Novo experimento com transceptor em altíssima frequência alcança desempenho comparável ao da fibra óptica tradicional, usando processos industriais maduros e alta eficiência energética
A próxima geração das comunicações móveis ainda parece distante do uso comercial, porém os avanços que pavimentam o caminho para o 6G já começam a sair dos laboratórios. Um novo experimento conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia demonstra que transmissões sem fio podem atingir velocidades comparáveis às da fibra óptica, algo que até pouco tempo era considerado inviável fora de ambientes altamente controlados.
A informação foi divulgada pelo site TudoCelular.com, com base em dados técnicos apresentados pelos engenheiros responsáveis pelo projeto, que desenvolveram um transceptor operando na faixa de 140 GHz, capaz de alcançar 120 Gbps de taxa de transmissão. O resultado coloca o experimento muito acima do que hoje é entregue por redes 5G comerciais e até mesmo pelo Wi-Fi 7, aproximando-se do desempenho de conexões ópticas físicas.
O feito chama atenção não apenas pela velocidade absoluta, mas também pela combinação entre eficiência energética, viabilidade industrial e aplicação prática, fatores que costumam ser os principais entraves quando se fala em comunicações de altíssima frequência.
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Como funciona a “fibra óptica sem fio” em 140 GHz

O coração do experimento está no uso de frequências extremamente elevadas, próximas daquelas que vêm sendo estudadas como base para o futuro padrão 6G. A faixa de 140 GHz pertence ao espectro conhecido como ondas milimétricas avançadas, onde há enorme largura de banda disponível, mas também grandes desafios técnicos.
Tradicionalmente, operar nessas frequências exige circuitos complexos, caros e com alto consumo energético. No entanto, os pesquisadores optaram por uma abordagem diferente. Em vez de utilizar conversores analógico-digitais tradicionais, conhecidos por consumir vários watts de energia, a equipe adotou uma arquitetura híbrida.
Nesse modelo, o sistema utiliza subtransmissores analógicos, cada um operando com cerca de 230 miliwatts (mW). Essa escolha reduz drasticamente o consumo energético total, resolvendo um dos maiores gargalos históricos das comunicações em altíssima frequência. Como resultado, o transceptor não apenas atinge altas velocidades, como também mantém níveis de eficiência compatíveis com aplicações reais.
Além disso, a arquitetura permite que o sistema seja escalável, abrindo caminho para implementações mais amplas em ambientes corporativos e industriais.
Processo de 22 nm torna a tecnologia viável para produção em escala
Outro ponto decisivo do projeto está no processo de fabricação utilizado. Em vez de recorrer a nós avançadíssimos e caros, como 5 nm ou 3 nm, os pesquisadores desenvolveram o transceptor usando um processo de 22 nanômetros, amplamente dominado pela indústria de semicondutores.
Essa decisão tem impacto direto na viabilidade comercial da tecnologia. Processos maduros oferecem maior rendimento, custos menores e cadeias de suprimento já consolidadas. Na prática, isso significa que a “fibra óptica sem fio” não depende de tecnologias experimentais ou fábricas de última geração para existir.
Ao contrariar a lógica atual de que apenas a miniaturização extrema gera ganhos de desempenho, o projeto mostra que arquitetura inteligente e engenharia de sistemas ainda podem entregar saltos significativos em eficiência e capacidade.
Essa combinação de desempenho elevado, baixo consumo e processo produtivo acessível coloca o experimento em um patamar raro entre pesquisas acadêmicas: o de algo que pode, de fato, sair do papel.
Aplicações em data centers e o impacto na era da inteligência artificial
Segundo os engenheiros envolvidos no projeto, uma das aplicações mais promissoras da tecnologia está nos data centers. O sistema pode funcionar como uma espécie de “cabo de fibra óptica sem fio”, conectando racks e servidores por meio de enlaces ultrarrápidos, sem a necessidade de cabeamento físico tradicional.
Esse conceito tem implicações profundas. Data centers modernos enfrentam desafios crescentes relacionados a custo de infraestrutura, complexidade de cabeamento, refrigeração e consumo energético, problemas que se intensificam com o avanço da inteligência artificial, da computação em borda e do processamento de grandes volumes de dados.
Ao substituir parte dos cabos físicos por links sem fio de altíssima velocidade, seria possível reduzir o volume de material, melhorar a circulação de ar, diminuir pontos de falha e otimizar a reorganização interna dos centros de dados. Além disso, a flexibilidade operacional aumentaria, permitindo reconfigurações mais rápidas conforme a demanda computacional cresce.
Apesar disso, os próprios pesquisadores reconhecem que ainda existem desafios importantes. Frequências tão altas apresentam alcance limitado e são mais sensíveis a obstáculos físicos, o que exige soluções avançadas de alinhamento, cobertura e estabilidade do sinal. Mesmo assim, o experimento representa um passo concreto rumo a redes 6G funcionais, capazes de suportar dispositivos autônomos, sistemas inteligentes e trocas massivas de dados quase instantaneamente.
Fonte: Tudo Celular
