Gigantes como Nike e Adidas lideram migração de produção, consolidando o país asiático e tirando de Pequim o título de fábrica de tênis do mundo.
A China não é mais a fábrica de tênis do mundo. Esse título agora pertence ao Vietnã, que silenciosamente ultrapassou Pequim como o principal fornecedor de calçados para gigantes globais como Nike, Adidas e Brooks Sports. Conforme apurado pelo InfoMoney, essa mudança não é apenas simbólica; ela representa uma profunda reconfiguração nas cadeias de suprimentos globais, impulsionada por custos, tensões comerciais e a busca por diversificação.
Para a indústria de calçados, que movimenta bilhões de dólares, essa transição de Ho Chi Minh City e seus arredores para o epicentro da produção é o resultado de décadas de planejamento. Fatores como a guerra comercial iniciada pelo ex-presidente Donald Trump e os lockdowns da COVID-19 na China apenas aceleraram um movimento que já estava em curso, forçando marcas a reavaliar sua extrema dependência de Pequim.
A difícil, mas necessária, saída da China
Abandonar a China nunca foi uma opção simples para as multinacionais. O país oferece uma infraestrutura fabril incomparável e um domínio sobre matérias-primas que, por anos, garantiram lucros elevados e consumidores satisfeitos. No entanto, a indústria de tênis está provando que essa migração é possível e, cada vez mais, necessária.
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Segundo o InfoMoney, as grandes marcas, como a Nike, ainda mantêm fábricas significativas em território chinês. Contudo, a produção dessas unidades é agora majoritariamente voltada para o consumo interno do próprio mercado chinês, que é vasto. A produção destinada à exportação global, por outro lado, migrou massivamente para o Vietnã.
Por que o Vietnã? Custos, tensões e demografia
A busca por custos mais baixos na Ásia não é novidade. Nos anos 1970, marcas emergentes como a Nike usavam fábricas na Coreia do Sul e em Taiwan. Com a abertura econômica da China nos anos 1980, essas mesmas fábricas (muitas delas taiwanesas, como a Pou Chen) migraram para o continente, atraídas por mão de obra barata e abundante, criando verdadeiras “pequenas cidades” industriais.
O Vietnã, porém, iniciou suas próprias reformas econômicas discretamente. No início dos anos 2000, o país já estava no radar. Tony Le, um executivo da Brooks que trabalhou anteriormente para Nike e Adidas, descreveu ao InfoMoney esse período como “a abertura do Vietnã“, comparando-a à abertura chinesa décadas antes.
Na década de 2010, os ventos mudaram na China: os salários começaram a subir e as questões sobre propriedade intelectual se intensificaram. O Vietnã, em contraste, oferecia um governo receptivo ao investimento estrangeiro e, crucialmente, uma população jovem e crescente em busca de trabalho.
O impacto das tarifas e da pandemia
A guinada definitiva foi acelerada por eventos geopolíticos. Quando o ex-presidente Trump iniciou a guerra comercial com a China em 2018, a indústria de calçados, que já estava se movendo, viu seus pares de outros setores seguirem o mesmo caminho para o Vietnã. As tarifas sobre produtos chineses tornaram a produção lá insustentável para exportação aos EUA, forçando uma reavaliação.
O golpe final, como destaca o InfoMoney, veio em 2020. Quando a China fechou suas fronteiras devido à pandemia de COVID-19, as fábricas pararam. Executivos perceberam o risco extremo de depender de um único país. Para a indústria de tênis, a decisão de transferir recursos para o Vietnã foi facilitada porque muitos parceiros de longo prazo já haviam começado a investir na cadeia de suprimentos local.
Uma cadeia de suprimentos localizada e o impacto humano
Diferente de outras indústrias, o Vietnã conseguiu desenvolver uma cadeia de suprimentos muito mais localizada. Hoje, fábricas nos arredores de Ho Chi Minh City produzem não apenas a montagem final, mas também os componentes: solados de espuma, palmilhas macias, cadarços de algodão e tecido de malha.
Esses componentes são transportados para armazéns de montagem e, em seguida, os tênis prontos são carregados em contêineres nos portos próximos. Dali, eles navegam pelo rio Dong Nai em direção ao mercado global, consolidando o Vietnã como a nova fábrica de tênis do mundo.
Essa transformação mudou a vida da população local. Pham Kieu Diem, 47 anos, relatou ao InfoMoney que começou a trabalhar em uma das primeiras fábricas de calçados em 1995, aos 17 anos, quando a área era apenas campos de arroz. “Eu não sabia fazer tênis, e nunca tinha usado tênis antes”, disse ela. O trabalho na fábrica permitiu que ela e suas irmãs comprassem um terreno e construíssem uma casa, mudando suas vidas “para melhor”.
A ascensão do Vietnã e a queda da China como o centro manufatureiro de calçados é um dos movimentos mais significativos da economia global recente.
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