Pesquisa de Luciano Moreira usa mosquitos com Wolbachia para diminuir transmissão da dengue, alcançando até 89% de redução em cidades brasileiras
O reconhecimento internacional recebido pelo pesquisador Luciano Moreira, incluído pela revista Nature entre as dez figuras que moldaram a ciência em 2025, reforçou um trabalho que já vinha transformando o combate à dengue no Brasil porque mostrou o impacto direto da pesquisa nacional em problemas cotidianos.
A indicação divulgada na segunda-feira destacou uma trajetória iniciada há 17 anos, quando ele decidiu investigar alternativas para reduzir doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti sem eliminar a espécie do ambiente e sem causar danos ecológicos.
A pesquisa que mudou o enfrentamento das arboviroses
Ao longo dos anos, Moreira e sua equipe descobriram como inserir a bactéria Wolbachia nos ovos do Aedes aegypti.
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A bactéria, presente naturalmente em outros insetos, interfere na replicação dos vírus da dengue, zika e chikungunya dentro do mosquito.
Esse processo impede que o vírus se multiplique adequadamente e reduza a capacidade de transmissão para humanos. O inseto continua vivo e ativo, mas perde grande parte do potencial de infecção.
Essa estratégia tornou o mosquito quase inofensivo para a população, além disso criou um ciclo de proteção sustentável porque as fêmeas contaminadas transmitem a Wolbachia para suas crias.
Assim, cada geração nasce com a característica que impede o desenvolvimento dos vírus, evitando a necessidade de solturas contínuas e baixando os custos do projeto no longo prazo.
Moreira relatou que a emoção ao saber da inclusão na lista da Nature veio acompanhada de sensação de responsabilidade.
Para ele, o impacto direto na redução de casos e mortes mostra que a ciência brasileira tem capacidade de produzir resultados de relevância global mesmo enfrentando limitações de recursos.
Esse reconhecimento colocou seu nome ao lado de avanços marcantes do ano, como a terapia genética liderada por Sarah Tabrizi e o desenvolvimento da maior câmera astronômica do mundo, coordenado por Tony Tyson no Chile.
Resultados observados nas cidades brasileiras
Os mosquitos com Wolbachia já estão em circulação em 16 cidades. Estudos recentes registraram reduções expressivas nos casos de dengue, chegando a 89% em algumas áreas.
Em média, pesquisas publicadas na revista The Lancet mostraram queda de 63% nos municípios onde o método foi aplicado.
Esses números, citados como marcos por Moreira, representam uma mudança importante no enfrentamento da doença.
A relevância cresce porque o Brasil enfrenta ciclos intensos de dengue há anos. Em 2025, mais de 1,7 mil pessoas morreram em decorrência da arbovirose, reflexo também das mudanças climáticas que ampliam o alcance do mosquito.
Portanto, soluções que fortaleçam a prevenção são vistas como essenciais para o futuro da saúde pública.
A iniciativa também gerou a maior fábrica de mosquitos do mundo, instalada em Curitiba. O local produz milhões de exemplares com Wolbachia que abastecem as cidades participantes.
O avanço constante da técnica, segundo Moreira, dependeu de criatividade e persistência, já que a equipe precisou encontrar caminhos alternativos diante da escassez de insumos ou equipamentos especializados.
Ele lembrou que muitas soluções surgiram de adaptações dentro do próprio laboratório, algo que considera um diferencial da ciência brasileira.
A origem da ideia e o início da trajetória de Luciano Moreira
A curiosidade de Moreira por insetos começou ainda na infância, quando observava espécies no quintal de casa.
Ele brinca que algumas misturas que fazia ali não devem ser replicadas hoje, mas admite que esse interesse marcou sua escolha profissional.
Ao entrar no mundo científico, percebeu que queria trabalhar com algo capaz de ajudar pessoas sem gerar impactos negativos na natureza.
Foi nesse contexto que surgiu a pergunta que guiaria sua carreira: seria possível neutralizar o mosquito sem eliminá-lo?
Essa reflexão o levou à Wolbachia. A bactéria, já conhecida em outros insetos, oferecia uma oportunidade porque impedia a multiplicação interna dos vírus.
O desafio, porém, era inseri-la no Aedes aegypti de forma que se mantivesse estável ao longo das gerações.
A partir dessa dificuldade, a equipe iniciou testes e ajustes que duraram anos até chegar ao método usado hoje.
Moreira destaca que o reconhecimento da Nature reforça a importância de investir em ciência. Ele afirma que o Brasil alcança resultados expressivos mesmo com limitações e que o uso criativo dos recursos disponíveis tem sido determinante.
Ainda assim, acredita que investimentos maiores poderiam acelerar descobertas e ampliar o alcance de iniciativas como a sua.
Os demais nomes que marcaram a ciência mundial
A lista publicada pela Nature reuniu outros nove nomes de diferentes áreas. Mengran Du, da China, liderou uma expedição que levou um submersível a 9.000 metros de profundidade, revelando um ecossistema marinho desconhecido.
Yifat Merbl, de Israel, identificou uma nova função dos proteassomas, mostrando que eles conseguem produzir peptídeos antimicrobianos que ajudam o organismo no combate a infecções.
Também integrou o grupo a pesquisadora Sarah Tabrizi, do Reino Unido, cujo trabalho permitiu retardar a progressão da doença de Huntington.
O caso de KJ Muldoon, nos Estados Unidos, foi destacado como o primeiro exemplo de cura por edição genética após um menino de dois anos receber terapia experimental que parece ter revertido sua condição ultrarrara.
Outro nome lembrado foi o de Liang Wenfeng, da China, criador do modelo de linguagem DeepSeek, desenvolvido com poucos recursos e lançado em formato open weight, permitindo que usuários modifiquem livremente o sistema.
Achal Agrawal, da Índia, investigou fraudes científicas e ajudou a impulsionar mudanças na avaliação das universidades do país.
Na área de cooperação internacional, a sul-africana Precious Matsoso liderou negociações que resultaram no primeiro tratado mundial de preparação para pandemias.
Já Susan Monarez, dos Estados Unidos, foi reconhecida por sua postura em defesa da ciência dentro do serviço público ao recusar pressões políticas durante o governo Trump.
Um feito que amplia o alcance da ciência brasileira
A presença de um pesquisador brasileiro nessa seleção trouxe novo foco para a produção científica nacional.
Moreira acredita que o impacto de sua descoberta pode abrir portas para novas linhas de estudo e fortalecer a confiança em projetos de longo prazo.
Para ele, a ciência continua sendo um instrumento capaz de reduzir sofrimento e salvar vidas, algo que considera o grande motor de sua jornada.
O pesquisador afirma que seguirão trabalhando para expandir o método e alcançar novos municípios porque acredita que a estratégia tem potencial de transformar o panorama das arboviroses no país.
A meta, segundo ele, permanece clara: reduzir cada vez mais os casos e caminhar para a eliminação das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti.
Com informações de G1.

Quando uma pessoa só, faz a diferença, que maravilha!
Quais os 16 lugares que estão sendo beneficiados com essa tecnologia de eleminar o mosquitos da dengue? Todos no Paraná ? Com interesse do governo, poderiam espalhar para o Brasil, né mesmo?
Parabéns excelente cientista! 👏👏