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Cacau sem desmatamento vira exigência na Europa e coloca a Costa do Marfim diante de uma corrida contra o tempo

Escrito por Viviane Alves
Publicado em 04/06/2026 às 14:15
Atualizado em 04/06/2026 às 14:17
Trabalhador rural organiza grãos de cacau em área de secagem em plantação tropical, destacando a produção de cacau e os desafios de rastreabilidade na Costa do Marfim.
Produtor trabalha na secagem de grãos de cacau em fazenda africana enquanto novas exigências da União Europeia ampliam a pressão por rastreabilidade e comprovação de origem da commodity.
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Nova regra da União Europeia pressiona exportações do maior produtor mundial de cacau, enquanto menos da metade dos grãos tem origem comprovada

A cadeia global do cacau entrou em uma fase decisiva antes da nova lei antidesmatamento da União Europeia.

A Costa do Marfim, maior produtora mundial da commodity, comprovou a origem de apenas 48% das exportações de cacau em 2024, segundo análise da organização britânica Trase, divulgada na terça-feira, 12.

O levantamento, repercutido pela Agência Reuters, mostra que menos da metade dos grãos exportados pode ser rastreada até as cooperativas agrícolas responsáveis pelo cultivo.

O alerta cresce porque a legislação europeia entra em vigor em dezembro e exigirá comprovação de que produtos importados não foram produzidos em áreas desmatadas.

A pressão aumenta porque a União Europeia compra cerca de 66% dos grãos marfinenses. A Costa do Marfim responde por pouco mais de um terço da produção global de cacau.

Rastreabilidade limitada ameaça exportações de cacau

A principal dificuldade está nas cadeias indiretas de fornecimento, que ainda concentram grande parte da comercialização do cacau marfinense.

Nesses casos, os grãos passam por vários intermediários antes de chegar aos compradores internacionais.

Esse caminho dificulta a verificação da origem da produção e reduz a visibilidade sobre possíveis impactos ambientais.

De acordo com a Trase, a predominância desse fornecimento indireto compromete o monitoramento da cadeia produtiva.

A baixa rastreabilidade também dificulta o combate a problemas como desmatamento e trabalho infantil, conforme avaliação da organização citada pela Reuters.

Nova lei europeia amplia exigências ambientais

O Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento, conhecido como EUDR, passa a exigir novas comprovações das empresas importadoras a partir de dezembro.

A regra alcança commodities como cacau, soja, café e carne bovina.

Empresas deverão demonstrar que esses produtos não têm ligação com áreas desmatadas.

A legislação é tratada como uma das medidas mais ambiciosas do mundo para reduzir emissões associadas ao desmatamento.

Países exportadores, porém, afirmam que as exigências são complexas e têm alto custo operacional.

Brasil, Indonésia e Estados Unidos estão entre os países que já demonstraram resistência às novas regras.

A própria União Europeia já adiou duas vezes a implementação completa da legislação diante da pressão diplomática e econômica.

Sacas de cacau da Costa do Marfim empilhadas em área portuária de exportação, com caminhão de carga e contêineres ao fundo, representando o comércio internacional da commodity e as exigências de rastreabilidade ambiental.
Sacas de cacau prontas para exportação em terminal logístico ilustram os desafios de rastreabilidade e conformidade ambiental enfrentados pela Costa do Marfim diante das novas exigências da União Europeia.

Perda de florestas expõe tamanho do desafio

A Costa do Marfim perdeu ou teve degradadas cerca de 79% de suas florestas entre 2000 e 2024, segundo análises citadas pela Trase.

Durante boa parte desse período, a expansão das plantações de cacau respondeu por quase metade da perda florestal.

A Trase afirma que a queda recente nas taxas gerais de desmatamento também reflete um fator preocupante.

A redução ocorreu, em parte, porque restou uma quantidade limitada de floresta no país.

O avanço do cultivo sobre áreas naturais virou símbolo de um desafio global para o setor.

A cadeia precisa equilibrar produção agrícola, conservação ambiental e renda para pequenos produtores.

Governo busca sistema digital para comprovar origem

O governo marfinense aposta em um sistema digitalizado de comercialização do cacau diante da pressão internacional.

A proposta busca ampliar a rastreabilidade dos grãos e validar a origem da produção antes das novas exigências europeias.

Países produtores afirmam que boa parte dos custos da adaptação recai sobre agricultores de baixa renda.

Mercados consumidores, por sua vez, cobram padrões ambientais cada vez mais rigorosos.

Esse impasse coloca pequenos produtores no centro da discussão sobre comércio internacional, clima e segurança econômica.

Cacau vira símbolo da disputa entre comércio e clima

O desmatamento é atualmente a segunda maior causa das mudanças climáticas no planeta, atrás apenas da queima de combustíveis fósseis.

O caso da Costa do Marfim ganhou peso internacional por unir exportações, meio ambiente e rastreabilidade.

A nova regra europeia tenta reduzir o impacto ambiental do consumo global.

A baixa rastreabilidade do cacau, porém, mostra que a transição será complexa para países produtores.

Exportadores tentam preservar o acesso ao mercado europeu. Produtores buscam manter renda. Compradores precisam provar conformidade ambiental.

O desafio ultrapassa o mercado do cacau e mostra como o comércio global será cada vez mais pressionado por exigências climáticas.

A Costa do Marfim conseguirá provar a origem do cacau a tempo de proteger suas exportações sem ampliar a pressão sobre pequenos agricultores?

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Viviane Alves

Redatora com foco na produção de conteúdos estratégicos voltados para macro e microeconomia, geopolítica, mercado energético, setor automotivo e comércio global.

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