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Na Austrália, uma cidade inteira foi construída debaixo da terra porque o calor na superfície passa de 50°C. Em Coober Pedy, a maioria dos moradores vive em casas escavadas dentro de minas de opala abandonadas, com igrejas, livrarias, galerias de arte e até piscinas subterrâneas

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 07/04/2026 às 14:55
Atualizado em 07/04/2026 às 14:59
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Na Austrália, uma cidade inteira foi construída debaixo da terra porque o calor na superfície passa de 50°C.
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Em Coober Pedy, cidade subterrânea na Austrália, moradores vivem em antigas minas de opala adaptadas, mantendo temperatura constante e conforto térmico natural, enquanto lideram a produção mundial de opalas.

A 846 quilômetros ao norte de Adelaide, no deserto do sul da Austrália, existe uma cidade onde a vida acontece debaixo do chão. Na superfície, Coober Pedy parece um cenário pós-apocalíptico — terra avermelhada, poeira, montes de arenito e nenhuma árvore natural. Abaixo, casas com três quartos, banheiro, cozinha, sala de estar, internet e água encanada estão escavadas na rocha, a uma temperatura constante de 22 a 24°C o ano inteiro.

Segundo a Encyclopaedia Britannica, a Smithsonian Magazine e a Wikipedia, a cidade é chamada de “Capital Mundial da Opala” porque 70% de todas as opalas do planeta saem dali. E a maioria dos seus moradores vive literalmente dentro de buracos escavados em colinas — não por pobreza, mas porque a rocha resolve o problema que o ar-condicionado não resolve: um deserto onde os termômetros passam de 50°C na sombra.

Um adolescente, uma opala e o início de tudo

Em 1º de fevereiro de 1915, Willie Hutchison, um garoto de 14 anos, acompanhava o pai e dois sócios numa expedição fracassada em busca de ouro no interior da Austrália. Enquanto os homens saíam para procurar água, Willie tropeçou em pedaços de opala simplesmente jogados na superfície do solo. Investigações posteriores revelaram uma abundância da pedra preciosa sob a terra árida.

Quarto de hotel subterrâneo em Coober Pedy. Imagem: Kerry Raymond/Wikipedia

A notícia se espalhou. Mineradores começaram a chegar — muitos deles soldados retornando da Primeira Guerra Mundial em busca de uma segunda chance. Um assentamento surgiu e foi batizado oficialmente de Coober Pedy em 1920. O nome vem do termo aborígine kupa-piti, que significa “buraco do homem branco”. Os povos aborígines da região, que viviam ali há milhares de anos como caçadores-coletores nômades, chamam o lugar de Umoona — “vida longa”.

O problema: 52°C na sombra

Os primeiros mineradores tentaram viver na superfície. Construíram casas convencionais, como fariam em qualquer outra cidade. O deserto disse não. No verão, as temperaturas podem chegar a 52°C na sombra — quando há sombra, o que era raro numa paisagem sem árvores. A umidade relativa raramente passa de 20%. À noite, no inverno, o deserto esfria drasticamente. A oscilação térmica torna a vida na superfície um exercício de resistência.

A solução veio do que os mineradores já sabiam fazer: cavar. Se eles passavam o dia dentro de túneis escavando opala a uma temperatura confortável, por que não morar lá também? Usando as mesmas ferramentas de mineração, começaram a escavar residências nas colinas de arenito — os “dugouts”, como são chamados localmente. A rocha mantém a temperatura interna entre 22 e 24°C o ano inteiro, sem aquecimento no inverno e sem ar-condicionado no verão.

Uma casa de três quartos escavada na rocha

Escavar um dugout de três quartos com sala, cozinha e banheiro na colina custa aproximadamente o mesmo que construir uma casa convencional na superfície. A diferença é que a casa subterrânea não precisa de ar-condicionado — uma economia brutal de energia num deserto onde a eletricidade é cara e a infraestrutura, limitada.

As casas têm eletricidade, água encanada e internet. Não têm janelas, mas os moradores descrevem os interiores como espaçosos e surpreendentemente aconchegantes — as paredes de arenito alaranjado dão uma tonalidade quente aos ambientes.

 Igreja subterrânea. Imagem: Robert Link/Wikipedia

Alguns moradores esculpem prateleiras diretamente na rocha. Uma moradora construiu uma piscina subterrânea em casa. O bar de um ex-caçador de crocodilos chamado “Crocodile Harry” — aberto ao público após sua morte em 2006 — tem paredes cobertas de arte excêntrica e artefatos aleatórios, incluindo um crocodilo falso e uma escultura gigante de mulher.

Igrejas, livrarias e museus debaixo da terra

A vida subterrânea de Coober Pedy não se limita a residências. A cidade tem igrejas escavadas na rocha — a Igreja Ortodoxa Sérvia, construída nos anos 1990, tem vitrais retroiluminados e figuras de santos esculpidas nas paredes de arenito. A Igreja Anglicana Catacomb, escavada à mão nos anos 1970, é mais simples. A Igreja Católica St. Peter & Paul, inaugurada nos anos 1960, tem formato de cruz.

Há também a Underground Books, uma livraria instalada num antigo poço de mineração. A Underground Art Gallery exibe arte aborígine local, didgeridoos e pinturas pontilhistas. O Umoona Opal Mine & Museum é uma antiga mina de opala transformada em museu, onde visitantes podem caminhar pelos túneis originais e aprender sobre a mineração. E o Desert Cave Hotel oferece quartos subterrâneos para turistas — uma experiência que a Smithsonian descreveu como “serenidade subterrânea”.

O campo de golfe sem grama

Se a vida subterrânea de Coober Pedy é incomum, a vida na superfície é surreal. O campo de golfe da cidade não tem grama — é jogado na terra nua, com quadrados de carpete que os jogadores carregam para usar como tee. As partidas noturnas usam bolas que brilham no escuro. Antes de uma iniciativa de plantio de árvores, a árvore mais alta da cidade era uma escultura de metal feita de sucata.

Placas ao redor da cidade alertam pedestres sobre “buracos não sinalizados” — restos de escavações de opala abandonadas que pontilham a paisagem como crateras lunares. O cinema drive-in local pede que os espectadores “deixem seus explosivos em casa”. E uma fina camada de poeira vermelha cobre tudo — carros, prédios, roupas e rostos — como um lembrete permanente de que a cidade inteira é, literalmente, um buraco no deserto.

250 mil entradas de minas e 45 nacionalidades

Até 1999, mais de 250 mil entradas de poços de mineração haviam sido escavadas na região de Coober Pedy — um número tão grande que representam perigo real para moradores e turistas. A população é de cerca de 2.500 pessoas originárias de mais de 45 nacionalidades diferentes — europeus, asiáticos, gregos, sérvios, croatas, aborígines — criando uma das comunidades mais multiculturais da Austrália, no meio do lugar mais inóspito do continente.

joalheria subterrânea em Coober Pedy. Imagem: Wikipedia

A mineração proibiu escavação na área residencial, mas muitos mineradores contornam a regra “expandindo” suas casas — um eufemismo para continuar cavando em busca de opala disfarçada de reforma doméstica. A Britannica nota que pode haver milionários vivendo em Coober Pedy, mas a informação é mantida em segredo absoluto — porque revelar uma descoberta valiosa faria com que todos os terrenos ao redor fossem comprados imediatamente.

Cenário de Mad Max e Pitch Black

A paisagem lunar de Coober Pedy atraiu Hollywood. Em 1985, Mel Gibson e Tina Turner filmaram Mad Max: Além da Cúpula do Trovão na cidade. O cenário pós-apocalíptico — montes de arenito avermelhado, poeira, ausência de vegetação e buracos por toda parte — não precisou de quase nenhuma intervenção cenográfica. O filme Pitch Black, com Vin Diesel, também usou Coober Pedy como locação. A cidade se tornou sinônimo de paisagem alienígena na cultura cinematográfica.

A água que vem de 2 km de profundidade

A água de Coober Pedy vem da Grande Bacia Artesiana — um dos maiores aquíferos subterrâneos do mundo, que se estende por baixo de quase um quarto do continente australiano. A água é bombeada de mais de 2 quilômetros de profundidade e tratada antes da distribuição. Os custos são os mais altos da Austrália Meridional, agravados por tubulações envelhecidas e perdas no sistema.

Cozinha e sala de jantar subterrâneas. Imagem: Reprodução/YouTube – Let’s Go

A chuva é rara — a precipitação anual é extremamente baixa — e não há rios nem lagos na região. Toda a existência da cidade depende de água fóssil bombeada de um aquífero que se formou há milhões de anos. É uma ironia estrutural: Coober Pedy vive de dois recursos subterrâneos — opala e água — e ambos são finitos.

A energia que vem do sol que expulsa as pessoas

Em 2017, Coober Pedy inaugurou uma usina solar híbrida que fornece eletricidade para a cidade. O mesmo sol que torna a superfície inabitável e empurra as pessoas para debaixo da terra agora gera a energia que alimenta suas casas subterrâneas. A ironia é completa: o sol é o vilão que criou a necessidade dos dugouts e o herói que fornece a eletricidade para iluminá-los.

O modelo para um planeta mais quente

Coober Pedy não é apenas uma curiosidade turística — é um laboratório involuntário para o futuro. À medida que as temperaturas globais sobem, a ideia de construir moradias subterrâneas para escapar do calor extremo ganha relevância. Pesquisadores notam que a rocha e o solo absorvem e retêm calor de forma estável, mantendo temperaturas constantes sem necessidade de aquecimento ou refrigeração artificial — uma eficiência energética que nenhum sistema de ar-condicionado consegue igualar.

A BBC Future Planet observou que o estilo de vida troglodita pode parecer excêntrico no inverno, mas sua lógica se torna cristalina no verão australiano, quando pássaros caem mortos de calor na superfície. A pergunta que Coober Pedy levanta não é “por que alguém moraria debaixo da terra?” — é “por que mais gente não mora?”

Qualquer um pode cavar — e talvez ficar rico

Uma tradição de Coober Pedy que atrai turistas do mundo inteiro é o “noodling” — a prática de vasculhar os montes de arenito descartados pelas minerações em busca de opalas que os equipamentos pesados não detectaram. Não é preciso licença, não é preciso ferramentas sofisticadas — basta um balde, uma peneira e paciência. Opalas valiosas já foram encontradas em montes que haviam sido dados como esgotados.

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A opala preciosa de Coober Pedy é conhecida pela variedade de cores e pelo brilho iridescente — flashes de vermelho, verde, azul e laranja que mudam conforme o ângulo da luz. A opala negra, mais rara, pode valer milhares de dólares por quilate. Em 2009, uma descoberta potencialmente significativa de petróleo de xisto foi feita nos arredores da cidade, na Bacia de Arckaringa, com estimativas entre 3,5 e 223 bilhões de barris — mas a opala continua sendo o recurso que define a identidade e a economia da cidade desde 1915.

O buraco do homem branco que virou lar

Coober Pedy nasceu de um acidente — um garoto tropeçou em opalas enquanto o pai procurava água. Cresceu como um acampamento de mineradores que descobriram que morar dentro da mina era mais confortável do que morar fora. Virou uma cidade com igrejas, livrarias, galerias de arte e piscinas, tudo escavado em rocha a 23°C constantes num deserto que passa de 50°C na superfície.

O nome aborígine — kupa-piti, “buraco do homem branco” — era uma descrição literal. Mais de um século depois, continua sendo a descrição mais precisa possível de uma cidade onde a vida inteira acontece debaixo do chão, alimentada por opala, água fóssil e o sol que expulsou todos para o subsolo.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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