar voltou ao radar da pesquisa científica

A presença de água subterrânea em áreas hoje cobertas pelo oceano está associada a processos geológicos antigos.

Em partes da costa leste da América do Norte, por exemplo, terrenos que hoje estão submersos já estiveram expostos durante períodos em que o nível do mar era mais baixo.

Com o derretimento de geleiras e a elevação dos oceanos, essas áreas foram inundadas, mas parte da água doce pode ter permanecido retida nos sedimentos sob o fundo marinho, segundo a explicação adotada pelos pesquisadores envolvidos na expedição.

Imagem: AP Photo/Carolyn Kaster
Imagem: AP Photo/Carolyn Kaster

Esse contexto ajuda a entender por que a plataforma continental dos Estados Unidos passou a concentrar novas investigações.

A expedição mais recente foi organizada justamente para avançar além do mapeamento remoto e obter amostras físicas do sistema.

Com isso, os pesquisadores deixaram o campo das estimativas indiretas e passaram a analisar a água em laboratório, etapa considerada necessária para avaliar se o reservatório é antigo, renovável, quimicamente viável e ecologicamente sensível.

Expedição perfurou a plataforma continental ao largo de Cape Cod

Os trabalhos no mar ocorreram entre maio e agosto de 2025, com operações em três pontos da plataforma continental ao sul de Massachusetts.

Ao longo da missão, a equipe perfurou o subsolo marinho a profundidades próximas de 400 metros abaixo do leito oceânico e coletou testemunhos, água intersticial e outros materiais voltados a diferentes frentes de análise.

A expedição reuniu pesquisadores de vários países e contou com apoio da National Science Foundation, nos Estados Unidos, além do consórcio europeu para perfuração científica oceânica.

Segundo Brandon Dugan, co-chefe científico da missão e pesquisador da Colorado School of Mines, a equipe buscou água doce em um dos lugares menos intuitivos do planeta para esse tipo de investigação.

Em entrevistas reproduzidas por veículos norte-americanos, ele afirmou que a sociedade precisa examinar todas as possibilidades disponíveis para ampliar o conhecimento sobre novas fontes de água.

Imagem: AP/New York Post
Imagem: AP/New York Post

Os primeiros resultados de campo chamaram atenção pela salinidade das amostras.

Logo no início das perfurações, foram encontrados fluidos com cerca de 4 partes por mil de sal, valor bem inferior à média da água do mar, que gira em torno de 35 partes por mil.

Com o avanço das operações, os pesquisadores relataram amostras com salinidade próxima de 1 parte por mil, faixa compatível com a água doce em vários ambientes continentais.

Ainda assim, a equipe não tratou esse resultado como indicação automática de consumo humano, já que a potabilidade depende de análises químicas e microbiológicas adicionais.

Aquífero submarino pode ser maior do que o estimado inicialmente

Antes da expedição, os cientistas já trabalhavam com a possibilidade de que o sistema fosse amplo o suficiente para sustentar, em tese, uma metrópole do porte de Nova York por séculos.

Depois das perfurações, a equipe informou ter encontrado água doce ou quase doce em profundidades superiores e inferiores às esperadas inicialmente.

Segundo os pesquisadores, esse resultado sugere uma distribuição mais extensa do reservatório.

Ainda assim, os próprios responsáveis pela investigação evitam tratar esse potencial como promessa de exploração imediata.

O material coletado continua em análise para responder perguntas centrais, como a origem da água, o tempo em que ela permanece no subsolo e a possibilidade de o sistema ainda estar sendo recarregado por conexões subterrâneas com o continente.

Essa distinção é considerada decisiva para qualquer debate futuro sobre uso responsável do recurso.

Em janeiro e fevereiro de 2026, os cientistas voltaram a se reunir em Bremen, na Alemanha, para abrir, examinar e amostrar os testemunhos coletados durante a missão.

Segundo os organizadores, essa etapa colaborativa deve contribuir para esclarecer a formação, a evolução e a relevância desse sistema de água subterrânea sob o fundo do mar.

Até o momento, os resultados iniciais públicos se concentram na confirmação da presença de água pouco salina em grande escala, enquanto as conclusões detalhadas sobre idade e origem ainda dependem de processamento e publicação científica.

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Uso público da água ainda depende de respostas científicas

A existência de reservatórios subterrâneos sob o oceano pode sugerir uma alternativa direta à escassez hídrica, mas pesquisadores e especialistas ouvidos por reportagens internacionais tratam essa possibilidade com cautela.

Há obstáculos técnicos, ambientais, jurídicos e econômicos ainda sem resposta conclusiva.

Não está claro, por exemplo, quem controlaria esse tipo de recurso, como seria feita a extração sem risco de intrusão de água salgada e se a operação seria mais eficiente do que tecnologias já disponíveis, como a dessalinização.

Outro ponto sensível envolve o impacto ecológico.

Parte da água subterrânea que migra para o fundo do mar pode transportar nutrientes e influenciar ecossistemas costeiros e marinhos.

Segundo pesquisadores ligados a expedições anteriores e à atual investigação, alterar esse equilíbrio sem conhecimento suficiente pode provocar efeitos indesejados.

Por isso, eles defendem que qualquer discussão sobre aproveitamento só avance depois de uma compreensão mais robusta sobre o funcionamento do sistema.

Também há dúvidas sobre a qualidade da água.

Especialistas em microbiologia e geoquímica apontam que o fluido pode conter minerais ou microrganismos adquiridos ao atravessar camadas profundas de sedimento.

Isso não significa, por si só, que a água seja imprópria, mas indica que a avaliação de segurança depende de fatores que vão além da salinidade.

A própria equipe da Expedition 501 incluiu análises voltadas à composição química, à presença de gases dissolvidos e à atividade microbiana.

Imagem: Reprodução/Facebook
Imagem: Reprodução/Facebook

Descoberta amplia estudos sobre água doce escondida sob o oceano

O caso de Cape Cod também ampliou a visibilidade de um campo de pesquisa que não se limita à costa nordeste dos Estados Unidos.

Documentos da própria expedição indicam que aquíferos offshore semelhantes já foram reconhecidos em outras partes do mundo.

Com isso, esses sistemas passaram a ser observados como uma nova frente de investigação em áreas como ciclo hidrológico, geoquímica, microbiologia e gestão costeira.

Neste momento, o foco segue concentrado em entender como esses reservatórios se formam, quanto tempo duram e de que forma interagem com o continente e com o oceano.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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