Município do Amapá sobrevive quase integralmente de repasses federais, mantém uma máquina pública robusta apesar da baixa arrecadação própria e expõe um modelo que se repete em centenas de cidades brasileiras
A informação foi divulgada por dados oficiais do Portal do Bolsa Família, do IBGE, do CAGED e do Portal da Transparência, além de levantamentos econômicos citados por análises independentes. Juntos, esses números ajudam a entender uma realidade que, à primeira vista, parece improvável, mas que existe no Brasil de forma concreta e documentada.
Localizada no estado do Amapá, Itaubal do Piririm chama atenção por um dado que, isoladamente, já seria suficiente para causar espanto: 93% da população depende do Programa Bolsa Família para sobreviver. Em um município com cerca de 6 mil habitantes, aproximadamente 5.640 pessoas fazem parte de famílias cadastradas no programa. Ou seja, praticamente toda a cidade.
No entanto, à medida que os dados se acumulam, o cenário se torna ainda mais complexo. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), existem apenas 29 trabalhadores com carteira assinada em todo o município. Isso representa um emprego formal para cada 215 moradores, um índice extremamente fora do padrão nacional e que praticamente elimina a existência de um mercado de trabalho local.
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Esse conjunto de informações levanta uma pergunta inevitável: como uma cidade inteira consegue funcionar sem uma base econômica ativa?
Uma economia que praticamente não existe fora do papel

Para entender a dimensão do problema, é necessário observar outros indicadores básicos. De acordo com dados do IBGE, Itaubal possui menos de 80 veículos registrados, o que equivale a cerca de 13 carros para cada mil habitantes. Esse número é compatível com regiões de extrema pobreza e reforça a ausência de atividade econômica, circulação de mercadorias e consumo regular.
A renda média anual por pessoa gira em torno de R$ 15 mil, o que representa pouco mais de R$ 1.200 por mês. Esse valor, por si só, já posiciona o município em patamares semelhantes aos de países com baixo desenvolvimento econômico. Ainda assim, a média é distorcida para cima por salários concentrados no topo da administração pública.
Dentro desse mesmo território de baixa renda, o salário do prefeito chega a R$ 173 mil por ano, criando um contraste evidente entre a realidade da população e a remuneração da elite administrativa. Enquanto a maioria dos moradores depende de benefícios sociais para sobreviver, o núcleo político opera com vencimentos compatíveis com cidades muito maiores.
Segundo levantamento econômico citado pela Caravela, o Produto Interno Bruto (PIB) de Itaubal é de aproximadamente R$ 87,9 milhões, sendo que 72,7% desse valor adicionado vêm diretamente da administração pública. Em outras palavras, o principal “motor econômico” da cidade é o próprio Estado.
O tamanho da máquina pública em um município sem arrecadação
Quando se analisa o orçamento municipal, a sensação é a de observar uma cidade que existe formalmente, mas não se sustenta na prática. A previsão orçamentária de 2024 indicava uma receita líquida superior a R$ 20 milhões. À primeira vista, esse valor parece elevado para um município tão pequeno.
Entretanto, ao detalhar a origem desses recursos, o quadro muda completamente. Menos de R$ 800 mil vêm de arrecadação própria, somando IPTU, ISS, taxas e multas. Todo o restante é composto por repasses federais, enviados justamente porque a cidade não consegue gerar recursos suficientes por conta própria.
Esse desequilíbrio se reflete diretamente no custo da estrutura administrativa. Em 2024, segundo dados do Portal da Transparência, Itaubal possuía 651 servidores ativos. Trata-se de um número elevado para um município com baixa densidade urbana, quase nenhuma frota veicular e pouquíssimas empresas funcionando.
A folha de pagamento do Executivo e do Legislativo consome cerca de R$ 10 milhões por ano, o que representa quase metade de todo o orçamento municipal. Na prática, é como se a cidade existisse para sustentar a própria estrutura administrativa.
Para facilitar a visualização, alguns números chamam atenção:
- 93% da população dependente do Bolsa Família
- 29 trabalhadores com carteira assinada
- Menos de 80 veículos registrados
- R$ 15 mil de renda média anual por pessoa
- R$ 173 mil de salário anual do prefeito
- 651 servidores ativos
- R$ 10 milhões gastos com pessoal
- Menos de R$ 800 mil de arrecadação própria
Esses dados ajudam a explicar por que o município opera em permanente desequilíbrio financeiro.
Câmara, secretarias e o ciclo da dependência permanente
A estrutura política local reforça ainda mais essa lógica. A Câmara Municipal de Itaubal, composta por 9 vereadores, consome aproximadamente R$ 800 mil por ano. Em teoria, o Legislativo municipal é responsável por propor leis e fiscalizar o Executivo. No entanto, segundo informações disponíveis no próprio site da Câmara, a página de proposições aparece vazia, sem registros de projetos apresentados em 2025, primeiro ano da legislatura eleita em 2024.
O gabinete do prefeito também chama atenção. Apenas essa unidade administrativa possui quase R$ 500 mil em despesas anuais previstas. Em um município cuja arrecadação própria não chega a R$ 800 mil por ano, o custo do gabinete representa cerca de 70% de tudo o que a cidade consegue arrecadar sozinha.
O atual prefeito foi eleito em 2024 com 5.252 votos de um total de 8.242 votos válidos. Esse número indica que mais de 2 mil eleitores se deslocaram de outros municípios para votar em Itaubal, um dado incomum para uma cidade pequena, localizada a mais de uma hora da capital.
Além disso, o Portal da Transparência encontra-se desatualizado desde dezembro de 2024, dificultando o acompanhamento detalhado das despesas. A antiga Secretaria Municipal de Administração e Finanças, responsável por mais de R$ 2,5 milhões em gastos, foi desmembrada em duas novas pastas: Secretaria de Administração e Secretaria de Planejamento, Finanças e Tecnologia da Informação, ampliando ainda mais a estrutura administrativa.
No total, o município conta com 19 unidades administrativas, entre secretarias, fundos e órgãos. Para uma cidade de 6 mil habitantes, com apenas 29 empregos formais, trata-se de uma estrutura equivalente à de municípios muito maiores.
Bolsa Família como base econômica e o limite do modelo atual
Segundo dados do Portal do Bolsa Família, somente no mês de novembro de 2025, Itaubal teve 2.000 famílias atendidas, beneficiando 5.640 pessoas. O valor total transferido foi de R$ 1.473.147,00, com um benefício médio de R$ 736,94 por família.
Embora não haja o consolidado anual disponível, ao projetar esse valor mensal, o montante ultrapassa R$ 16 milhões por ano, transferidos diretamente do governo federal para a população local. Esse volume de recursos supera, com folga, a arrecadação própria do município e sustenta não apenas as famílias, mas também o funcionamento indireto da economia local.
O problema, porém, não é a existência do Bolsa Família. O programa é essencial para garantir a sobrevivência de milhares de pessoas. A questão central é que, em Itaubal, ele se tornou o começo, o meio e o fim da estrutura econômica.
Sem empregos, sem produção e sem arrecadação, o município entra em um ciclo difícil de romper. Quanto menos produz, mais depende de repasses. Quanto maior a dependência, mais indispensável se torna a estrutura política que administra esses recursos.
Esse padrão não é exclusivo de Itaubal. Um estudo da Confederação Nacional de Municípios (CNM) revelou que, em 2016, 2.725 dos 5.570 municípios brasileiros tinham na Administração Pública sua principal atividade econômica. Ou seja, quase metade das cidades do país não se sustenta de forma autônoma.
Após analisar os números, a conclusão se impõe: Itaubal funciona como município, mas não funciona como economia. Existe oficialmente, mas não fecha a conta sem ajuda externa. O caso expõe um modelo que beneficia poucos, mantém estruturas inchadas e perpetua uma dependência que limita qualquer possibilidade real de desenvolvimento.
Com informações do canal: Elementar


Engraçado que existe uma lei que não permite cidades abaixo de uns 10 mil de se tornar cidade, mas o Brasil tem cidades de 900, 1000 habitantes em MG,SP e outros estados
Se temos 1 emprego formal para cada 215 moradores, teriamos algo como 6235 moradores. A população estimada em 2021 era de de 5.730, e o programa atende 5.640 pessoas, que podem estár recebendo mesmo fazendo parte do pessoal com carteira assinada (depende da renda para saber se você tem o direito ou não). Eles tem 651 servidores ativos, presumimos que morem na cidade, o que pode não ser totalmente correto. A cidade conta com 8.242 votos válidos, o que não quer dizer que temos 8.242 eleitores e votos válidos não são o mesmo que total de eleitores. 5.252 votos foram para o atual prefeito o que corrobora a afirmação de que eleitores vem de fora. Lembramos também que a população incluí crianças que não votam. Não é dificil de acreditar no número se tiver aprendido matemática básica. E mesmo que o número esteja errado (e não parece, pra dizer a verdade), ainda assim, estamos desconsiderando o gasto completamente desproporcional da máquina pública da cidade em relação ao número de habitantes e infraestrutura. Assustador. Imagino que possam haver outras “aberrações” de custos no lombo dos trabalhadores pelo Brasil afora…
93% difícil acreditar, até o pessoal da prefeitura recebe a bolsa então? Mas tem muitos municípios em todo Brasil que tem que ser sustentado pelo governo, no RS, na época que iam mudar a lei para dificultar a criação de novo municípios ( acho que por volta de 2000, não lembro direito faz tempo) , o que teve de município novo sendo criado, antes dessa lei entrar em vigor, não foi brincadeira e isso deve ter ocorrido em todo país, não só no RS,tudo para ter um monte de cacique de micro municípios, que não conseguem nem pagar sua folha de pagamento. Do mesmo modo que tinha uma Campanha pra separar o RS em dois, só pra ter mais caciques inchar ainda mais o orçamento de servidores públicos dos que recebem uma caminhão de dinheiro por ano, menos mal que não avançou isso.