Challenger 3 iniciou testes de tiro com tripulação após disparos remotos, em campo não divulgado no Reino Unido, segundo a DE&S. Desenvolvido pela RBSL, com canhão L55A1 de 120 mm, ele troca o L30A1 raiado, usa munição OTAN, carrega 31 projéteis e entra em serviço em 2027 depois de décadas
O Challenger 3 realizou com sucesso o primeiro disparo do seu canhão principal e abriu uma nova fase do principal programa de carro de combate do Exército Britânico, com testes conduzidos em um campo de tiro não divulgado no Reino Unido e com o veículo totalmente tripulado. O anúncio foi feito pela Divisão de Equipamentos e Suporte de Defesa (DE&S), braço de aquisições do Ministério da Defesa do Reino Unido, e foi tratado como um marco que não se via havia mais de 30 anos em ciclos comparáveis de desenvolvimento e testes de tiro.
A entrada em serviço é prevista para 2027, em um contexto de retomada do foco em guerra blindada na Europa, com o Reino Unido buscando atualizar letalidade, sobrevivência e integração digital do seu principal blindado. A modernização, porém, vem acompanhada de escolhas técnicas que trazem ganhos claros e também trade-offs objetivos, como redução da munição embarcada, aumento de peso e dependência de camadas adicionais de proteção e integração com outros sistemas da brigada.
Onde ocorreu e como foi a sequência de testes

Os disparos aconteceram no Reino Unido, em um campo de tiro cujo local não foi divulgado, com tripulação embarcada na torre, ponto relevante porque a campanha incluiu uma sequência de validação que começou com disparos remotos. Essa etapa anterior foi realizada pela indústria em coordenação com o Exército Britânico e a própria DE&S, antes de avançar para o tiro com equipe a bordo.
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A condução do programa é da Rheinmetall BAE Systems Land (RBSL), joint venture entre a alemã Rheinmetall e a britânica BAE Systems, responsável pelo desenvolvimento do novo carro de combate. A linha de tiro e a progressão do ensaio, com a passagem do remoto para o tripulado, foi apresentada como evidência do volume de trabalho investido para manter o sistema seguro, robusto e pronto para as próximas fases.
A fabricação ocorre em Telford, Inglaterra, com o Challenger 3 sendo produzido pela RBSL no âmbito de um contrato avaliado em mais de £800 milhões, descrito também como cerca de US$ 1 bilhão. No início de 2024, foi informado que o primeiro protótipo havia sido concluído em Telford, estabelecendo a base física para a campanha de testes que agora inclui tiro com tripulação.
O plano atual do Reino Unido é converter 148 unidades do Challenger 2 para o novo padrão, incluindo oito protótipos. Esse número limitado é central para o debate operacional, porque define escala de disponibilidade, rotação, manutenção e a capacidade de sustentar prontidão em ciclos longos, especialmente se a doutrina exigir presença constante em brigadas de combate.
Canhão novo: o que muda com o L55A1 de 120 mm

O elemento central do Challenger 3 é o canhão de alma lisa L55A1 de 120 mm, um produto da Rheinmetall Waffe Munitions. A arma é descrita como apta a disparar tanto projéteis antitanque de energia cinética quanto munição programável multifuncional, expandindo o espectro de emprego, do engajamento anticarro até efeitos ajustáveis conforme o alvo.
A troca é histórica porque substitui o canhão raiado L30A1, do mesmo calibre, presente no Challenger 2. A adoção do novo canhão é associada a uma velocidade inicial notavelmente maior, com o projétil saindo do tubo mais rapidamente, o que é apresentado como um fator que eleva penetração e, em alguns casos, alcance. Em termos práticos, a mudança reposiciona o blindado britânico para um padrão amplamente usado no ecossistema OTAN.
A alma lisa traz uma consequência logística imediata: o Challenger 3 passa a disparar munição de peça única, em vez do arranjo de duas peças usado no Challenger 2. Isso abre acesso a uma gama maior de munições padrão OTAN, incluindo as DM63 e DM73, descritas como projéteis perfurantes APFSDS estabilizados por aletas, com penetrador longo que utiliza energia cinética para perfurar blindagem inimiga.
Também é citada a possibilidade técnica de empregar o projétil norte-americano M829A4, outro APFSDS, com penetrador de urânio empobrecido, material mais denso do que muitos metais convencionais e associado a desempenho superior de perfuração. O Exército Britânico já utiliza munição de urânio empobrecido no Challenger 2, com o projétil L27A1 CHARM 3.
O trade-off mais visível está no volume embarcado: por exigências de espaço da munição de peça única, o Challenger 3 leva 31 projéteis, contra 49 no Challenger 2. Essa redução altera o balanço entre sustentação de fogo e necessidades de arquitetura interna, e tende a influenciar planejamento de reabastecimento, cadência de combate e logística no nível de brigada.
Armazenamento isolado e foco em sobrevivência da tripulação
A munição no Challenger 3 é armazenada em um compartimento isolado na parte traseira da torre, projetado para aumentar a capacidade de sobrevivência caso o tanque seja atingido. Esse detalhe não é cosmético: ele aponta para uma prioridade explícita em limitar efeitos internos de impacto e reduzir risco para a tripulação, mesmo com a restrição de volume que contribui para o total de 31 disparos disponíveis.
Essa arquitetura de armazenamento, combinada a outras camadas de proteção, reforça a lógica de que o veículo foi desenhado para operar em um ambiente em que ameaças antitanque e impactos de alta energia são considerados prováveis, exigindo mitigação de danos e preservação do elemento humano como fator de continuidade de combate.
Além do canhão, o Challenger 3 incorpora um novo pacote óptico e de mira, descrito como semelhante ao usado no veículo de combate de infantaria Ajax. O conjunto inclui o sistema Thales Orion e a mira panorâmica diurna e noturna para o artilheiro DNGS T3, componentes integrados em uma torre digitalizada.
O fabricante descreve essa torre como baseada em um conceito de arquitetura aberta, facilitando atualizações de hardware e software ao longo do tempo. Na prática, isso sugere maior flexibilidade para incorporar novas capacidades digitais, sensores e integrações, reduzindo a rigidez típica de soluções legadas e permitindo ciclos de modernização mais frequentes.
Blindagem modular nMA e a lógica de equipar quando necessário
Em termos de proteção, o Challenger 3 recebe uma nova blindagem modular, identificada como nMA. O uso de um sistema modular permite que partes específicas da blindagem sejam removidas e substituídas rapidamente, o que tende a reduzir tempo de manutenção e facilitar reconfigurações conforme o cenário.
Outro ponto operacional direto é o modelo de aquisição: o Reino Unido não precisa comprar conjuntos completos de blindagem para todos os veículos, podendo equipar unidades com nMA somente quando necessário. O pacote inclui blindagem adicional para as laterais do casco e para a parte inferior, áreas críticas diante de ameaças laterais e efeitos de explosões que atuam por baixo do veículo.
Uma camada adicional pode ser fornecida por um sistema de proteção ativa, e a escolha britânica foi o Trophy APS, de fabricação israelense. O sistema utiliza radar para detectar projéteis inimigos e aciona projéteis interceptores para neutralização antes do impacto, com foco em ameaças como mísseis guiados antitanque e granadas propelidas por foguete.
Também é apontada a possibilidade de emprego futuro contra drones de baixa potência, indicando que o projeto reconhece um ambiente de combate em rápida evolução, no qual ameaças baratas e numerosas podem pressionar veículos pesados. A ideia de operar sem essa camada de proteção ativa, nesse contexto, é tratada como pouco plausível para cenários de combate intensivo.
HAAIP: melhorias automotivas com motor sem aumento de potência
A mobilidade do Challenger 3 é abordada pelo Projeto de Melhoria Automotiva de Blindagem Pesada (HAAIP). O pacote inclui a adaptação de um motor aprimorado, porém sem aumento na potência, além de uma nova suspensão, um tensionador hidráulico de esteira, um sistema de partida a frio elétrico e um sistema de refrigeração melhorado.
O detalhe do motor sem ganho de potência ganha peso porque o programa reconhece aumento de massa do veículo em relação ao antecessor. Isso tende a afetar aceleração, mobilidade em certos terrenos e consumo, ao mesmo tempo em que coloca mais pressão na engenharia de suspensão, transmissão e gestão térmica para manter desempenho aceitável.
O histórico de peso é um tema sensível na frota britânica. Com módulos de blindagem adicionais, o Challenger 2 é citado com 82,7 toneladas, enquanto o M1A2 SEPv3 do Exército dos EUA é citado com 73,6 toneladas. Dentro desse quadro, o Challenger 3 é descrito como mais pesado que o Challenger 2, mas sem contar com um motor mais potente.
Essa combinação coloca em evidência um dilema clássico de blindados modernos: elevar proteção e integração pode significar maior massa, o que impacta transporte estratégico, travessias, desgaste de componentes e a própria logística de apoio. O programa tenta compensar parte disso com melhorias automotivas e refrigeração, mas os limites físicos seguem presentes.
Próximas etapas: mais tiros com tripulação e testes de confiabilidade
Após o disparo bem sucedido, a agenda prevê mais atividades de tiro com tripulação e testes de confiabilidade planejados para o final deste ano. Essa sequência é crucial para validar segurança, repetibilidade, desgaste de componentes e a integração entre canhão, torre digital, sensores e procedimentos de operação.
A DE&S descreve o Challenger 3 como a peça central do programa de modernização de blindados do Exército Britânico e afirma que ele proporcionará uma mudança radical em letalidade, capacidade de sobrevivência e integração digital. O valor dessas declarações, porém, dependerá do desempenho nas etapas seguintes e do quanto a frota, apesar de pequena, conseguirá manter prontidão consistente.
O programa mais amplo de modernização não transcorre sem atrito. Foi relatada a suspensão do uso do Ajax depois que dezenas de soldados adoeceram, com confirmação de que cerca de 30 militares apresentaram sintomas associados a ruído e vibração após um exercício envolvendo os veículos.
O tema se conecta ao Challenger 3 porque há preocupações sobre como o Ajax será operado quando agrupado com brigadas que também empreguem o novo tanque. A estrutura do Exército Britânico, organizada em brigadas de combate, passa por mudanças que projetam uma força de cerca de 72.500 militares até 2025, frente a 76.000 em 2021, e as brigadas desdobráveis incluem ainda veículos Boxer e helicópteros de ataque AH-64E Apache, formando um ecossistema no qual interoperabilidade e disponibilidade real contam mais do que promessas.
Frota pequena, conversão limitada e permanência até 2040
O Reino Unido planeja converter 148 Challenger 2 para o padrão Challenger 3, e isso levanta questões sobre escala. Ao mesmo tempo, a própria RBSL já afirmou que é tecnicamente possível construir novos Challenger 3, se necessário, ainda que o planejamento atual esteja centrado na conversão.
Mesmo com um número relativamente pequeno, a existência do Challenger 3 é colocada como garantia de que o Reino Unido permanece com capacidade de tanques pelo menos até 2040, conforme os planos atuais. Esse ponto ganha relevância no debate pós-Ucrânia, em que perdas de blindados e novas ameaças, como drones FPV de baixo custo, geraram questionamentos sobre o futuro do carro de combate, mas também impulsionaram países da OTAN a reforçar frotas e, em alguns casos, a retomar tanques após terem abandonado esse tipo de meio.
O primeiro disparo do Challenger 3 em um campo de tiro não divulgado no Reino Unido é mais do que um evento simbólico: ele materializa a transição britânica para um padrão OTAN de canhão de alma lisa, consolida uma torre digital de arquitetura aberta, introduz blindagem modular nMA e aponta para uma doutrina que precisa equilibrar proteção ativa, integração e logística em uma Europa novamente centrada em combate blindado.
Se você acompanha defesa e modernização militar, o próximo passo realista é observar os testes de confiabilidade e os novos tiros com tripulação previstos para o final do ano, porque é nesse ciclo que aparecem limites práticos de peso, munição embarcada, prontidão e integração com sistemas como Ajax, Boxer e Apache.
Na sua avaliação, a redução para 31 projéteis no Challenger 3 é um preço aceitável pela padronização OTAN e pelo armazenamento isolado, ou isso pode virar um gargalo operacional em combate prolongado?


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