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Brasil aparece na corrida pelo sol artificial com tokamaks, pesquisa pública e uma disputa global bilionária que tenta transformar plasma a 100 milhões de graus em energia limpa, segura e quase inesgotável para o futuro do planeta

Escrito por Caio Aviz
Publicado em 09/05/2026 às 22:23
Atualizado em 09/05/2026 às 22:29
Assista o vídeoLaboratório de fusão nuclear com reator tokamak, plasma superaquecido, pesquisadores brasileiros e equipamentos avançados usados em estudos sobre energia limpa e sol artificial.
Pesquisadores acompanham reator de fusão nuclear com plasma superaquecido em laboratório de alta tecnologia ligado aos estudos sobre energia limpa e sol artificial.
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Fusão nuclear avança como promessa de energia limpa, segura e praticamente inesgotável, movimenta bilhões em investimentos, desafia cientistas com temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius e coloca o Brasil na disputa global por tecnologias capazes de criar um “sol artificial” para abastecer o futuro energético da humanidade

A fusão nuclear se tornou uma das maiores apostas para o futuro da energia e colocou governos, universidades e empresas privadas em uma corrida tecnológica global.

Conhecida como tentativa de criar um “sol artificial” na Terra, essa tecnologia busca reproduzir o mesmo fenômeno que alimenta o Sol e as estrelas.

Em vez de quebrar átomos pesados, como ocorre na fissão nuclear usada nas usinas atuais, a fusão une núcleos leves, como os de hidrogênio, para liberar uma quantidade gigantesca de energia.

Segundo o físico Gustavo Canal, professor da USP, em entrevista ao Olhar Digital, esse processo pode gerar de 3 a 4 vezes mais energia por quilo de combustível do que a fissão e milhões de vezes mais que combustíveis fósseis.

Como a fusão nuclear tenta recriar o sol na Terra

Para que a fusão aconteça, os cientistas precisam vencer a repulsão natural entre núcleos atômicos positivos.

No Sol, esse processo ocorre por causa da força gravitacional extrema. Na Terra, porém, essa condição precisa ser criada artificialmente em temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius.

Nessas condições, a matéria vira plasma, um gás extremamente quente e eletricamente carregado.

Por isso, o grande desafio é manter esse plasma estável, sem encostar em nenhuma parede sólida do reator.

Conforme Canal explicou, campos magnéticos fortíssimos são usados em câmaras de vácuo para conter o plasma.

Assim, o material superaquecido permanece suspenso e não toca as estruturas internas do equipamento.

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Desafios científicos ainda travam a energia do futuro

Apesar do potencial, a fusão nuclear ainda enfrenta obstáculos complexos.

Primeiramente, o controle do plasma continua sendo uma das maiores dificuldades. Pequenas instabilidades podem comprometer toda a reação.

Ao mesmo tempo, quando a temperatura sobe, a pressão também aumenta. Segundo Gustavo Canal, uma ejeção massiva desse gás pode danificar as paredes do reator.

Outro ponto decisivo é o chamado ganho energético líquido. Ou seja, o sistema precisa produzir mais energia do que consome para iniciar e manter a reação.

Em dezembro de 2022, o National Ignition Facility, nos Estados Unidos, alcançou esse marco em um experimento de fusão por confinamento inercial.

Marco de ignição da National Ignition Facility impulsiona o desenvolvimento – Imagem: Divulgação

Desde então, o resultado foi repetido e aperfeiçoado. No entanto, a operação contínua e comercial ainda permanece distante.

Corrida global já movimenta governos e empresas bilionárias

Atualmente, mais de 50 países investem em fusão nuclear.

Na França, o projeto ITER segue em construção e busca demonstrar a viabilidade da tecnologia em larga escala na década de 2030.

Enquanto isso, o setor privado acelera a disputa. Startups de fusão já receberam mais de US$ 7 bilhões, e mais de 50 empresas competem pelo primeiro reator comercial.

Entre elas, a Commonwealth Fusion Systems, ligada ao MIT, aposta em reatores compactos com ímãs supercondutores de alta temperatura.

Já a TAE Technologies desenvolve reatores lineares com inteligência artificial, enquanto a Helion Energy trabalha com modelos modulares para fornecimento de energia.

Brasil tenta ganhar espaço com tokamaks e pesquisa pública

No Brasil, porém, a corrida ainda é mais restrita e concentrada no setor público.

Segundo Gustavo Canal, o país ainda não tem empresas privadas apostando diretamente em fusão nuclear.

Mesmo assim, o Brasil possui três tokamaks, equipamentos usados para estudar plasmas.

O principal destaque é o TCABR, da USP, considerado o único tokamak em operação no Hemisfério Sul.

Também nesse cenário, o Programa de Fusão Nuclear, ligado ao MCTI e à Rede Nacional de Fusão Nuclear, busca formar especialistas, ampliar infraestrutura e estimular novas iniciativas no setor.

Energia limpa, segura e praticamente inesgotável

A fusão nuclear chama atenção porque não gera reação em cadeia fora de controle.

Segundo Canal, em uma usina de fusão, o pior cenário seria o plasma apagar.

Além desse fator de segurança, a tecnologia não emite gases de efeito estufa durante a reação e tem o hélio como principal subproduto direto.

Embora alguns materiais do reator possam exigir gerenciamento por causa dos nêutrons, a fusão não produz resíduos radioativos de longa duração como a fissão.

Outro ponto estratégico está no combustível. O deutério pode ser retirado da água do mar, enquanto o trítio pode ser produzido a partir do lítio.

Por isso, a fusão é vista como uma fonte quase inesgotável de energia.

Uma tecnologia em construção

Apesar dos avanços, a fusão nuclear ainda é um dos maiores desafios da engenharia do século XXI.

A expectativa geral aponta para primeiras usinas comerciais entre 2040 e 2050, embora empresas como CFS e Helion tentem antecipar esse prazo.

Enquanto isso, a pesquisa já impulsiona supercondutores, novos materiais e sistemas avançados de energia.

No Brasil, esse avanço pode representar mais do que uma nova fonte energética.

Afinal, o país pode transformar pesquisa pública em participação estratégica numa indústria global de alta tecnologia.

Se o “sol artificial” sair dos laboratórios e chegar às redes elétricas, o Brasil conseguirá acompanhar essa corrida ou ficará apenas observando a próxima revolução energética mundial?

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Caio Aviz

Escrevo sobre o mercado offshore, petróleo e gás, vagas de emprego, energias renováveis, mineração, economia, inovação e curiosidades, tecnologia, geopolítica, governo, entre outros temas. Buscando sempre atualizações diárias e assuntos relevantes, exponho um conteúdo rico, considerável e significativo. Para sugestões de pauta e feedbacks, faça contato no e-mail: avizzcaio12@gmail.com.

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