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Comunidade isolada no País de Gales vive fora da rede elétrica há quase 30 anos: famílias cultivam o próprio alimento, geram a própria energia e desafiam o conceito moderno de conforto

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 13/11/2025 às 08:22
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Há quase 30 anos, a comunidade Brithdir Mawr, no País de Gales, vive sem rede elétrica nem supermercados, produzindo o próprio alimento e energia de forma sustentável.

Nas colinas verdes do País de Gales, escondida entre vales úmidos e cercada por florestas, existe uma comunidade que decidiu viver de maneira radicalmente diferente do resto do mundo. O nome é Brithdir Mawr, um assentamento ecológico formado no início dos anos 1990 por um pequeno grupo de famílias que acreditava ser possível viver sem depender da infraestrutura moderna — sem rede elétrica pública, sem supermercados, sem consumo exagerado e com o mínimo impacto ambiental possível. Quase 30 anos depois, o projeto se tornou um dos experimentos mais duradouros de vida sustentável da Europa, um símbolo de resistência e simplicidade.

Um retorno às origens em plena era digital

Brithdir Mawr surgiu em 1993, quando o agricultor Tony Wrench e sua companheira, Jane Faith, compraram uma antiga fazenda no oeste do País de Gales, próxima à vila de Newport. O objetivo era criar um espaço de convivência comunitária onde as pessoas pudessem cultivar seus alimentos, gerar a própria energia e viver de forma autossuficiente. A ideia, considerada utópica na época, rapidamente atraiu outras famílias e voluntários interessados em experimentar um modo de vida mais conectado à terra.

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Hoje, a comunidade abriga entre 15 e 25 moradores fixos, além de visitantes ocasionais. Suas casas, construídas com materiais naturais como barro, madeira e palha, se misturam à paisagem rural. Nenhuma delas está ligada à rede elétrica nacional. A energia vem de painéis solares e pequenas turbinas eólicas instaladas pelos próprios moradores. A água é captada de fontes locais e filtrada artesanalmente.

Autossuficiência e sustentabilidade como filosofia de vida

A alimentação é um dos pilares da autossuficiência. A comunidade cultiva praticamente tudo o que consome: batatas, cenouras, repolhos, cereais, frutas e ervas medicinais. Cada morador contribui com horas de trabalho nos campos e nas estufas, e o excedente é trocado com comunidades vizinhas ou usado para alimentar visitantes. Animais como galinhas e cabras são criados em regime de pasto livre, garantindo ovos e leite frescos.

Nada é desperdiçado. O lixo orgânico é transformado em adubo, e os resíduos sólidos são reciclados ou reutilizados. As casas contam com sistemas de compostagem, e os banheiros secos evitam o uso de água potável para descarga. “Vivemos de maneira simples, mas com propósito. Aqui, tudo o que fazemos tem um impacto direto na terra”, afirmou Tony Wrench em entrevista à BBC.

A polêmica da “casa redonda” e o embate com o governo

O estilo de vida de Brithdir Mawr também gerou controvérsias. Em 1998, o governo galês descobriu a famosa “casa redonda” de Tony Wrench — uma construção de aparência hobbit feita com madeira, barro e telhado de grama, completamente camuflada na floresta. Por não ter autorização oficial, a edificação foi alvo de uma longa disputa judicial. O caso ganhou repercussão internacional e mobilizou ambientalistas e defensores da vida alternativa, que viam em Brithdir Mawr um exemplo de sustentabilidade real.

Após anos de negociações, o governo local reconheceu o valor ecológico do projeto e criou regras específicas que permitiram a permanência da comunidade, desde que os moradores mantivessem compromissos claros de baixo impacto ambiental. A vitória consolidou o assentamento como um dos pioneiros do movimento “low impact living” — estilo de vida de baixo impacto — no Reino Unido.

Vivendo com menos e descobrindo o essencial

Em Brithdir Mawr, não há sinais de luxo moderno. A internet é limitada, os aparelhos eletrônicos são poucos e as noites são iluminadas por lâmpadas de LED alimentadas por baterias solares. Mas, segundo os moradores, a ausência de conforto é compensada pela tranquilidade, pelo senso de comunidade e pela liberdade de viver em harmonia com o ambiente. “A vida é mais lenta, mais silenciosa e mais consciente”, contou uma das residentes em depoimento recente.

As crianças crescem aprendendo sobre agricultura orgânica, bioconstrução e respeito à natureza. Muitos dos que passaram pela comunidade seguiram para projetos semelhantes em outros países, multiplicando a filosofia de autossuficiência. Brithdir Mawr, hoje, é estudada por universidades e citada em relatórios ambientais como um modelo funcional de economia sustentável em pequena escala.

Um experimento que virou inspiração global

Mais do que um refúgio ecológico, Brithdir Mawr representa uma alternativa concreta ao ritmo acelerado das cidades e ao consumo desenfreado. Ali, cada decisão — desde o uso de um pedaço de madeira até o plantio de uma semente — é tomada coletivamente. Em tempos de crise ambiental e aumento do custo de vida, o modelo atrai cada vez mais atenção de quem busca simplicidade e propósito.

Ao longo de três décadas, a comunidade isolada resistiu a pressões externas, modernizações e burocracias, mantendo-se fiel à ideia original de viver com menos e cuidar da terra. No silêncio dos campos galeses, cercada pelo vento e pelo som dos pássaros, Brithdir Mawr continua sendo um lembrete de que, mesmo em um mundo dominado por tecnologia e consumo, ainda é possível viver em equilíbrio com o essencial.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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