Pela primeira vez desde a Crise dos Mísseis Cubanos de 1962, os Estados Unidos voltaram a bloquear o caminho do petróleo até Cuba. A caracterização é do New York Times, em reportagem publicada em 20 de fevereiro de 2026.
Desde a Executive Order 14380, assinada por Donald Trump em 29 de janeiro deste ano, a ilha que precisa de oito embarques de combustível por mês recebeu apenas um em cinco meses. O dado é da União Eléctrica de Cuba (UNE).
A Executive Order 14380 criou um mecanismo de tarifas contra qualquer país que envie petróleo a Cuba — incluindo a estatal mexicana Pemex, principal fornecedora da ilha em 2025. O resultado chegou rápido: déficit elétrico recorde de 1.440 megawatts, três apagões nacionais em março e a primeira ofensiva econômica de Washington contra Havana em 64 anos.
A Executive Order 14380 e o mecanismo silencioso do bloqueio
O decreto foi assinado por Donald Trump em 29 de janeiro de 2026 e entrou em vigor um dia depois. O texto leva o título Addressing Threats to the United States by the Government of Cuba.
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A ordem declara emergência nacional em relação ao governo cubano. O que ela faz, na prática, é diferente de um embargo tradicional.
Em vez de proibir empresas americanas de negociar com Cuba — algo que já existe desde a década de 1960 —, a EO 14380 autoriza tarifas contra qualquer país do mundo que continue enviando petróleo à ilha.
É uma sanção secundária, no jargão jurídico do Tesouro americano.
O alvo direto, embora não nomeado no texto, era a Pemex. A petroleira estatal mexicana respondeu por 44% das importações cubanas de petróleo em 2025.
A empresa anunciou a suspensão das remessas em 27 de janeiro — dois dias antes da assinatura do decreto. Em outras palavras, o aviso bastou para que o principal fornecedor de Cuba se afastasse.
Para a Casa Branca, era exatamente esse o desenho do mecanismo. Para Havana, foi o início da pior crise energética em décadas.
Posts anteriores do portal mostram como o cerco vinha se desenhando, com o bloqueio de Trump já asfixiando a ilha em fevereiro.

Pemex, a estatal mexicana que era a maior fornecedora de Cuba
A relação entre México e Cuba no setor petrolífero não é nova. Durante os anos 2000, o fornecimento venezuelano chegou a cobrir mais da metade da demanda cubana.
Após o colapso desse arranjo, a Pemex assumiu o papel de principal abastecedora da ilha.
Em 2025, quase metade do petróleo que chegou a Cuba vinha de tanqueiros mexicanos. Para o México, o negócio era duplo: vender combustível e manter influência diplomática numa região historicamente tensionada.
A Executive Order 14380 desenhou um dilema imediato para o governo mexicano. Continuar fornecendo Cuba significaria entrar na lista de países sujeitos a tarifas adicionais sobre suas exportações para os Estados Unidos.
O mercado americano é o maior parceiro comercial do México por margem larga. A Pemex, controlada pelo governo mexicano, paralisou as remessas dois dias antes da assinatura do decreto.
O movimento expôs algo inédito. Pela primeira vez em anos, Washington usou suas tarifas para forçar um aliado próximo a interromper um negócio com Cuba — e o México cedeu.
A consequência regional acelerou a busca mexicana por novas estratégias energéticas próprias, incluindo a exploração de gás de xisto para reduzir a dependência externa.

Os números da escassez: oito navios necessários, um recebido
O cálculo da União Eléctrica de Cuba é direto. Para manter o sistema elétrico funcionando, a ilha precisa receber, em média, oito navios-tanque por mês.
Entre dezembro de 2025 e abril de 2026, recebeu apenas um. A diferença vem da estrutura energética cubana.
O consumo diário do país está entre 90 mil e 110 mil barris de petróleo. A produção doméstica não passa de 40 mil barris por dia, segundo dados da UNE e do Ministério de Energia e Minas.
Tudo o que falta entra por porto.
Sem importação, o sistema entra em colapso em cascata. Termoelétricas reduzem geração. A grade nacional fica com folga insuficiente para cobrir picos.
Apagões deixam de ser exceção e viram rotina, como ficou claro nos relatos do cotidiano sob racionamento na ilha — uma reportagem do portal mostra como a vida cubana ficou sem luz, transporte e até salário.
A cronologia da escassez em 2026 ajuda a visualizar o cerco:
- 11 de janeiro — Trump declara que Cuba deveria “fazer um acordo antes que seja tarde demais”
- 27 de janeiro — Pemex suspende remessas previamente programadas para Havana
- 29 de janeiro — Trump assina a Executive Order 14380; vigência no dia seguinte
- 9 de fevereiro — Cuba interrompe reabastecimento de aeronaves estrangeiras
- 13 de fevereiro — Incêndio na refinaria Ñico López, em Havana
- 20 de fevereiro — New York Times caracteriza a ação como “o primeiro bloqueio efetivo de Cuba desde a Crise dos Mísseis”
- 16 de março — Apagão nacional completo deixa cerca de 11 milhões de pessoas no escuro
- 22 de março — Tanqueiro russo Anatoly Kolodkin atraca em Havana com 700 mil barris
- 30 de abril — Segundo navio russo chega à ilha com 100 mil toneladas de cru
- 3 de maio — UNE registra déficit recorde de 1.440 MW no horário de pico

A noite em que 11 milhões de cubanos ficaram no escuro
O colapso da grade nacional aconteceu em 16 de março de 2026. A causa imediata, segundo a UNE, foi a parada não programada de uma unidade da termoelétrica de Nuevitas, na província de Camagüey.
O sistema, já operando com folga mínima, não absorveu a perda. O resultado foi um apagão total que deixou aproximadamente 11 milhões de pessoas sem energia, segundo a NPR.
A restauração foi gradual. Por volta da segunda-feira seguinte, equipes haviam reativado cinco hospitais em Havana e cerca de 5% dos clientes da capital, ou 42 mil pontos. Outros 72 mil clientes voltaram ao sistema no domingo de manhã.
Foi o terceiro apagão nacional do mês. O segundo veio em 22 de março — e, por trás de cada um, o mesmo problema de fundo.
O vice-ministro de Energia e Minas afirmou na ocasião que o país estava “há três meses sem receber suprimentos de diesel, fuel oil, gasolina, querosene de aviação ou GLP”.
A grade cubana já era frágil antes do bloqueio. Décadas de subinvestimento e dependência de equipamentos antigos, parte ainda da era soviética, fizeram do sistema um candidato natural ao colapso.
O que a Executive Order 14380 fez foi cortar a margem de segurança que ainda restava.

O incêndio na refinaria Ñico López e a vulnerabilidade do sistema
Em 13 de fevereiro de 2026, fumaça preta cobriu Havana. Um incêndio teve início em um armazém da refinaria Ñico López, principal unidade de processamento de combustível da capital.
Foi extinto sem feridos, segundo nota oficial do Ministério de Energia e Minas. A causa permanece sob investigação, conforme reportagem da Al Jazeera.
O detalhe geográfico é relevante. A refinaria fica próxima ao porto de Havana, no ponto onde, no dia do incidente, dois petroleiros estavam ancorados.
Não houve relato de risco direto às embarcações, mas o episódio expôs a vulnerabilidade do sistema de armazenagem cubano em meio à pressão importada de fora.
A Ñico López responde por parte significativa da gasolina e do diesel processados em Cuba. Uma interrupção prolongada teria efeito em cascata sobre transporte público, abastecimento e geração elétrica.
Mesmo a parada parcial, naquele momento, agravou a logística doméstica.

A volta da Rússia ao Caribe: o tanqueiro Anatoly Kolodkin
Em 22 de março de 2026, o tanqueiro russo Anatoly Kolodkin atracou em Havana com 700 mil barris de petróleo cru. Era o primeiro carregamento significativo desde a paralisação das remessas mexicanas.
A Rússia rompeu o bloqueio marítimo dos Estados Unidos em uma operação que foi acompanhada à distância pela Guarda Costeira americana, sem intercepção.
O movimento se repetiu em 30 de abril, quando um segundo navio russo chegou à ilha com 100 mil toneladas de cru.
Em pouco mais de cinco semanas, Moscou voltou a aparecer como ator energético no Caribe — papel que, na Guerra Fria, foi exercido pela União Soviética e que Cuba viu reduzido após o colapso da URSS, em 1991.
A presença russa altera a equação geopolítica do bloqueio. A Casa Branca, ao não interceptar diretamente os navios, sinaliza que prefere atuar pelo mecanismo tarifário e não pela ação militar.
Há, no entanto, um custo simbólico: cada tanqueiro russo que atraca em Havana é um indicador de que o cerco não é hermético.

O bloqueio de 2026 não é o bloqueio de 1962
A frase do New York Times evoca um precedente histórico forte. Em outubro de 1962, durante 13 dias, o presidente John F. Kennedy ordenou uma “quarentena” naval em torno de Cuba para impedir a chegada de novos mísseis soviéticos.
Era um bloqueio militar, não econômico, e levou o mundo à beira de um conflito nuclear.
O que aconteceu em 2026 tem natureza diferente. Não há porta-aviões cercando a ilha, nem destroyers em alerta.
O instrumento é uma ordem executiva publicada pela Casa Branca e seu mecanismo são tarifas comerciais. O alvo, porém, é o mesmo: estrangular o acesso de Havana a recursos críticos do exterior.
A duração também separa os dois eventos. A quarentena de 1962 durou 13 dias e terminou com um acordo Kennedy–Kruschev que retirou os mísseis em troca da garantia de que os Estados Unidos não invadiriam Cuba.
O bloqueio de 2026 já passa de cinco meses, sem prazo definido para encerramento.
Há ainda uma diferença geopolítica. Em 1962, a confrontação era bipolar — Washington contra Moscou.
Em 2026, a peça central é tarifária e atinge não apenas a Rússia, mas qualquer fornecedor terceiro, incluindo aliados próximos como o México. A força do mecanismo está justamente em sua amplitude.
O que diz a ONU e o diálogo silencioso entre Havana e Washington
A Executive Order 14380 foi alvo de manifestação dos especialistas em direitos humanos das Nações Unidas. Em comunicado conjunto, condenaram o decreto.
Segundo a avaliação dos peritos, o bloqueio “ameaça o abastecimento alimentar de Cuba e perturba os sistemas de água e os hospitais da ilha”. O texto foi divulgado pelo Ministério de Relações Exteriores cubano.
O presidente Miguel Díaz-Canel encaminhou uma carta-vídeo à II Conferência sobre Medidas Coercitivas Unilaterais, em Genebra. A mensagem foi endereçada ao Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, e à Relatora Especial sobre Medidas Coercitivas Unilaterais, Alena Douhan.
Na carta, Díaz-Canel classificou o bloqueio como “punição coletiva prolongada”.
Em paralelo aos pronunciamentos públicos, há um canal mais discreto. Em 13 de março, o próprio Díaz-Canel confirmou diálogos diretos entre delegações de Havana e Washington.
No mesmo dia, o governo cubano anunciou a libertação de 51 presos políticos. Em 3 de abril, esse número foi ampliado para mais de 2 mil libertações.
O encontro entre representantes dos dois governos aconteceu em 21 de abril. A pauta cubana é a suspensão da Executive Order. A pauta americana, ainda não divulgada oficialmente, gira em torno da reforma política e econômica da ilha.

O que pode acontecer agora — e o paralelo brasileiro
Os cenários para os próximos meses se distribuem entre três caminhos possíveis.
O primeiro é o de aprofundamento do bloqueio, com novas tarifas direcionadas a fornecedores específicos e ampliação do alcance do decreto sobre derivados de petróleo.
Esse foi o caminho seguido em sanções comparáveis aplicadas ao Irã ao longo da última década.
O segundo é o de uma negociação ampla. Já há canais ativos entre Havana e Washington, e a libertação de mais de 2 mil presos políticos cubanos sugere disposição para um acordo mais amplo.
O terceiro é o de uma guerra comercial regional, com aliados americanos resistindo às tarifas secundárias e cobrando exceções.
O paralelo brasileiro ajuda a dimensionar o que está em jogo. Em 2022, quando a guerra na Ucrânia desorganizou o mercado global de diesel, o Brasil precisou diversificar fornecedores às pressas e absorver custos elevados.
Mas tinha alternativas comerciais e capacidade portuária para fazê-lo. Cuba, sem produção interna suficiente e sem acesso ao mercado financeiro internacional, não tem essa flexibilidade.
É aí que o paralelo encontra seu limite. Quando o Brasil ficou sem diesel russo no auge da guerra, a saída foi importar de outras rotas.
Cuba, sem essa flexibilidade, ficou refém de quem se atreve a furar o bloqueio. Até onde vai a tolerância de Washington a esse jogo de gato e rato decide o ritmo dos próximos meses na ilha.
O bloqueio é controverso. Para a Casa Branca, Cuba representa uma ameaça à segurança nacional, conforme texto da Executive Order 14380.
Para o presidente Miguel Díaz-Canel, é “punição coletiva prolongada”, caracterização que repetiu em carta-vídeo enviada à ONU. Especialistas em sanções debatem se o efeito real será mudança política ou agravamento humanitário.
O que parece claro é que, 64 anos depois da quarentena naval de John F. Kennedy, Washington voltou a fechar o cerco a Havana — agora sem precisar mover um único navio de guerra.

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