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Cientistas dizem ter encontrado um caminho para viajar à velocidade da luz, mas o detalhe que freia tudo é absurdo: a humanidade talvez precise esperar até 1.000 anos para testar

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 23/04/2026 às 18:54
Atualizado em 23/04/2026 às 22:09
Motor de dobra propõe viagem à velocidade da luz, mas depende de energia negativa e pode levar séculos para sair da teoria.
Motor de dobra propõe viagem à velocidade da luz, mas depende de energia negativa e pode levar séculos para sair da teoria.
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Nova proposta de motor de dobra reacende o debate sobre viagens à velocidade da luz ao redesenhar a bolha espaço-temporal, mas a necessidade de energia negativa, os riscos de controle e os prazos estimados em até milhares de anos mantêm a tecnologia distante da realidade.

A busca por uma forma de viajar à velocidade da luz ganhou novo fôlego com um artigo científico que propõe uma versão redesenhada da chamada bolha de dobra, estrutura teórica que poderia transportar uma espaçonave por meio da distorção do espaço-tempo.

O entusiasmo, porém, segue limitado por um obstáculo central: a humanidade ainda não sabe produzir os ingredientes físicos exigidos pelo modelo, especialmente grandes quantidades de energia negativa.

A proposta envolve uma nova arquitetura para um motor de dobra, ideia associada há décadas ao sonho de reduzir distâncias entre estrelas. A solução apresentada não faz a nave ultrapassar localmente o limite imposto pela física moderna, mas tenta mover a região ao redor dela, comprimindo o espaço à frente e expandindo o espaço atrás.

O estudo foi assinado pelo engenheiro aeroespacial Harold “Sonny” White e pelos coautores Jerry Vera, Andre Sylvester e Leonard Dudzinski, ligados à Casimir, Inc.

O trabalho descreve “bolhas de dobra cilíndricas com interior plano para nacelas” e foi publicado na revista Classical and Quantum Gravity.

Nova bolha de dobra reacende o debate sobre velocidade da luz

A principal mudança do novo modelo está na geometria da bolha de dobra. Em vez de concentrar a energia exótica em um único anel circular ao redor da nave, a proposta organiza essa energia em segmentos tubulares separados, posicionados ao redor da fuselagem como naceles.

Os autores analisam configurações com dois, três ou quatro segmentos espaçados em torno da bolha. A ideia é manter o interior da espaçonave calmo e plano, enquanto a parte externa realiza o trabalho de distorcer o espaço-tempo.

A comparação com a ficção científica aparece de forma inevitável, especialmente pela semelhança com as nacelas gêmeas da USS Enterprise. Harold White afirmou ao The Debrief que essa semelhança “não é meramente estética”, reforçando a tentativa de aproximar a matemática da dobra espacial de algo mais palpável para a engenharia.

O ponto central, no entanto, continua sendo transformar equações consistentes em algo fisicamente possível. O modelo refina a arquitetura da bolha, mas ainda depende de condições que a ciência atual não consegue reproduzir em escala útil para uma espaçonave.

Como a propulsão de dobra tenta contornar o limite cósmico

A física moderna não permite que uma nave com massa seja simplesmente acelerada até superar a velocidade da luz. Quanto mais perto um objeto chega desse limite, maior é a energia necessária para continuar acelerando, sem que essa exigência se estabilize.

Os conceitos de propulsão de dobra buscam uma saída diferente. A nave não seria empurrada como um foguete comum, mas carregada por uma bolha que altera a geometria do espaço ao seu redor.

A lógica pode ser comparada a uma esteira rolante de aeroporto. A pessoa sobre a esteira não precisa correr mais rápido do que todos ao redor, mas chega antes porque a superfície sob seus pés também está em movimento.

Na proposta de dobra espacial, essa “esteira” seria o próprio espaço-tempo. A região à frente da nave seria comprimida, enquanto a região atrás dela se expandiria, permitindo que a bolha avançasse sem que a espaçonave dentro dela ultrapassasse localmente a velocidade da luz.

Esse tipo de abordagem remonta à proposta de 1994, frequentemente citada como o documento métrico sobre propulsão de dobra. Desde então, o maior desafio tem sido conciliar a elegância matemática com limitações físicas extremamente rígidas.

Interior plano busca proteger astronautas

Um dos pontos que chama atenção no novo artigo é o foco na habitabilidade da bolha. Não basta mover uma espaçonave pelo espaço-tempo; uma missão tripulada também precisaria garantir que a região interna não submetesse astronautas a distorções gravitacionais perigosas.

Essas distorções são associadas às chamadas forças de maré. Em escala extrema, elas poderiam criar efeitos muito mais severos do que as marés oceânicas observadas na Terra, tornando inviável a presença humana dentro da nave.

Por isso, os autores defendem uma condição de “planicidade interior”. A cabine permaneceria matematicamente plana em termos de espaço-tempo, ainda que a estrutura externa da bolha estivesse altamente distorcida.

Essa estabilidade teria importância direta para navegação, relógios, suporte à vida e funcionamento normal das leis físicas dentro da espaçonave. Mesmo sendo uma proposta teórica, ela mira uma exigência que qualquer sistema real precisaria enfrentar.

Energia negativa continua sendo o maior obstáculo

O maior entrave para qualquer motor de dobra segue sendo a energia negativa. Esse tipo de densidade de energia abaixo do nível do vácuo aparece em quantidades mínimas em configurações quânticas muito específicas, mas ampliá-la para o tamanho de uma espaçonave está muito além das capacidades atuais.

A crítica não é apenas tecnológica. Uma análise de 1997 de Michael J. Pfenning e L. H. Ford aplicou limites quânticos às bolhas de dobra e concluiu que a energia negativa teria de ser comprimida em uma camada extremamente fina, com exigências totais de energia consideradas fisicamente inalcançáveis.

Também permanece aberta a questão de saber se o universo fornece massa negativa ou energia negativa em uma forma utilizável. O astrofísico Avi Loeb, da Universidade de Harvard, argumentou que a energia do vácuo associada à expansão cósmica é tão diluída que nem mesmo um cubo com cerca de 19 quilômetros de lado seria suficiente para manter uma lâmpada de 100 watts acesa por um minuto inteiro.

Loeb também escreveu que, até onde se sabe, nenhuma física conhecida pode dar origem a um objeto com massa negativa. Esse ponto torna a distância entre a teoria da velocidade da luz e uma nave real ainda mais ampla.

Controle, colisões e riscos no caminho

Mesmo que o problema da energia fosse resolvido, uma bolha de dobra ainda precisaria ser iniciada, guiada e interrompida com segurança. Uma análise técnica posterior aponta que, em casos superluminais, a tripulação poderia enfrentar um “problema de horizonte”, ficando incapaz de criar ou controlar a bolha de dentro dela.

Outro risco está no comportamento da bolha ao atravessar partículas no espaço. Um estudo de 2012 sugeriu que partículas poderiam ficar presas e acumuladas, liberando energia intensa quando a bolha desacelerasse perto do destino.

Esse tipo de efeito transforma a ideia de atalho cósmico em um problema de segurança. A bolha não precisaria apenas chegar rápido; ela teria de evitar danos à nave, à tripulação e ao ambiente próximo ao ponto de chegada.

A distância entre os métodos atuais e uma viagem próxima à velocidade da luz continua enorme. Loeb observa que foguetes humanos ainda não ultrapassaram cerca de 0,01% da velocidade da luz, o que mantém a estrela mais próxima a vários milênios de viagem com tecnologias atuais.

Pesquisa pode levar séculos até virar tecnologia

O impacto mais realista desses estudos, no curto prazo, está em transformar ideias de propulsão de dobra em perguntas testáveis. Um dos desafios é descobrir como detectar uma minúscula distorção artificial do espaço-tempo em laboratório, mesmo em escalas microscópicas.

Também existem pesquisas paralelas tentando evitar a energia negativa. Erik Lentz propôs soluções de dobra espacial no estilo sóliton usando energia positiva, enquanto outros pesquisadores investigam motores de dobra físicos mais lentos que a luz como ponto de partida mais plausível.

Nenhuma dessas abordagens chegou perto de um projeto concreto. Ainda assim, elas mantêm ativo o debate sobre o que a relatividade geral permite e sobre o que a natureza realmente tolera.

O prazo para que esse tipo de física se transforme em tecnologia útil permanece incerto. Sabine Hossenfelder já apontou que ideias abstratas podem levar “talvez 1.000 ou 5.000 anos” para se tornarem ferramentas práticas, caso isso algum dia aconteça.

No estágio atual, a velocidade da luz segue como uma fronteira muito mais teórica do que tecnológica para a exploração espacial. A nova proposta melhora a forma de pensar a bolha de dobra, mas o salto entre matemática, energia negativa, controle seguro e viagem real ainda permanece imenso.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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