Estudo projeta queda na recarga de aquíferos brasileiros e indica risco crescente para abastecimento e clima.
Um estudo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indica que as mudanças climáticas podem reduzir com força a recarga natural de aquíferos no Brasil até 2100, com perdas que chegam a 27,94% em sistemas específicos e risco crescente de escassez regional.
O trabalho estima impactos diretos sobre a água subterrânea que abastece total ou parcialmente 112 milhões de pessoas, ao mesmo tempo em que projeta aumento de temperatura entre 1,02 °C e 3,66 °C ao longo do século, dependendo do cenário de emissões analisado.
O papel da água subterrânea no abastecimento
A água subterrânea se acumula abaixo da superfície em formações geológicas chamadas aquíferos e entra nesse sistema de forma lenta, quando parte da chuva consegue infiltrar no solo e, meses depois, alcançar o lençol freático e as reservas mais profundas.
-
Radar de velocidade instalado em vilarejo escondido nas Dolomitas vira protagonista de uma arrecadação milionária e coloca pequenas cidades italianas no centro de uma polêmica nacional
-
Uma montanha ilegal de lixo com 6 metros de altura e 10 mil toneladas surgiu na Inglaterra, ameaça pegar fogo, pode custar milhões para ser removida e expõe como o descarte clandestino virou negócio para criminosos
-
Enquanto o Japão é visto como símbolo mundial de limpeza, casas inteiras tomadas por lixo expõem solidão, envelhecimento e uma barreira legal que impede ações rápidas das prefeituras
-
Uma família vivia em uma casa tomada por 80 toneladas de lixo na Coreia do Sul, até autoridades entrarem no imóvel, enviarem os moradores para tratamento psicológico e iniciarem uma limpeza de três dias
Por abastecer poços, nascentes, rios e ecossistemas, essa fonte funciona como um amortecedor em períodos de seca, mas depende de um equilíbrio delicado entre chuva, infiltração e escoamento, que tende a ser alterado por mudanças no regime climático.

Como o estudo projetou o cenário até 2100
Para estimar o que pode acontecer entre 2025 e 2100, os pesquisadores usaram um modelo de balanço hídrico com base em geoprocessamento e projeções climáticas corrigidas do CMIP6, iniciativa internacional que reúne simulações de centros de pesquisa do mundo.
A análise considerou dois caminhos de emissão de gases de efeito estufa, um moderado e outro mais pessimista, e traduziu as mudanças esperadas em temperatura, chuva, escoamento superficial e, principalmente, recarga dos aquíferos em escala nacional.
Aquecimento e mudanças no regime de chuvas
Os resultados apontam que o Brasil tende a aquecer de forma consistente ao longo do século, enquanto a chuva deve ficar mais desigual no espaço e no tempo, com áreas do Norte e parte do litoral leste projetadas para queda da precipitação anual.
Em sentido diferente, o Sul e porções do Nordeste podem registrar aumentos pontuais, mas essa elevação não significa recarga automática, porque o efeito sobre os aquíferos depende também de como a chuva se distribui ao longo do ano e de sua intensidade.
Ao comentar os achados, Ricardo Hirata, professor do Instituto de Geociências da USP e primeiro autor do artigo, afirma que a redução pode ser drástica, com destaque para Sudeste e Sul, apontados como mais secos em praticamente todos os modelos analisados.
Por que chuva intensa pode reduzir infiltração
Mesmo em regiões onde o volume anual de chuva não mude muito, o estudo descreve a possibilidade de verões mais chuvosos combinados a períodos secos mais longos, o que favorece eventos intensos e concentrados em pouco tempo e aumenta o escoamento superficial.
Segundo Hirata, esse tipo de precipitação pode provocar inundações e, ao mesmo tempo, reduzir a infiltração necessária para recarregar aquíferos, porque a água tende a correr pela superfície, em vez de penetrar gradualmente no solo e avançar em profundidade.
O pesquisador acrescenta que, mesmo quando a água entra no solo, o percurso até o aquífero leva tempo, e estudos citados por ele apontam uma travessia de dois a três meses para atravessar de 10 a 15 metros de solo.
Regiões e sistemas aquíferos mais afetados
Nas áreas mais afetadas, a recarga subterrânea pode cair até 666 milímetros por ano, e o quadro mais crítico aparece no Sistema Aquífero Bauru-Caiuá, com redução estimada de 27,94% no volume recarregado ao final do século.
Além desse caso, o estudo projeta perdas relevantes em aquíferos associados a porções aflorantes do Guarani e em sistemas como Furnas, Serra Geral, Bambuí Cárstico e Parecis, distribuídos por diferentes estados e com peso regional no abastecimento.
Como parte do risco está ligada à dependência de poços e nascentes, os pesquisadores destacam a dimensão social do tema, já que a água subterrânea sustenta usos domésticos, urbanos e rurais em milhares de municípios, inclusive como fonte complementar.
Água subterrânea fora do centro das políticas públicas
O estudo chama atenção para o fato de que a água subterrânea costuma ficar fora do centro das discussões sobre mudanças climáticas, que frequentemente se concentram em rios, vegetação e agricultura, deixando aquíferos em segundo plano no desenho de políticas.
Na avaliação de Hirata, o tamanho do armazenamento subterrâneo ajuda a explicar por que a fonte se mantém mesmo em anos de estiagem, e ele cita a seca de 2014 a 2016 como período em que cidades com captação superficial sofreram mais do que as abastecidas exclusivamente por aquíferos.
Esse panorama se conecta a um retrato nacional de infraestrutura: o Brasil tem cerca de 3 milhões de poços tubulares e 2 milhões de poços escavados, com extração estimada entre 550 e 600 metros cúbicos por segundo, em grande parte destinada a usos privados.
Na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, o abastecimento público com água subterrânea é pequeno, mas existe uma rede de poços privados citada no estudo, com cerca de 13 mil unidades e vazão de 11 metros cúbicos por segundo.
Recarga gerenciada de aquíferos como estratégia
Além de mapear riscos, os autores descrevem uma estratégia de adaptação conhecida como recarga gerenciada de aquíferos, chamada de managed aquifer recharge (MAR), que reúne técnicas para aumentar a infiltração de água de chuva e até de esgoto tratado.
Nesse conjunto, entram desde estruturas mais simples, como bacias de infiltração e pequenas barragens, até métodos de injeção direta no aquífero, prática já adotada em Madri, segundo o estudo, sempre com planejamento e controle para segurança hídrica.
Hirata afirma que, ao conduzir água captada para áreas planejadas de infiltração, o solo atua como um “super-reator biogeoquímico”, com potencial de depuração durante o trajeto subterrâneo, ideia associada ao uso de água previamente tratada.
Em grandes cidades, parte da recarga pode ocorrer de forma involuntária, e o estudo menciona pesquisas com isótopos indicando que aproximadamente 50% da recarga no centro de São Paulo viria de vazamentos nas redes de água e esgoto.


Concordo plenamente com você, mas água das nascentes, são equilíbrio dos MARES através das NASCENTES, toda água que usamos vem diretamente. ÁGUAS subterrânea necessário usar bombas o aquarificio, não tem pressão. O MAR sim tem pressão, água do Mar seu PH é de 8.1 a 8.4 diferença pouca para água que usamos é de 7.5 a 8.0 obrigado