Molde de cimento em ninho abandonado expôs uma rede subterrânea de formigas-cortadeiras, com câmaras, túneis e mecanismos naturais de circulação de ar estudados por pesquisadores no Brasil.
Um formigueiro abandonado de saúvas no Brasil revelou uma estrutura subterrânea complexa quando pesquisadores preencheram parte de seus túneis com cimento e escavaram o solo ao redor.
O molde expôs uma rede de câmaras, galerias e conexões que indica como formigas-cortadeiras constroem sistemas organizados para abrigo, circulação, cultivo de fungos e troca de gases.
O caso ganhou repercussão por causa da imagem do ninho moldado em concreto, descrito em materiais de divulgação científica como uma espécie de “cidade subterrânea”.
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A comparação é usada para dimensionar a escala da construção, mas os estudos acadêmicos confirmam dados mais precisos: ninhos de Atta laevigata, espécie de formiga-cortadeira comum no Brasil, podem reunir milhares de câmaras e alcançar vários metros de profundidade.
Pesquisas conduzidas em Botucatu, no interior de São Paulo, analisaram a arquitetura interna de três ninhos dessa espécie.
Dois foram abertos por trincheiras, enquanto um foi moldado com cimento para permitir a visualização da estrutura.
O estudo registrou entre 1.149 e 7.864 câmaras nos ninhos examinados, com profundidade de até 7 metros e túneis de forrageamento que se estendiam por até 70 metros a partir da área de solo solto na superfície.
Cimento revelou a estrutura do formigueiro no subsolo
O uso de cimento em ninhos abandonados permite criar um molde do espaço vazio deixado pelas formigas.
Após o endurecimento do material, os pesquisadores removem o solo ao redor e observam, em três dimensões, a forma dos túneis e das câmaras.
A técnica ajuda a preservar a disposição interna do ninho, que pode ser perdida em uma escavação direta.
No caso das formigas-cortadeiras, os estudos indicam que a organização interna não ocorre de maneira aleatória.
Há túneis usados como vias de circulação, câmaras associadas ao cultivo de fungos, áreas vazias e espaços relacionados à remoção de resíduos.
As formigas-cortadeiras não se alimentam diretamente das folhas que cortam.
Elas levam fragmentos vegetais para dentro do ninho e usam esse material como substrato para cultivar fungos, que servem de alimento para a colônia.
Por esse motivo, a distribuição das câmaras tem relação com a manutenção de temperatura, umidade e circulação de gases.
No estudo sobre Atta laevigata, os pesquisadores observaram câmaras com diferentes tamanhos e formatos.
O volume registrado variou de 0,03 litro a 51 litros.
Em parte dos ninhos analisados, muitas câmaras estavam associadas ao cultivo de fungos; outras apareciam vazias ou com solo em seu interior.
Formigas-cortadeiras constroem redes subterrâneas em grande escala
A formação de um ninho desse porte resulta da atividade coletiva das operárias.
Cada uma executa tarefas como escavar, transportar partículas de solo, abrir passagens e manter caminhos em uso.
A partir dessas ações repetidas, a colônia modifica o subsolo e cria uma arquitetura capaz de abrigar grande número de indivíduos.
A espécie Atta laevigata pertence ao grupo das formigas-cortadeiras, conhecidas no Brasil como saúvas.
Esses insetos têm impacto ecológico porque removem folhas, movimentam solo e influenciam a dinâmica da vegetação ao redor dos ninhos.
Em ambientes naturais, essa atividade pode alterar características físicas do solo e criar áreas diferentes das regiões vizinhas.
A quantidade de terra deslocada por formigas-cortadeiras ao longo da vida de uma colônia pode ser elevada.
No entanto, o número de 40 toneladas de solo citado em textos de divulgação não aparece confirmado de forma direta no estudo acadêmico consultado sobre o ninho de Atta laevigata de Botucatu.
A informação segura, nesse caso, é a escala registrada pelos pesquisadores: milhares de câmaras, até 7 metros de profundidade e túneis que avançam por dezenas de metros.
Túneis e câmaras ajudam na circulação de ar do ninho
A ventilação é um dos aspectos analisados em estudos sobre ninhos de formigas-cortadeiras.
Colônias desse tipo consomem oxigênio e produzem dióxido de carbono, assim como os fungos cultivados no interior das câmaras.
Em profundidade, o solo tende a ter menos oxigênio e maior concentração de gás carbônico, o que torna a troca de gases relevante para a manutenção do ninho.
Um estudo sobre ventilação em ninhos gigantes de Atta laevigata e Atta capiguara investigou o movimento de ar com gás traçador e também analisou moldes de cimento e escavações.
Os pesquisadores registraram saída de ar rico em CO₂ por aberturas mais altas e entrada de ar mais rico em O₂ por aberturas mais baixas, resultado compatível com ventilação passiva induzida pelo vento.
A análise, porém, apresentou uma ressalva: o ar que circulava pelos túneis não foi detectado diretamente dentro das câmaras de fungos.
Segundo os autores do estudo, a respiração da colônia depende de fluxos difusivos entre o ar das câmaras, a atmosfera do ninho e o solo ao redor.
Dessa forma, a ventilação ocorre, mas não deve ser descrita como uma corrente direta que atravessa todos os compartimentos.
Essa distinção evita uma leitura exagerada da estrutura.
O ninho não equivale a um sistema humano de climatização, embora apresente mecanismos naturais de troca de gases.
Forma das galerias, posição das aberturas, vento e difusão gasosa atuam em conjunto no ambiente subterrâneo.
Arquitetura das saúvas combina câmaras, galerias e aberturas
Nos ninhos de Atta laevigata, a combinação entre escala e função aparece na distribuição das câmaras em diferentes profundidades, conectadas por galerias estreitas.
Os túneis de forrageamento ligam o interior do ninho ao ambiente externo e permitem o transporte de folhas cortadas.
A arquitetura subterrânea também reduz a exposição da rainha, das larvas e do fungo cultivado a variações externas.
Ao manter partes essenciais da colônia abaixo da superfície, o ninho cria condições mais estáveis em relação ao ambiente externo.
As aberturas e os montes de terra na superfície, por sua vez, participam da circulação de ar e da retirada de material escavado.
Estudos sobre ventilação indicam que o formato externo do ninho pode induzir movimentos de ar no interior, principalmente quando há aberturas em alturas diferentes.
A passagem do vento sobre essas entradas cria diferenças de pressão, o que favorece a movimentação de gases entre a superfície e as galerias subterrâneas.
A imagem do molde de cimento ajuda a tornar visível uma estrutura que normalmente permanece escondida no solo.
Para pesquisadores que estudam insetos sociais, o caso permite observar como comportamentos individuais simples podem resultar em construções coletivas de grande escala, sem necessidade de comando centralizado.
Ninho de Atta laevigata mostra organização de insetos sociais
A comparação com uma cidade humana aparece com frequência porque a estrutura apresenta circulação, áreas com funções distintas e mecanismos de manutenção.
Trata-se, porém, de uma metáfora.
As formigas não constroem com intenção estética nem elaboram plantas; a organização surge de comportamentos coletivos associados a necessidades como alimento, abrigo, ventilação e descarte.
Ainda assim, o ninho é tratado em estudos e materiais de divulgação como um exemplo de construção biológica complexa.
Ele mostra como insetos sociais podem modificar o ambiente em grande escala e criar estruturas profundas, resistentes e funcionais.
Também contribui para pesquisas sobre manejo de formigas-cortadeiras, consideradas relevantes para a agricultura e para áreas de reflorestamento devido ao consumo de material vegetal.
Ao revelar o interior de um formigueiro, o cimento transformou uma estrutura invisível em um registro físico da organização subterrânea da colônia.
O que antes estava oculto sob o solo passou a mostrar a dimensão do trabalho coletivo realizado por insetos que medem poucos milímetros.

