Tecnologia popular reaproveita resíduos comuns para aquecer água do banho, integra programa socioambiental de distribuidora de energia e chama atenção para o impacto do chuveiro elétrico no consumo residencial e no horário de pico do sistema elétrico brasileiro.
Banho quente costuma parecer apenas um hábito cotidiano.
Ainda assim, ele se conecta a dois temas que nem sempre aparecem juntos: o destino de resíduos domésticos e a pressão sobre a rede elétrica justamente no fim do dia, quando o consumo residencial costuma aumentar.
No Brasil, onde o chuveiro elétrico é amplamente utilizado para aquecer água, essa relação abre espaço para tecnologias que buscam reduzir o uso da resistência elétrica no momento do banho.
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Nesse contexto, ganhou visibilidade a tecnologia criada por José Alcino Alano, catarinense de Tubarão, e posteriormente incorporada a uma iniciativa socioambiental da Celesc.
O aquecedor solar desenvolvido por ele reaproveita materiais normalmente descartados, como garrafas PET e embalagens cartonadas do tipo longa vida, para aproveitar a radiação solar e aquecer parte da água usada no banho.
Com isso, o sistema reduz a necessidade de acionar o chuveiro elétrico em toda a demanda térmica.
A Celesc estruturou a difusão do sistema no projeto “Energia do Futuro”.
A distribuidora também publicou um manual técnico com orientações sobre materiais, funcionamento e cuidados de instalação.
Segundo a própria companhia, a proposta envolve ainda a fabricação dos coletores em modelo associado ao reaproveitamento de resíduos e à geração de renda em comunidades atendidas.
Como funciona o aquecedor solar feito com garrafas PET e Tetra Pak

O princípio do equipamento é semelhante ao de coletores solares convencionais.
A ideia é elevar a temperatura da água antes de ela chegar ao ponto de uso, diminuindo a energia elétrica necessária na hora do banho.
A diferença está nos materiais empregados e no modo de montagem proposto.
Em vez de um conjunto metálico com placa absorvedora e cobertura de vidro, o projeto utiliza embalagens pós-consumo como parte estrutural do coletor.
No manual divulgado pela Celesc, o sistema é apresentado como alternativa de custo mais baixo em comparação com coletores solares convencionais.
O documento descreve o uso de tubos e conexões de PVC nas colunas de absorção térmica.
O próprio texto técnico registra que essa escolha é menos eficiente do que metais como cobre ou alumínio.
Ainda assim, a opção foi adotada para reduzir custos e facilitar a confecção.
Ao mesmo tempo, o manual indica que garrafas PET e caixas Tetra Pak substituem componentes presentes em coletores tradicionais, como caixa metálica, painel de absorção e vidro.
Dessa forma, embalagens descartadas passam a integrar a estrutura do equipamento.
O desempenho do sistema, segundo o documento, depende de fatores como dimensionamento do coletor, incidência solar, condições climáticas, hábitos de banho e qualidade da instalação.
Por esse motivo, a variação de resultados entre residências tende a ocorrer conforme essas diferenças e a potência do chuveiro utilizado.
Energia do Futuro e a atuação da Celesc
A Celesc descreve o “Energia do Futuro” como um projeto que viabiliza a construção de coletor solar com uso de produtos recicláveis.
Entre os materiais citados estão garrafas PET e caixas do tipo Tetra Pak.
A companhia associa a iniciativa a residências de famílias de menor renda.
Nos materiais institucionais, também aparece a possibilidade de geração de trabalho e renda vinculada à fabricação dos coletores.
Em relatório anual de 2006, a Celesc informa que o programa teve início quando a empresa passou a apoiar José Alcino Alano.
O documento aponta que esse apoio começou em 2005.
Na mesma publicação, a proposta é vinculada a ações de responsabilidade social e a metas de redução de consumo e de demanda no horário de ponta.
Já em relatório anual de 2008, a empresa afirma que a Celesc Distribuição iniciou o “Energia do Futuro” em 2006, por meio da parceria com o inventor.
Até o fim de 2008, segundo o texto, havia aquecedores instalados em instituições sociais.
O documento também menciona o reaproveitamento de embalagens que poderiam ser descartadas de forma inadequada.
Impacto social e reciclagem relatados em documentos oficiais

Relatórios de sustentabilidade detalham o desenho socioambiental do programa.
No relatório de 2012, a Celesc afirma que o “Energia do Futuro”, desenvolvido em parceria com a cooperativa Cooper Solar, tinha como objetivo distribuir aquecedores solares feitos com materiais descartáveis a famílias de baixa renda.
No mesmo trecho, o documento registra que a iniciativa contribuiu para reciclar mais de 500 mil garrafas PET e 500 mil caixas Tetra Pak.
Ainda segundo o relatório, a cooperativa reunia 24 mulheres chefes de família.
A remuneração mensal informada no período descrito foi de R$ 800,00.
Sobre a conta de luz, a empresa apresenta o dado como relato de experiência.
No relatório de 2012, a Celesc registra que famílias que instalaram o aquecedor relataram redução de aproximadamente 30% na fatura de energia elétrica.
O documento não detalha metodologia de medição.
Por isso, não permite comparações diretas entre residências com rotinas, potências de chuveiro e condições climáticas distintas.
Patente e formalização da invenção
A tecnologia também aparece em publicações oficiais ligadas à propriedade industrial.
A Revista da Propriedade Industrial publicou o pedido de patente PI 0402869-4, intitulado “Aquecimento solar composto de embalagens descartáveis”.
O resumo descreve a finalidade de retirar do meio ambiente materiais descartáveis.
Esses resíduos seriam convertidos em componentes de um aquecedor solar.
O texto técnico menciona simplicidade de confecção e instalação.
Também associa o sistema à economia de energia elétrica no aquecimento de água para uso doméstico.
Esse tipo de registro formaliza a descrição técnica da solução.
Ele não estabelece, por si só, padronização de desempenho em diferentes cenários de uso.
Chuveiro elétrico e peso no consumo residencial
A relação entre o aquecedor feito com recicláveis e a conta de luz passa por uma característica do consumo residencial brasileiro.
O chuveiro elétrico impacta não apenas o total mensal, mas também o horário em que a demanda se concentra.
Reportagem do Jornal da Unicamp, baseada em estudo de mestrado sobre curva de carga, relata que simulações indicaram participação em torno de 23% da carga no horário de pico do setor residencial.
O texto acrescenta que, nas regiões Sul e Sudeste, o equipamento chegou a responder por até 40% do consumo residencial no pico, entre 18h e 19h.
Na mesma reportagem, o autor citado afirma:
“O consumo de energia elétrica pelo chuveiro ao longo do ano por toda a população corresponde a praticamente 30% da energia gerada por Itaipu no mesmo período”.
Esses resultados ajudam a contextualizar por que programas de eficiência energética frequentemente tratam o banho como ponto relevante.
O tema ganha destaque sobretudo em períodos frios e no fim do dia, quando a demanda tende a aumentar.
Como o chuveiro opera com potência elevada por poucos minutos, o uso simultâneo em muitas residências influencia a curva de carga do sistema.
O que o manual técnico destaca sobre custo e desempenho
O manual técnico disponibilizado pela Celesc orienta materiais, cuidados de instalação e dimensionamento.
O documento enquadra o equipamento como reaproveitamento de resíduos, não como incentivo ao consumo de embalagens.
Ao mesmo tempo, explicita escolhas destinadas a reduzir custos e facilitar a montagem, como o uso de PVC.
O próprio texto reconhece que essa opção envolve limitações de eficiência quando comparada a materiais metálicos usados em coletores solares convencionais.
Na prática, os fatores apresentados indicam que o efeito do sistema varia conforme o tamanho do coletor, a incidência solar e o padrão de uso da água.
Dessa forma, o aquecedor aparece como alternativa de pré-aquecimento da água, capaz de reduzir parte do uso do chuveiro elétrico em determinados contextos.
A trajetória do inventor de Tubarão e do “Energia do Futuro” é frequentemente associada à combinação entre reaproveitamento de resíduos, aplicação doméstica direta e adoção institucional por uma distribuidora de energia.
Com o peso do chuveiro elétrico na demanda residencial e no horário de pico, que adaptações seriam necessárias na sua casa para testar um sistema de pré-aquecimento solar e avaliar, com medições, o impacto real na conta de luz?


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