Dharavi, a maior favela da Índia e da Ásia, com quase 1 milhão de habitantes espremidos em 240 hectares no coração de Mumbai, está sendo preparada para o maior plano de revitalização de favela do mundo. Segundo o FRANÇA 24 Inglês, o projeto de 11 bilhões de dólares, conduzido pelo grupo Adani em parceria com o governo de Maharashtra, promete substituir barracos que alagam todo ano por apartamentos de até 32 metros quadrados, mas menos da metade dos moradores poderá permanecer no bairro.
A maior favela da Ásia está prestes a desaparecer, pelo menos na forma como existe há décadas. Dharavi, comunidade que ocupa 240 hectares no coração de Mumbai, a capital financeira da Índia, começou a receber em abril de 2026 notificações para que seus moradores desocupem as casas antes da temporada de monções. O projeto de revitalização prevê a demolição de praticamente toda a favela e a construção de arranha-céus, hospitais, escolas, parques e sistemas de saneamento em uma transformação que o grupo Adani estima concluir até janeiro de 2032. O custo total é de aproximadamente 95.790 crores de rúpias cerca de 11 bilhões de dólares.
O plano é uma parceria entre o grupo Adani, que detém 80% da operação, e o governo do estado de Maharashtra, com 20%. A empresa criou a Navbharat Mega Developers como veículo para conduzir o projeto. A promessa é transformar a favela que inspirou o filme “Quem Quer Ser um Milionário?” em um bairro moderno, com moradias dignas para os atuais residentes. Mas a realidade é mais complexa: menos da metade dos quase 1 milhão de habitantes poderá permanecer em Dharavi, e parte dos que forem realocados pode acabar perto de Deonar, o maior aterro sanitário de Mumbai, onde 600 toneladas de lixo são despejadas diariamente.
Como funciona o levantamento casa a casa na favela
Equipes do projeto começaram a percorrer diariamente milhares de residências de Dharavi com scanners portáteis e câmeras para registrar a planta, o tamanho e as condições de cada moradia. Cada casa recebe um número de identificação, e os moradores são avaliados segundo critérios de elegibilidade que determinam quem receberá um novo apartamento e em quais condições.
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Os residentes que viviam na favela antes do ano 2000 receberão gratuitamente apartamentos dentro de Dharavi, com área entre 32 e 70 metros quadrados. Aqueles que se instalaram entre 2000 e 2011 terão direito a moradias fora do bairro a preço subsidiado. Já os que chegaram depois de 2011 receberão apenas a opção de aluguel subsidiado fora de Dharavi. O levantamento anterior tinha 15 anos de defasagem, o que significa que muitos moradores podem não ter documentação adequada para comprovar sua permanência.
A economia informal de 1 bilhão de dólares que pode desaparecer

Dharavi não é apenas uma favela residencial é um polo econômico que movimenta mais de 1 bilhão de dólares por ano em indústrias de pequena escala. Oficinas de couro, cerâmica, confecção de roupas e reciclagem de plástico empregam milhares de trabalhadores e sustentam famílias há gerações. A preocupação central dos comerciantes é que a realocação destrua redes de clientes e fornecedores construídas ao longo de décadas.
Ramchur Sabdas, ceramista que ganha cerca de 300 dólares por mês com seu negócio, representa o dilema de milhares: sua família trabalha na favela há quatro gerações, e ele não tem garantia de que terá mercado no novo local. Javeed Ahmed, líder comunitário, resumiu a contradição: a revitalização promete construir um bairro moderno, mas para quem exatamente está sendo construído? Se o objetivo é beneficiar o povo da favela, por que uma parte significativa dele precisa ser removida para dar lugar ao projeto?
As condições que tornam a revitalização urgente
É difícil argumentar contra a necessidade de mudança quando se conhece as condições de Dharavi. Os barracos são tão estreitos que uma pessoa pode tocar as duas paredes com os braços estendidos. As casas dos andares térreos alagam todos os anos durante a monção, e a luz do sol não alcança muitas das vielas onde crianças crescem sem parquinho, sem banheiro próprio e sem água potável.
Moradores relatam que precisam ir a bairros vizinhos para usar banheiros públicos, pagando por cada uso. A poluição do ar e a falta de saneamento básico provocam doenças respiratórias crônicas. Uma moradora que vive na favela há 40 anos disse que quer um futuro melhor para seus filhos e que as condições atuais não permitem que eles cresçam com saúde. A revitalização representa, para essas famílias, a possibilidade de saneamento, segurança e dignidade.
A realocação para perto do lixão de Deonar
O ponto mais controverso do projeto é o destino dos moradores que não poderão permanecer em Dharavi. Um dos cinco locais de realocação em Mumbai é a área próxima ao aterro sanitário de Deonar, onde 600 toneladas de lixo são despejadas diariamente. Gases como sulfeto de hidrogênio, metano e dióxido de carbono são liberados continuamente pelo aterro, representando risco comprovado à saúde humana.
As autoridades prometem descontaminar a área antes da chegada dos moradores, mas especialistas avaliam que o processo de degradação completa dos resíduos pode levar mais de 10 anos enquanto o cronograma do projeto prevê realocações nos próximos sete. Javeed alertou que, se a mudança for inevitável, ao menos deveria acontecer em locais onde a saúde dos moradores não fosse colocada em risco. A transferência de pessoas de uma favela sem saneamento para a vizinhança de um lixão levanta a pergunta sobre qual tipo de melhoria está realmente sendo oferecido.
Os 48 hectares que o grupo Adani poderá vender
Após a realocação dos moradores e a demolição da favela, o grupo Adani terá acesso a 48 hectares de terreno em uma das localizações mais valorizadas de Mumbai. Essa área poderá ser desenvolvida em empreendimentos residenciais e comerciais para venda a preço de mercado em Mumbai, o que representa o retorno financeiro do investimento de 11 bilhões de dólares. A terra permanece como propriedade do governo de Maharashtra, mas o direito de exploração comercial é do consórcio liderado por Adani.
Críticos apontam que o modelo beneficia desproporcionalmente o conglomerado de Gautam Adani, considerado um aliado próximo do primeiro-ministro Narendra Modi. O projeto enfrentou contestações judiciais — uma empresa dos Emirados Árabes tentou impugnar a licitação, mas o Tribunal Superior de Bombaim manteve a adjudicação ao grupo Adani. O Supremo Tribunal da Índia pediu explicações a Adani sobre alegações de vantagem desleal na obtenção do contrato. O projeto se recusou a conceder entrevistas à imprensa internacional sobre as preocupações dos moradores.
Você acha que transformar a maior favela da Ásia em um bairro moderno justifica remover mais da metade dos moradores? O que mais chama sua atenção: os apartamentos de 32 metros quadrados, a realocação para perto do lixão ou os 48 hectares que Adani poderá vender? Conta nos comentários.

