No coração de Ottawa, o Parlamento do Canadá abre um buraco gigante sob o Centre Block em Parliament Hill para reforçar a Peace Tower, instalar um Centro de Boas-Vindas subterrâneo e modernizar todo o complexo.
Canadá abre um buraco gigante no coração de Ottawa não por acidente, mas como parte de uma operação milimetricamente planejada para salvar seu prédio político mais importante, reforçar a proteção contra terremotos e criar um centro subterrâneo moderno para receber visitantes e autoridades. À primeira vista, o cenário parece de desastre, com explosões, caminhões e um enorme vazio diante da torre do relógio. Na prática, é o oposto: é um projeto pensado para manter em pé o símbolo máximo da democracia canadense pelas próximas décadas.
Enquanto metade do gramado diante do Parlamento vira um imenso canteiro de obras, engenheiros, restauradores e especialistas em patrimônio trabalham juntos para transformar um prédio centenário em uma estrutura preparada para o século 21. Sob o solo, nascem novos andares técnicos, um Centro de Boas-Vindas e um sofisticado sistema de proteção sísmica.
Na superfície, pedras históricas, vitrais e esculturas são desmontados, limpos e recolocados, numa coreografia que mistura detonações de rocha, lasers de limpeza e trabalhos de arte delicada.
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Por que o Canadá abre um buraco gigante diante do Parlamento

A cena começou em julho de 2020, quando equipes iniciaram as primeiras detonações bem em frente ao Parlamento, em Ottawa.
O gramado verde que por décadas recebeu turistas, cerimônias e protestos foi parcialmente substituído por um enorme fosso de cerca de 23 metros de profundidade, escavado ao longo de três anos com ajuda de explosivos e dezenas de milhares de viagens de caminhões para retirada do material.
Nada disso é aleatório. O objetivo é criar espaço para um Centro de Boas-Vindas subterrâneo, que vai se estender por toda a frente do prédio e, depois, avançar sob o próprio Parlamento, que até hoje não tinha subsolos estruturais.
Ao mesmo tempo, a obra abre caminho para reforçar as fundações e instalar um sistema de isolamento sísmico que permita ao edifício resistir a terremotos que não eram sequer considerados quando ele foi construído na década de 1920.
Em resumo, quando o Canadá abre um buraco gigante diante do seu Parlamento, não está destruindo um ícone nacional. Está abrindo espaço para que ele continue existindo com segurança, tecnologia e novas funções por pelo menos mais um século.
Do fogo à reconstrução: como o Parlamento virou símbolo nacional
Para entender por que tanta energia está sendo investida neste prédio, é preciso voltar ao século 19. Ottawa foi escolhida como capital justamente por estar entre regiões anglófonas e francófonas, próxima à fronteira entre Ontário e Quebec e cercada por florestas, o que oferecia uma proteção estratégica em tempos de possíveis conflitos.
Foi ali, em um terreno elevado com vista para o Rio Ottawa, que se ergueram três blocos principais do conjunto parlamentar, com o Centre Block no meio, abrigando a Câmara dos Comuns, o Senado, bibliotecas, escritórios e espaços cerimoniais.
A construção original começou em 1859, mas em 1916 um incêndio devastador destruiu praticamente tudo, deixando de pé apenas a Biblioteca do Parlamento.
A resposta foi rápida. Em 1927, o novo Centre Block foi inaugurado, em estilo neogótico, cheio de gárgulas, frisos entalhados e uma torre central monumental, a Peace Tower, criada como memorial aos mortos da Primeira Guerra Mundial.
Desde então, o edifício acompanhou a evolução do país, testemunhando debates, crises e decisões que definiram a história canadense no último século.
Um ícone em risco: problemas estruturais, água e falta de proteção sísmica

Por fora, o Centre Block continua imponente. Por dentro e por baixo, os diagnósticos mostraram outro quadro. Inspeções recentes identificaram concreto erodido, infiltrações de água em vários pontos, aço estrutural oxidando e se degradando.
Em um prédio construído com mais de vinte tipos de pedra, qualquer fissura, deslocamento ou ferrugem pode se multiplicar ao longo do tempo.
Além disso, o edifício não foi concebido para enfrentar um risco hoje levado muito mais a sério: terremotos. O Canadá registra abalos sísmicos de menor magnitude com certa frequência, e já houve eventos acima de magnitude 7 no passado.
Um tremor significativo próximo a Ottawa poderia ser devastador para uma estrutura rígida, pesada e sem sistemas de dissipação de energia como o Centre Block.
O pacote de problemas inclui ainda segurança física e fluxo de pessoas. Milhões de visitantes passam por ali todos os anos, mas os acessos são limitados, o espaço para recepção é restrito e a segurança precisa ser reforçada no mundo atual, em que sítios governamentais se tornaram alvos mais sensíveis.
Foi diante dessa soma de riscos que o país decidiu encarar um dos maiores projetos de restauração e modernização de sua história, aceitando a inevitável imagem: Canadá abre um buraco gigante como primeira etapa para salvar o que está em cima.
Como o Canadá abre um buraco gigante e sustenta o Parlamento ao mesmo tempo
Escavar um poço profundo em frente ao Parlamento já seria um desafio. Escavar sob o prédio, criando novos pavimentos, sem deixá-lo ceder ou rachar, é outra história. Por isso, o planejamento inclui uma sequência complexa de sustentação, reforço e reconstrução das fundações.
Primeiro, a estrutura é transferida para apoios temporários, como se o prédio fosse colocado cuidadosamente em “muletas” enquanto o solo abaixo é aberto.
Cerca de 800 estacas são cravadas no terreno e conectadas por elementos metálicos, formando colunas e um novo grid estrutural. Entre essas colunas, equipes continuam a escavação em profundidade, preparando o espaço em que os novos subsolos vão surgir de baixo para cima.
Só então entram em cena os isoladores sísmicos, grandes dispositivos que funcionarão como amortecedores entre o edifício e a nova fundação.
A lógica é clara: em um terremoto, o solo pode se mover, mas os isoladores absorvem parte dessa energia, deixando a estrutura superior se balançar menos e com muito menos esforço interno.
É uma tecnologia já usada em telescópios, instalações industriais sensíveis e até usinas, mas aqui aplicada de uma forma pioneira em um prédio histórico desse porte.
Restauro milimétrico: pedra por pedra, vitral por vitral
Enquanto o Canadá abre um buraco gigante do lado de fora, o trabalho dentro e na pele do edifício é igualmente intenso.
Cerca de 365 mil pedras da fachada estão sendo tratadas, limpadas e, quando necessário, reparadas ou recolocadas. No lugar de escovas e produtos abrasivos, entram lasers de alta energia, capazes de vaporizar depósitos de sujeira sem danificar o material original.
Por dentro, o Centre Block foi praticamente reduzido à sua estrutura. Salas históricas, galerias e corredores foram esvaziados para que mais de 20 mil elementos de patrimônio fossem restaurados: esculturas, ornamentos, painéis e, especialmente, cerca de 250 janelas de vitral que recebem um cuidadoso tratamento.
Equipes especializadas cruzam o prédio de leste a oeste, examinando cada peça, corrigindo danos de décadas de exposição a um clima rigoroso.
Até a Peace Tower, com suas quatro torres menores no topo, exigiu cirurgia de precisão. Técnicos precisaram instalar grandes cintas ligando as estruturas ao mastro da bandeira, estabilizando tudo enquanto aguardam reparos definitivos.
Em paralelo, sensores foram distribuídos por todo o prédio para registrar vibrações durante as explosões, perfurações e concretagens, garantindo que a reabilitação não se transforme no problema que deveria resolver.
O novo Centro de Boas-Vindas sob o gramado e a torre
Todo o esforço subterrâneo tem um objetivo claro: mudar a forma como as pessoas chegam e circulam pelo Parlamento.
O novo Centro de Boas-Vindas ficará sob o espaço que hoje é uma enorme cratera e, mais tarde, se conectará diretamente ao Centre Block e aos blocos Leste e Oeste, funcionando como uma espécie de “porta de entrada” única e segura.
Os visitantes vão acessar o complexo por um caminho elevado renovado, passar por uma área de controle e, então, entrar em um grande hall com iluminação natural, graças a claraboias instaladas no teto.
A base da Peace Tower fará parte do desenho do espaço, visível a partir do Centro de Boas-Vindas, criando uma ligação simbólica entre o subsolo moderno e a torre histórica que domina o horizonte de Ottawa.
Para quem trabalha no Parlamento, o novo centro simplifica deslocamentos, reforça a segurança e integra áreas que antes eram mais isoladas. Para o público, oferece uma experiência mais clara, acessível e confortável de visita, com melhor fluxo e mais áreas dedicadas a exposições, filas organizadas e espera protegida.
Um parlamento pronto para mais um século de decisões
Quando as obras forem concluídas, o Canadá terá de volta um Parlamento que parece o mesmo por fora, mas foi radicalmente atualizado por dentro e por baixo.
O prédio ganha um “esqueleto” reforçado, proteção contra terremotos, novas infraestruturas técnicas e um subsolo inteiro dedicado a receber pessoas, sem abrir mão da estética original e do valor simbólico acumulado ao longo de um século.
É raro ver um país disposto a literalmente cavar sob o próprio centro de poder para preservá-lo. Ao escolher esse caminho, o Canadá abre um buraco gigante hoje para evitar um buraco ainda maior amanhã: o de perder seu principal símbolo político por falta de manutenção, segurança e visão de longo prazo.
Pensando nisso, você acha que outros países deveriam investir em reformas profundas, mesmo que caras e demoradas, para proteger seus prédios históricos de governo, ou projetos desse tipo deveriam ser mais limitados e discretos?

