1. Início
  2. / Energia Renovável
  3. / Quando o sol se pôs na Califórnia, baterias gigantes forneceram 42,8% de toda a eletricidade do estado — há cinco anos diziam que era impossível armazenar energia solar para usar à noite, e agora 12,3 gigawatts provam o contrário
Tempo de leitura 5 min de leitura Comentários 0 comentários

Quando o sol se pôs na Califórnia, baterias gigantes forneceram 42,8% de toda a eletricidade do estado — há cinco anos diziam que era impossível armazenar energia solar para usar à noite, e agora 12,3 gigawatts provam o contrário

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 22/04/2026 às 12:00
Atualizado em 22/04/2026 às 22:59
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
14 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Em um único instante, baterias gigantes forneceram 42,8% de toda a eletricidade da Califórnia — há cinco anos, diziam que isso era impossível, e agora o estado prova que o sol pode abastecer casas mesmo depois de escurecer

No dia 29 de março de 2026, às 19 horas — quando o sol já tinha se posto e 40 milhões de californianos ligavam luzes, televisores e ar-condicionado ao mesmo tempo —, baterias forneceram 12,3 gigawatts de energia.

Segundo dados do CAISO, o operador da rede elétrica para 80% da Califórnia, esse volume representou 42,8% de toda a demanda de eletricidade do estado naquele momento.

Para contextualizar: há menos de uma década, os Estados Unidos inteiros tinham apenas 500 megawatts de armazenamento conectados à rede. Hoje, só a Califórnia tem quase 60.000 megawatts-hora (60 GWh).

É a prova de que a energia solar pode abastecer uma economia de US$ 4 trilhões mesmo quando o sol não está brilhando.

O problema que ninguém sabia resolver — até agora

Durante anos, a Califórnia sofria com o que engenheiros chamam de “duck curve” — a curva do pato. O gráfico tem esse nome porque lembra a silhueta de um pato.

Durante o dia, painéis solares produzem energia em excesso. Os preços despencam. Parte dessa energia é desperdiçada porque não há onde armazená-la.

Mas quando o sol se põe, a demanda explode. Milhões de pessoas voltam para casa, ligam tudo, e a rede precisa suprir a diferença entre zero solar e demanda máxima em questão de minutos.

Antes das baterias, usinas a gás natural cobriam essa transição. Agora, baterias carregadas durante o dia devolvem a energia solar à noite, eliminando a necessidade de queimar combustível fóssil no pico.

Em 29 de março, as baterias foram a maior fonte de energia da Califórnia às 19 horas. Maior que gás. Maior que eólica. Maior que hidrelétrica.

Sala de controle do CAISO com operadores monitorando dados de baterias em telas
No CAISO, operadores da rede elétrica monitoram em tempo real a descarga de 12,3 GW de baterias — recorde que atendeu 42,8% da demanda californiana.

Um mês antes do recorde, baterias funcionaram 24 horas seguidas

O marco de março não veio do nada. Em 1º de fevereiro de 2026, as baterias da Califórnia atingiram outro recorde: operaram continuamente por quase 24 horas.

Das 4h05 de 31 de janeiro às 0h30 de 2 de fevereiro, a rede funcionou com energia solar armazenada — um total de 44 horas e 25 minutos de operação ininterrupta com solar direta ou indireta (via baterias).

Às 6h25 da manhã, antes do nascer do sol, baterias já eram a maior fonte de energia do estado. O sol ainda não tinha aparecido, mas a energia solar de ontem estava alimentando a Califórnia.

É como se o estado tivesse encontrado uma forma de engarrafar o sol da tarde e servir no café da manhã.

De 500 MW para 60 GWh: a explosão do armazenamento em uma década

Os números são vertiginosos.

  • Antes de 2016: menos de 500 MW de baterias nos EUA inteiros
  • 2025: 57,6 GWh instalados só naquele ano, crescimento de 29%
  • 2026: 70 GWh projetados; Califórnia sozinha com 60 GWh acumulados
  • 2030: 500 GWh nos EUA, 110 GWh anuais

Hoje, 163 GWh de baterias estão conectados à rede americana — energia suficiente para abastecer 5,1 milhões de residências por ano.

Califórnia, Texas e Arizona concentram 74% de todo o mercado de baterias de grande escala dos Estados Unidos. A Califórnia lidera com folga.

O investimento projetado para o setor em 2026 é de US$ 25,2 bilhões — e 24 fábricas de baterias já estão em operação ou construção no país.

Bairro residencial na Califórnia ao pôr do sol com painéis solares nos telhados
Quando o sol se põe na Califórnia, baterias gigantes devolvem a energia solar armazenada durante o dia — eliminando a dependência de gás natural no pico noturno.

Metade das novas baterias não precisa de sol nem de vento

Uma mudança sutil está transformando o mercado. Quase 50% das novas instalações de baterias nos EUA são standalone — independentes de painéis solares ou turbinas eólicas.

Essas baterias compram energia quando está barata (madrugada, dias ventosos, horários de excesso solar) e vendem quando está cara (pico noturno, dias nublados, emergências).

Funcionam como arbitradores de preço no mercado de energia. E são extremamente lucrativas.

No caso da Califórnia, baterias standalone exportam energia solar da tarde a preços altos durante a noite, quando concessionárias pagariam caro por gás natural. O resultado: lucro para o operador e energia limpa para o consumidor.

O que isso significa para sua conta de luz — e para o planeta

Baterias estabilizam preços. Sem elas, o pico noturno exigiria ligar usinas a gás com custos operacionais altos, repassados ao consumidor.

Com baterias absorvendo o excedente solar e devolvendo à noite, a diferença de preço entre dia e noite diminui. Menos gás queimado significa menos emissões.

Para a Califórnia, que se comprometeu com 100% de eletricidade limpa até 2045, as baterias são a peça que faltava. Solar e eólica geram. Baterias armazenam. A rede funciona 24 horas sem fósseis.

Técnicos inspecionando instalação de baterias de grande escala
Com US$ 25,2 bilhões em investimentos projetados para 2026, o setor de armazenamento de energia nos EUA cresce em ritmo exponencial.

Nem tudo é perfeito: os riscos que ninguém fala

Baterias de lítio são inflamáveis. Incêndios em instalações de armazenamento, embora raros, já ocorreram na Califórnia e no Arizona.

A cadeia de suprimentos depende de cobalto e lítio — minerais concentrados na República Democrática do Congo e no Chile. A dependência externa é real.

Além disso, o desempenho de 42,8% foi um pico instantâneo, não uma média diária. A maioria dos dias, baterias contribuem com 10-20% da demanda noturna.

Mas o 29 de março de 2026 prova que o teto é muito mais alto do que se imaginava. Se a Califórnia pode chegar a 42,8% em um dia, por que não 60% em 2030?

E enquanto a Califórnia armazena 60 GWh de energia solar em baterias, o Brasil — que recebe mais sol que qualquer estado americano — ainda desperdiça energia renovável porque as linhas de transmissão não aguentam. Será que alguém está prestando atenção?

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x