Pesquisa conduzida por cientistas do Ipen revela como um novo catalisador cerâmico aumenta a eficiência na produção de hidrogênio a partir do etanol, alcançando 100% de conversão e maior estabilidade operacional.
Em meio à crise climática e à necessidade urgente de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, pesquisadores brasileiros deram um passo relevante na área de energia limpa. Segundo matéria publicada pela Agência FAPESP no dia 24 de fevereiro, cientistas do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares desenvolveram um catalisador cerâmico capaz de melhorar significativamente a conversão de etanol em hidrogênio, ampliando as possibilidades de uso de combustíveis renováveis no país.
Cientistas avançam na conversão de etanol em hidrogênio com foco em eficiência e estabilidade
O estudo, coordenado por Fabio Coral Fonseca, foi publicado no International Journal of Hydrogen Energy e mostra que o controle preciso da temperatura de processamento do material é determinante para alcançar alto desempenho catalítico. Os resultados incluem 100% de conversão do etanol, rendimento de 4,04 mols de hidrogênio por mol de etanol e estabilidade operacional de até 85 horas, com baixa formação de coque.
O hidrogênio é considerado um dos vetores energéticos mais promissores da economia de baixo carbono. Quando produzido a partir de fontes renováveis, pode atuar como combustível limpo, insumo industrial e forma de armazenamento de energia.
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Entre as rotas tecnológicas disponíveis, a reforma a vapor do etanol — conhecida pela sigla ESR (ethanol steam reforming) — ganha destaque no contexto brasileiro. Nesse processo, o etanol reage com vapor d’água em altas temperaturas para gerar hidrogênio e dióxido de carbono. A reação global ideal é representada por:
C₂H₅OH + 3 H₂O → 2 CO₂ + 6 H₂
Embora a equação pareça simples, o processo envolve múltiplas etapas intermediárias. É justamente nesse ponto que o papel do catalisador se torna central. Ele direciona a reação para maximizar a produção de hidrogênio e minimizar subprodutos indesejados, como a formação de carbono sólido, conhecido como coque, que compromete a vida útil do sistema. Os cientistas demonstraram que pequenas variações na etapa de fabricação do material podem alterar completamente o desempenho final do catalisador.
Catalisador cerâmico do tipo perovskita melhora desempenho na produção de hidrogênio
O material desenvolvido é um óxido cerâmico com estrutura do tipo perovskita, definida pela fórmula geral ABO₃. Nesse arranjo cristalino, diferentes elementos podem ocupar as posições A e B, conferindo grande flexibilidade estrutural e ajustando propriedades elétricas, iônicas e catalíticas.
Diferentemente dos métodos convencionais, em que o metal ativo é impregnado sobre a superfície do suporte, o novo catalisador incorpora o níquel diretamente na estrutura cristalina durante a síntese. Posteriormente, sob condições controladas, ocorre o fenômeno conhecido como exsolução.
Na exsolução, nanopartículas metálicas de níquel (Ni⁰) emergem da estrutura interna para a superfície do material. Essas partículas ficam fortemente ancoradas ao substrato cerâmico, o que reduz a mobilidade superficial e aumenta a estabilidade frente à sinterização. Esse detalhe estrutural é decisivo para manter a atividade catalítica ao longo do tempo e diminuir a formação de coque, problema recorrente em processos de reforma.
Temperatura de calcinação define a eficiência do catalisador na reforma do etanol
Um dos principais avanços do estudo foi demonstrar que a temperatura de calcinação do óxido precursor, antes da etapa de redução, controla o desempenho do catalisador.
Os pesquisadores sintetizaram o material por método químico e o calcinaram em três temperaturas distintas: 650 °C, 800 °C e 1.200 °C. Essa etapa influencia diretamente o tamanho das partículas cerâmicas e a área superficial disponível.
Os resultados mostraram que a calcinação a 650 °C preserva maior área superficial e favorece a exsolução eficiente do níquel. Nessa condição, o sistema atingiu 100% de conversão do etanol e rendimento de 4,04 mols de hidrogênio por mol de etanol. Além disso, o catalisador manteve estabilidade por até 85 horas de operação contínua, com baixa formação de carbono.
Já nas temperaturas de 800 °C e 1.200 °C, ocorreu crescimento excessivo das partículas cerâmicas. Esse aumento de tamanho reduziu a área superficial e dificultou a saída do níquel para a superfície, prejudicando a atividade catalítica.
Nesses casos, observou-se menor conversão de etanol e mudança na seletividade da reação, favorecendo a simples desidrogenação em vez da reforma completa para geração de hidrogênio. O estudo evidencia que não basta selecionar os elementos corretos: o processamento do material é determinante para o desempenho final.
Cientistas exploram metais abundantes para tornar combustíveis renováveis mais competitivos
Tradicionalmente, processos de reforma utilizam metais nobres como rutênio, ródio ou platina, conhecidos por sua alta atividade catalítica. No entanto, esses elementos possuem custo elevado e disponibilidade limitada.
Ao utilizar níquel — metal mais abundante e economicamente acessível — o novo catalisador reduz a dependência de metais nobres e amplia a viabilidade econômica da produção de hidrogênio a partir do etanol.
Essa estratégia é especialmente relevante para países que buscam fortalecer os combustíveis renováveis sem elevar excessivamente os custos de produção. O uso de metais mais baratos, aliado à maior estabilidade do sistema, representa avanço significativo para aplicações industriais futuras.
Integração entre etanol e hidrogênio reforça o papel estratégico do Brasil
O Brasil possui uma das maiores cadeias produtivas de etanol do mundo, com infraestrutura consolidada de produção, distribuição e uso do biocombustível. Essa base instalada cria condições favoráveis para explorar rotas tecnológicas que agreguem valor ao etanol.
A conversão do etanol em hidrogênio pode permitir produção descentralizada, aplicações industriais de baixo carbono e integração com sistemas de geração elétrica. No entanto, o próprio pesquisador responsável pelo estudo ressalta que a simples conversão nem sempre é a alternativa mais eficiente do ponto de vista energético, considerando todo o processo agrícola, de fermentação e de destilação necessário para obter o etanol.
Por isso, a equipe também investiga células a combustível de etanol direto, capazes de converter o combustível líquido diretamente em eletricidade, ampliando as possibilidades tecnológicas associadas às perovskitas estudadas.
Cientistas ampliam pesquisas com apoio da FAPESP e colaborações internacionais
O estudo integra um programa mais amplo de pesquisa sobre exsolução metálica em perovskitas. Em trabalho anterior, também coordenado por Fonseca e publicado na Catalysis Science & Technology, foram obtidos resultados expressivos com rutênio exsolvido em estruturas à base de cromita de lantânio.
As pesquisas receberam apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo por meio do Projeto Temático “Dispositivos eletroquímicos avançados de conversão de moléculas e produção de energia”, além dos Auxílios à Pesquisa 17/11937-4, 18/19251-7 e 24/00989-7, e Bolsa de Doutorado.
O grupo também colabora com pesquisadores dos Estados Unidos com financiamento da National Science Foundation. Parte das caracterizações avançadas é realizada no Sirius, acelerador de luz síncrotron brasileiro que permite análises estruturais em nível atômico.
Além dos estudos com pós policristalinos, os cientistas avançam para sistemas ainda mais controlados, como filmes finos epitaxiais produzidos por deposição a laser pulsado. Nesses materiais, o crescimento ordenado permite investigar a exsolução com maior precisão e compreender os mecanismos fundamentais envolvidos.
O que esse avanço significa para o futuro dos combustíveis renováveis
Os resultados demonstram que é possível alcançar alto desempenho catalítico com metais abundantes, estabilidade prolongada e controle estrutural refinado. A obtenção de 100% de conversão do etanol, com rendimento de 4,04 mols de hidrogênio por mol de etanol e operação estável por 85 horas, reforça o potencial tecnológico da rota.
Em um cenário global de transição energética, soluções que combinem viabilidade econômica, desempenho técnico e aproveitamento de cadeias produtivas existentes tendem a ganhar destaque. O desenvolvimento desse catalisador representa um passo consistente nessa direção.
Ao integrar ciência de materiais, engenharia química e estratégias de descarbonização, os cientistas brasileiros demonstram que a inovação tecnológica pode fortalecer a competitividade dos combustíveis renováveis e ampliar o papel do hidrogênio na matriz energética.


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