Bituca de cigarro reciclada já foi reaproveitada em centenas de milhões de unidades e gera materiais para papel, artesanato e construção civil.
Uma iniciativa desenvolvida em Votorantim, no interior de São Paulo, vem mostrando que um dos resíduos mais descartados no mundo pode ganhar uma nova utilidade. A empresa Poiato Recicla já reaproveitou mais de 800 milhões de unidades de bituca de cigarro coletadas em diferentes regiões do país. O material, que normalmente levaria anos para se decompor e poderia contaminar o meio ambiente, passa por um processo industrial que o transforma em uma massa de celulose utilizada em diversos projetos.
Segundo o g1, a operação reúne mais de 9 mil pontos de coleta espalhados pelo Brasil e surgiu a partir de um investimento superior a R$ 1 milhão realizado pelo empresário Marcos Poiato. O objetivo foi criar uma solução para um problema ambiental frequentemente ignorado pela população: o descarte inadequado dos restos de cigarro.
Como a bituca de cigarro é transformada em matéria-prima?
Ao chegar à unidade de reciclagem, o resíduo passa por uma série de etapas destinadas a remover impurezas e eliminar componentes tóxicos.
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O procedimento começa com o cozimento das bitucas em grandes recipientes. Durante essa fase, substâncias presentes no tabaco são separadas do material principal. Em vez de ser descartada, a água utilizada segue para cooperativas especializadas em tratamento de resíduos líquidos.

Na sequência, ocorre um processo de limpeza repetido diversas vezes. Segundo Marcos Poiato, a intenção é garantir que qualquer vestígio remanescente seja removido.
“São três lavagens. Aqui, a finalidade é que, se ainda houver um resíduo contido nela, ele vai ser eliminado”, explicou o empresário.
Após a higienização, o material é seco, tratado e prensado. Cerca de 24 horas depois, surge o produto final: discos de celulose que servem como base para novas aplicações.
O impacto ambiental do descarte inadequado
A relevância da iniciativa está diretamente ligada ao potencial poluidor desse tipo de resíduo. Quando descartada em ruas, calçadas, praias ou áreas verdes, a bituca de cigarro pode permanecer no ambiente por até 15 anos. Durante esse período, libera substâncias que atingem o solo e também podem alcançar cursos d’água.
Foi justamente essa realidade que motivou Marcos Poiato a estudar alternativas para o reaproveitamento do material. Segundo ele, muitas pessoas não associam o ato de jogar uma bituca no chão às consequências ambientais geradas posteriormente.
“Eu percebia que as pessoas fumavam e jogavam a bituca no chão sem entender que a responsabilidade pelo resíduo também era delas”, afirmou.
O que pode ser produzido com a bituca de cigarro reciclada?
Depois de concluído o processamento, a massa obtida pode ser utilizada em diferentes segmentos.
Entre as aplicações já desenvolvidas estão:
- Papel reciclado;
- Produtos de papelaria;
- Embalagens;
- Peças artesanais;
- Esculturas;
- Projetos ligados à construção civil.
De acordo com a empresa, apenas 10 bitucas são suficientes para produzir uma folha de papel reciclado. Parte desse material também é enviada para oficinas artísticas, instituições beneficentes e artesãos.
Segundo Marcos Poiato, basta misturar a massa com água para obter uma polpa semelhante à utilizada na fabricação convencional de papel reciclado.
Uma das linhas de pesquisa mais promissoras envolve o aproveitamento da celulose produzida a partir das bitucas em obras de construção civil.
O trabalho é realizado em parceria com pesquisadores que buscam ampliar a resistência do material para novas aplicações. Os estudos iniciais indicam resultados relevantes.
Segundo o fundador da iniciativa, os testes apontam para uma redução de até 43% na utilização de materiais tradicionais, além de uma economia situada entre 35% e 40% nos custos de determinadas construções.
“Os resultados preliminares mostram redução de até 43% no uso desses materiais e uma economia entre 35% e 40% nos custos das obras”, destacou.
Projetos já saíram da fase experimental
O uso da massa reciclada não ficou restrito aos laboratórios. A empresa informa que duas pistas de skate já foram construídas com participação do material reaproveitado.
Além disso, uma residência projetada pelo arquiteto George Rotatori está sendo utilizada para avaliar a durabilidade da tecnologia em condições reais.
A construção reúne paredes, pisos e cobertura produzidos com a massa derivada das bitucas recicladas. Segundo a empresa, a obra teve início há cerca de um ano e a previsão é de conclusão ainda em 2026.
Localizada no bairro Parque Jataí, em Votorantim, a usina recebe diariamente recipientes contendo resíduos coletados em diversas cidades brasileiras. A capacidade atual permite reciclar aproximadamente 90 quilos de bitucas por dia.
Enquanto o material chega de diferentes regiões do país, a celulose produzida segue para parceiros envolvidos em pesquisas, projetos artísticos e iniciativas ligadas à construção civil.
A operação conta com uma equipe formada por 12 profissionais da área ambiental, que atuam em horário comercial.
Para Marcos Poiato, a profissionalização do processo é um dos fatores responsáveis pelo crescimento da iniciativa e pela capacidade de atender organizações interessadas em soluções sustentáveis.
Participação da população é considerada essencial
O sistema depende diretamente da colaboração de fumantes e da correta destinação dos resíduos. Quem deseja contribuir pode utilizar os coletores distribuídos em milhares de pontos espalhados pelo Brasil. As localidades podem ser consultadas nos canais oficiais da iniciativa.
Ao ampliar a coleta e o reaproveitamento desse material, o projeto busca transformar um resíduo frequentemente associado à poluição em uma matéria-prima capaz de gerar novos produtos e reduzir impactos ambientais em diferentes setores da economia.
Com informações do g1.


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