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Brasil perdeu 1,2 milhão de caminhoneiros em uma década e Santa Catarina tem 8 mil caminhões parados por falta de motoristas porque os jovens não querem mais assumir a profissão que sustenta o país

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 23/04/2026 às 10:13
Atualizado em 23/04/2026 às 10:16
O Brasil perdeu 1,2 milhão de caminhoneiros em uma década. Santa Catarina tem 8 mil caminhões parados sem motoristas. Jovens não querem mais a profissão da estrada.
O Brasil perdeu 1,2 milhão de caminhoneiros em uma década. Santa Catarina tem 8 mil caminhões parados sem motoristas. Jovens não querem mais a profissão da estrada.
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O país perdeu 1,2 milhão de caminhoneiros em dez anos e Santa Catarina registra 8 mil veículos ociosos sem motoristas com R$ 30 milhões de prejuízo mensal, enquanto a profissão da estrada envelhece sem reposição e a rotatividade nas empresas chega a 97,5%.

O Brasil viu sair de atividade aproximadamente 1,2 milhão de motoristas de caminhão nos últimos dez anos, resultado combinado de aposentadorias, migração para outras atividades e desinteresse crescente das novas gerações por uma profissão que exige longas jornadas, meses longe da família e exposição diária a riscos nas estradas. Os dados do SETCESP (Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região) revelam que menos de 20% dos caminhoneiros em atividade no país têm menos de 30 anos, enquanto cerca de metade dos profissionais já passou dos 45 anos, perfil etário que sinaliza uma categoria envelhecendo sem reposição suficiente de trabalhadores jovens. Em Santa Catarina, o cenário reproduz a tendência nacional: o Setransc (Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística do Sul de SC) registrou em 2025 cerca de 8 mil veículos pesados ociosos por ausência de condutores, gerando prejuízo estimado em R$ 30 milhões por mês.

Os números do CAGED confirmam que a maior parte dos motoristas de caminhão formalmente empregados em Santa Catarina concentra-se na faixa entre 30 e 49 anos, com presença cada vez mais rarefeita nas faixas abaixo dos 30. O índice de rotatividade entre empresas de transporte chega a 97,5%, com permanência média de apenas 14,8 meses no mesmo empregador, combinação que indica um mercado instável onde motoristas trocam de empresa com frequência e empresas não conseguem reter quem contratam. O resultado é um setor que transporta mais de 60% de tudo o que circula no Brasil, mas que não encontra gente suficiente para manter os veículos rodando.

Por que os jovens não querem ser caminhoneiros

O Brasil perdeu 1,2 milhão de caminhoneiros em uma década. Santa Catarina tem 8 mil caminhões parados sem motoristas. Jovens não querem mais a profissão da estrada.

A lista de razões é longa e nenhuma delas é simples de resolver. Insegurança nas estradas, falta de infraestrutura para necessidades básicas como locais adequados para dormir e tomar banho, qualidade precária de muitas rodovias e jornadas de trabalho exaustivas formam um conjunto de condições que afasta qualquer pessoa que tenha alternativa de emprego menos desgastante. Luiz Henrique da Cunha Souza, motorista de 29 anos que mora em São José (SC) e começou a dirigir caminhão aos 25, relata que já passou por empresas que ignoravam o descanso obrigatório, deixando-o quase três dias sem dormir adequadamente.

A Lei nº 13.103 de 2015 determina que caminhoneiros descansem pelo menos 11 horas a cada 24 horas de direção, sendo 8 delas ininterruptas. Na prática, motoristas que trabalham por comissão enfrentam pressão para rodar mais e ganhar mais, dinâmica que coloca em risco não apenas a vida do profissional, mas a de todos que dividem a estrada. Segundo a PRF (Polícia Rodoviária Federal), a privação de sono reduz a atenção e aumenta significativamente a probabilidade de acidentes, problema que os próprios caminhoneiros reconhecem como uma das razões pelas quais a profissão perdeu atratividade para quem está escolhendo carreira.

O que os caminhoneiros ganham e o que sacrificam pela profissão

O Brasil perdeu 1,2 milhão de caminhoneiros em uma década. Santa Catarina tem 8 mil caminhões parados sem motoristas. Jovens não querem mais a profissão da estrada.

A remuneração bruta mensal dos caminhoneiros oscila entre R$ 7 mil e R$ 11 mil, valor que à primeira vista parece competitivo mas que precisa ser colocado em contexto. Os caminhoneiros passam semanas ou meses longe de casa para alcançar esses valores, sacrificando convívio familiar, acompanhamento dos filhos e qualquer rotina social que exija presença física. Luiz Henrique relata que sua última viagem durou dois meses e meio sem pisar em Santa Catarina, percorrendo Bahia, Goiás, São Paulo e Ceará antes de voltar.

O motorista reconhece que a profissão permite oferecer conforto material à família, mas o preço é a ausência. O motorista relatou à NDTV Record que consegue dar conforto material à filha, mas não está presente para compartilhar esse conforto com ela, resumindo o dilema que milhares de caminhoneiros enfrentam diariamente. Apesar de ter se apaixonado pela vida na estrada e pela possibilidade de conhecer lugares que jamais visitaria em outra profissão, Luiz afirma que faria de tudo para impedir a própria filha de seguir o mesmo caminho, dado o nível de insegurança atual nas rodovias.

O que acontece quando os caminhoneiros desaparecem

O impacto de 8 mil veículos parados em Santa Catarina vai além do prejuízo de R$ 30 milhões mensais. Quando caminhões não rodam, mercadorias não chegam: insumos industriais atrasam, produtos agrícolas perdem prazo de validade, prateleiras de supermercados ficam vazias e toda a cadeia produtiva que depende do transporte rodoviário sente o efeito. Num país onde mais de 60% da carga se movimenta sobre pneus, a escassez de caminhoneiros é um problema logístico que se transforma rapidamente em problema econômico.

A tendência de envelhecimento da categoria agrava a perspectiva. Se quase metade dos motoristas em atividade já tem mais de 45 anos e o ingresso de jovens continua insuficiente para repor quem sai, o déficit de caminhoneiros tende a se aprofundar nos próximos anos. As empresas de transporte competem por um número cada vez menor de profissionais habilitados, o que explica a rotatividade de 97,5%: motoristas qualificados podem trocar de empregador a qualquer momento porque sabem que serão contratados em outro lugar. Quem perde é o sistema como um todo, que opera com margem cada vez menor de capacidade.

O que precisaria mudar para que a profissão de caminhoneiros atraia jovens novamente

A solução não passa por um único fator. Melhorar a infraestrutura rodoviária, garantir pontos de parada com condições dignas de descanso em estados como Santa Catarina, fiscalizar o cumprimento das jornadas legais e oferecer remuneração que compense genuinamente os riscos e os sacrifícios pessoais são condições mínimas para que jovens reconsiderem a boleia como opção de carreira. Enquanto a profissão de caminhoneiros for associada a noites mal dormidas, meses longe da família e estradas perigosas, nenhum discurso sobre a importância do transporte rodoviário será suficiente para convencer quem tem alternativa.

A automação e a condução autônoma aparecem no horizonte como possíveis respostas tecnológicas, mas ainda estão longe de substituir motoristas em escala no Brasil. Até que caminhões autônomos sejam viáveis em estradas brasileiras com toda a complexidade que isso envolve, o país depende de pessoas dispostas a assumir uma função essencial que cada vez menos gente quer exercer. Os 1,2 milhão de caminhoneiros perdidos na última década não são apenas estatística: são a medida exata de quanto o Brasil negligenciou quem mantém sua economia funcionando sobre quatro eixos e um asfalto que frequentemente nem asfalto é.

E você, conhece algum caminhoneiro que largou a profissão? Acha que o salário compensa os riscos e a distância da família? Deixe sua opinião nos comentários.

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Carlos Madureira Antonio
Carlos Madureira Antonio
02/05/2026 19:14

Dito isto, fica claro na matéria feita espanado exatamente a discrepância laboratórial, e as condições desumana junto a essa profissão tão importante e necessária. Sou carreteiro profissional labutando anos com transporte de combustível, e labutando com criogenia na antiga AGA, sentindo e vendo que quando outrora ganhamos mais, e não éramos cobrado e vigiado simplesmente para ser superveniente para a empresa, mais para o condutor nada. Com isso hoje sou essa estatística dessa porcentagem. Mais divisão de renda e mais qualidade e tratamento no trabalho Rodoviário.

Renilton Bastos dos Santos
Renilton Bastos dos Santos
01/05/2026 00:54

E complicado amigo..eu mesmo completei 52 anos hj em 01/06/26..porém tou fazendo mesmo pulando fora devido as raivas que passo pra carregar e descarregar o mesmo..e fila pra aquilo e fila pra todos os lados perdendo horas e horas de sono isso e muito desgastante em nossas vidas..vou procurar fazer outra coisa porém ficar mais perto de casa.. já que aqui eu passo mais de mês fora….

Roberto
Roberto
30/04/2026 12:38

Eu vou resumir o porquê disso tudo, para essas empresas não basta saber dirigir tem que ter uma caralhada de documentação de CNH para poder trabalhar Isso enche o saco fica inviável por isso eles não querem mais trabalhar neste Ramo, E olha que não estou nem falando da Mixaria que eles pagam e você não tem direito a porte de arma. e a mesma coisa é para as fábricas onde tem peão trabalhador de chão fábrica exigem experiência demais então agora eles estão colhendo o que plantaram, os empresários tomaram nos dedos.

Fonte
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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