Fusão nuclear avança como promessa de energia limpa, segura e praticamente inesgotável, movimenta bilhões em investimentos, desafia cientistas com temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius e coloca o Brasil na disputa global por tecnologias capazes de criar um “sol artificial” para abastecer o futuro energético da humanidade
A fusão nuclear se tornou uma das maiores apostas para o futuro da energia e colocou governos, universidades e empresas privadas em uma corrida tecnológica global.
Conhecida como tentativa de criar um “sol artificial” na Terra, essa tecnologia busca reproduzir o mesmo fenômeno que alimenta o Sol e as estrelas.
Em vez de quebrar átomos pesados, como ocorre na fissão nuclear usada nas usinas atuais, a fusão une núcleos leves, como os de hidrogênio, para liberar uma quantidade gigantesca de energia.
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Segundo o físico Gustavo Canal, professor da USP, em entrevista ao Olhar Digital, esse processo pode gerar de 3 a 4 vezes mais energia por quilo de combustível do que a fissão e milhões de vezes mais que combustíveis fósseis.
Como a fusão nuclear tenta recriar o sol na Terra
Para que a fusão aconteça, os cientistas precisam vencer a repulsão natural entre núcleos atômicos positivos.
No Sol, esse processo ocorre por causa da força gravitacional extrema. Na Terra, porém, essa condição precisa ser criada artificialmente em temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius.
Nessas condições, a matéria vira plasma, um gás extremamente quente e eletricamente carregado.
Por isso, o grande desafio é manter esse plasma estável, sem encostar em nenhuma parede sólida do reator.
Conforme Canal explicou, campos magnéticos fortíssimos são usados em câmaras de vácuo para conter o plasma.
Assim, o material superaquecido permanece suspenso e não toca as estruturas internas do equipamento.
Desafios científicos ainda travam a energia do futuro
Apesar do potencial, a fusão nuclear ainda enfrenta obstáculos complexos.
Primeiramente, o controle do plasma continua sendo uma das maiores dificuldades. Pequenas instabilidades podem comprometer toda a reação.
Ao mesmo tempo, quando a temperatura sobe, a pressão também aumenta. Segundo Gustavo Canal, uma ejeção massiva desse gás pode danificar as paredes do reator.
Outro ponto decisivo é o chamado ganho energético líquido. Ou seja, o sistema precisa produzir mais energia do que consome para iniciar e manter a reação.
Em dezembro de 2022, o National Ignition Facility, nos Estados Unidos, alcançou esse marco em um experimento de fusão por confinamento inercial.

Desde então, o resultado foi repetido e aperfeiçoado. No entanto, a operação contínua e comercial ainda permanece distante.
Corrida global já movimenta governos e empresas bilionárias
Atualmente, mais de 50 países investem em fusão nuclear.
Na França, o projeto ITER segue em construção e busca demonstrar a viabilidade da tecnologia em larga escala na década de 2030.
Enquanto isso, o setor privado acelera a disputa. Startups de fusão já receberam mais de US$ 7 bilhões, e mais de 50 empresas competem pelo primeiro reator comercial.
Entre elas, a Commonwealth Fusion Systems, ligada ao MIT, aposta em reatores compactos com ímãs supercondutores de alta temperatura.
Já a TAE Technologies desenvolve reatores lineares com inteligência artificial, enquanto a Helion Energy trabalha com modelos modulares para fornecimento de energia.
Brasil tenta ganhar espaço com tokamaks e pesquisa pública
No Brasil, porém, a corrida ainda é mais restrita e concentrada no setor público.
Segundo Gustavo Canal, o país ainda não tem empresas privadas apostando diretamente em fusão nuclear.
Mesmo assim, o Brasil possui três tokamaks, equipamentos usados para estudar plasmas.
O principal destaque é o TCABR, da USP, considerado o único tokamak em operação no Hemisfério Sul.
Também nesse cenário, o Programa de Fusão Nuclear, ligado ao MCTI e à Rede Nacional de Fusão Nuclear, busca formar especialistas, ampliar infraestrutura e estimular novas iniciativas no setor.
Energia limpa, segura e praticamente inesgotável
A fusão nuclear chama atenção porque não gera reação em cadeia fora de controle.
Segundo Canal, em uma usina de fusão, o pior cenário seria o plasma apagar.
Além desse fator de segurança, a tecnologia não emite gases de efeito estufa durante a reação e tem o hélio como principal subproduto direto.
Embora alguns materiais do reator possam exigir gerenciamento por causa dos nêutrons, a fusão não produz resíduos radioativos de longa duração como a fissão.
Outro ponto estratégico está no combustível. O deutério pode ser retirado da água do mar, enquanto o trítio pode ser produzido a partir do lítio.
Por isso, a fusão é vista como uma fonte quase inesgotável de energia.
Uma tecnologia em construção
Apesar dos avanços, a fusão nuclear ainda é um dos maiores desafios da engenharia do século XXI.
A expectativa geral aponta para primeiras usinas comerciais entre 2040 e 2050, embora empresas como CFS e Helion tentem antecipar esse prazo.
Enquanto isso, a pesquisa já impulsiona supercondutores, novos materiais e sistemas avançados de energia.
No Brasil, esse avanço pode representar mais do que uma nova fonte energética.
Afinal, o país pode transformar pesquisa pública em participação estratégica numa indústria global de alta tecnologia.
Se o “sol artificial” sair dos laboratórios e chegar às redes elétricas, o Brasil conseguirá acompanhar essa corrida ou ficará apenas observando a próxima revolução energética mundial?


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