Projeto GREGY prevê um cabo submarino HVDC entre Egito e Grécia continental, com capacidade de até 3.000 MW, operação bidirecional e papel estratégico na exportação de energia renovável africana para a Europa pelo Mediterrâneo Oriental.
Cabo submarino de alta tensão entre Egito e Grécia entrou no radar europeu após a etapa de viabilidade prevista para 2023 e apareceu em documento técnico da União Europeia de 15 de maio de 2024 como uma interconexão HVDC de cerca de 954 km pelo Mediterrâneo Oriental. O projeto GREGY prevê capacidade máxima de 3.000 MW para transportar energia renovável à Europa e aparece como uma nova rota elétrica entre a África e a União Europeia.
A virada curiosa está no tamanho da ambição: segundo a Comissão Europeia, por meio da Direção-Geral de Parcerias Internacionais, não se trata apenas de ligar dois países por um fio no fundo do mar, mas de formar uma espécie de via expressa de energia verde entre o norte da África e a União Europeia. A eletricidade gerada por fontes renováveis no Egito poderia chegar à Grécia e, dali, seguir para outros mercados europeus.
GREGY quer transformar o Mediterrâneo em corredor de energia renovável
O projeto GREGY foi desenhado para conectar o sistema elétrico egípcio ao continente europeu por meio da Grécia.
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Segundo a Comissão Europeia, a interconexão faz parte da lógica do Global Gateway, iniciativa que apoia projetos de infraestrutura em áreas como clima e energia. A proposta é criar uma nova rota de energia renovável na bacia do Mediterrâneo, usando o Egito como polo de geração e a Grécia como porta de entrada para a Europa.
Esse desenho muda a função do Mediterrâneo. Além de rota marítima histórica para comércio, transporte e geopolítica, o mar passaria a abrigar uma infraestrutura elétrica estratégica para mover energia limpa entre continentes.
Na prática, o cabo seria uma ponte energética entre África, Grécia e União Europeia.
Cabo submarino terá cerca de 954 km entre Egito e Grécia
O número mais visual da obra está na extensão: cerca de 954 km de cabo submarino ligando o Egito à Grécia continental.
Essa distância coloca o GREGY entre os grandes projetos de interconexão elétrica planejados para a região, com infraestrutura no fundo do mar e estações de conexão nos dois países.
A tecnologia prevista é HVDC, usada em projetos de longa distância porque permite transportar grandes volumes de energia com mais eficiência em cabos submarinos.
A proposta também inclui a infraestrutura necessária em terra para integrar o cabo às redes elétricas nacionais, permitindo que a energia chegue ao sistema grego e siga para outros países europeus.
Capacidade de 3.000 MW equivale a uma nova avenida elétrica para a Europa
A capacidade máxima prevista é de 3.000 MW. Esse volume coloca o projeto em escala de infraestrutura energética internacional, não apenas como uma conexão bilateral.
O GREGY foi planejado para fornecer energia renovável de forma permanente, com referência a 8.760 horas de operação ao ano, dentro do limite de capacidade do sistema. A plataforma também é descrita como bidirecional, ou seja, capaz de permitir fluxo de energia nos dois sentidos, conforme as condições do sistema elétrico.
Esse ponto é importante porque interconexões não servem apenas para transportar energia de um lado para o outro. Elas também ajudam a equilibrar redes, ampliar segurança de fornecimento e reduzir gargalos em momentos de alta demanda ou alta geração renovável.
Energia viria de fontes renováveis no Egito
A eletricidade transportada pelo GREGY é apresentada como energia 100% renovável, com garantia contratual por meio de acordos específicos de compra de energia.
O objetivo é exportar energia limpa do Egito para a Grécia e, a partir dela, para a Europa, especialmente em momentos de alta geração renovável.
O desenvolvedor do projeto afirma que a energia verde transferida para a Grécia seria produzida por 9,5 GW de fontes renováveis a serem construídas e operadas pelo grupo no Egito.
Essa configuração coloca o país africano em uma posição estratégica: não apenas como produtor local de energia, mas como potencial fornecedor de eletricidade limpa para o mercado europeu.
Cabo pode reforçar ligações da Grécia com Itália e Bulgária
O impacto da interconexão não ficaria limitado ao trecho entre Egito e Grécia.
Segundo a página da Comissão Europeia, simulações indicam que o GREGY aumentaria a capacidade de transferência de energia entre redes fronteiriças ligadas à Grécia, especialmente nos corredores Grécia-Itália e Grécia-Bulgária.
Os cálculos citados apontam ganho de pelo menos 602 MW/h, podendo chegar a 1.081 MW/h nos cenários analisados, em comparação com uma situação sem a entrada do projeto em operação.
Isso mostra que o cabo pode funcionar como peça de uma rede maior. A energia chegaria à Grécia, mas seu efeito poderia se espalhar por conexões regionais, reforçando a integração elétrica europeia.
Projeto mira segurança energética e redução de emissões
O GREGY surge em um momento em que a Europa busca diversificar fontes de energia, ampliar renováveis e reduzir dependência de combustíveis fósseis.
A Comissão Europeia relaciona o projeto a agendas como o Pacto Ecológico Europeu, o Clean Industrial Deal, o Plano de Ação para Energia Acessível e a estratégia da União da Energia.
O grupo desenvolvedor afirma que os 3.000 MW transferidos pelo projeto poderiam substituir 4,5 bilhões de m³ de gás natural por ano e reduzir emissões de CO₂ em cerca de 10 milhões de toneladas anuais.
Esses números mostram por que o cabo é tratado como infraestrutura estratégica: ele combina energia, clima, indústria, segurança e geopolítica em uma única obra submarina.
Comissão Europeia já apoia estudos de infraestrutura energética transfronteiriça
O GREGY também aparece dentro de um cenário maior de financiamento europeu para conexões energéticas entre países.
Em 28 de janeiro de 2026, a Agência Executiva Europeia do Clima, Infraestruturas e Ambiente informou que a Comissão Europeia destinaria aproximadamente € 650 milhões do programa Connecting Europe Facility para 14 projetos transfronteiriços de infraestrutura energética.
O programa CEF é descrito pela própria União Europeia como um instrumento de financiamento para redes transeuropeias sustentáveis e interconectadas nos setores de transporte, energia e serviços digitais.
Esse contexto ajuda a explicar por que cabos submarinos de eletricidade ganharam destaque: a transição energética depende não só de gerar energia renovável, mas também de transportá-la para onde há consumo.
Desenvolvedor ELICA lidera proposta ligada ao Grupo Kopelouzos
A promotora do projeto é a ELICA, empresa ligada ao Grupo Kopelouzos.
Segundo a Comissão Europeia, a ELICA deveria concluir o estudo de viabilidade do projeto até 2023, e o GREGY passou a ser avaliado quanto ao potencial enquadramento como projeto PCI, categoria usada para iniciativas estratégicas de infraestrutura energética europeia.
Como se trata de uma infraestrutura complexa, o avanço depende de estudos, licenciamento, engenharia, financiamento, acordos de compra de energia e integração com redes nacionais.
Por isso, o projeto deve ser tratado como planejado e em desenvolvimento, não como cabo já instalado no Mediterrâneo.
Nova rota elétrica mostra como África pode ganhar peso na transição energética europeia
O GREGY mostra uma mudança importante no mapa energético.
Durante décadas, a discussão entre África e Europa esteve muito ligada a petróleo, gás e rotas marítimas tradicionais. Agora, projetos como esse colocam energia renovável, cabos submarinos e interconexões elétricas no centro da relação entre os continentes.
O Egito pode se tornar uma plataforma de exportação de energia limpa. A Grécia pode reforçar sua posição como porta de entrada energética para a União Europeia. E a Europa pode ganhar uma rota adicional para diversificar o fornecimento e aumentar a participação de renováveis.
Esse é o ponto que torna o cabo maior do que uma obra técnica. Ele reposiciona o Mediterrâneo como corredor de eletricidade limpa.
Cabo de 954 km pode virar símbolo da nova geografia da energia
O avanço do GREGY revela como a transição energética depende de obras invisíveis para a maioria das pessoas.
Painéis solares, turbinas e parques renováveis chamam atenção na paisagem. Mas a eletricidade só ganha escala internacional quando encontra redes, interconexões e cabos capazes de atravessar fronteiras.
Com 954 km de extensão prevista, capacidade de 3.000 MW e conexão direta entre Egito e Grécia, o GREGY tenta criar uma dessas rotas.
Se sair do papel, o projeto pode transformar o fundo do Mediterrâneo em uma avenida elétrica entre a África e a União Europeia, mostrando que a disputa energética do futuro passará não apenas por quem produz energia limpa, mas por quem consegue transportá-la com segurança, escala e integração regional.


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