Dois estudos conseguiram alterar letras específicas do DNA embrionário com menos danos cromossômicos, porém erros fora do alvo, mosaicismo, limitações legais e preocupações éticas mantêm a tecnologia distante de aplicações em gestações humanas
A edição genética de embriões humanos alcançou precisão inédita em dois novos estudos com material doado por pacientes de fertilização in vitro. A técnica conseguiu modificar letras específicas do DNA com menos danos cromossômicos, mas alterações indesejadas e células não editadas ainda impedem qualquer aplicação clínica segura.
Tratamentos de edição genética já são utilizados para combater doenças hereditárias graves. Essas terapias podem aliviar sintomas e salvar vidas, mas geralmente modificam apenas células do paciente tratado.
Isso significa que a mutação responsável pela doença ainda pode ser transmitida aos filhos. Para impedir essa herança, seria necessário alterar o DNA de óvulos, espermatozoides ou embriões, processo conhecido como edição da linhagem germinativa humana.
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A prática é considerada perigosa pelo consenso científico e está submetida a restrições legais em 70 países.
Mesmo assim, os novos resultados indicam que algumas das limitações técnicas podem estar sendo reduzidas.
Amander Clark, professor de biologia molecular, celular e do desenvolvimento da Universidade da Califórnia em Los Angeles, afirmou que anteriormente considerava inviável editar geneticamente embriões humanos.
Segundo Clark, que não participou dos estudos, o novo trabalho recupera a possibilidade de que a edição genética terapêutica possa ser utilizada futuramente em embriões produzidos por fertilização in vitro.
Os próprios pesquisadores, porém, destacam que ainda existem obstáculos importantes. Entre eles estão o mosaicismo, quando apenas parte das células recebe a alteração planejada, e as modificações fora do alvo, que atingem regiões não desejadas do DNA.

Edição genética de embriões humanos usa técnica mais precisa que o CRISPR tradicional
A ferramenta CRISPR-Cas9 transformou a pesquisa científica ao permitir que pesquisadores alterassem genes de organismos vivos.
Em 2020, dois dos cientistas envolvidos no desenvolvimento da tecnologia receberam o Prêmio Nobel de Química.
Em 2023, a Food and Drug Administration dos Estados Unidos aprovou as duas primeiras terapias genéticas destinadas ao tratamento da anemia falciforme, doença hereditária grave que reduz a expectativa de vida.
Apesar dos avanços, o CRISPR-Cas9 convencional apresenta limitações quando aplicado aos embriões. Para editar o DNA, a ferramenta produz uma quebra nas duas fitas da molécula no ponto escolhido.
Estudos anteriores mostraram que esse corte pode provocar alterações extensas e não planejadas. Entre os possíveis resultados está até mesmo a perda completa de um cromossomo.
Esse risco foi uma das razões para a condenação internacional do trabalho do pesquisador chinês He Jiankui.
Em 2018, ele anunciou o nascimento de duas meninas provenientes de embriões modificados com CRISPR-Cas9.
He afirmou que havia alterado os embriões para que as crianças fossem resistentes ao HIV. Em 2019, foi condenado a três anos de prisão. Posteriormente, ele foi libertado.
Os novos estudos utilizaram uma versão mais recente da tecnologia, chamada edição de bases. Em vez de cortar as duas fitas do DNA, a técnica consegue substituir uma única letra, também chamada de base ou nucleotídeo.
O genoma humano possui aproximadamente 3 bilhões de pares de bases. Alterar apenas o ponto desejado reduz a possibilidade de grandes danos cromossômicos, embora não elimine completamente outros tipos de erro.
A edição de bases já havia sido aplicada em tratamentos experimentais. Em 2022, a técnica foi usada para modificar células imunológicas de uma adolescente britânica com um tipo de leucemia para o qual as demais opções haviam sido esgotadas.
Outras oito crianças e dois adultos também receberam o tratamento. No ano passado, médicos utilizaram a edição de bases para tratar um bebê que nasceu com deficiência grave de CPS1, uma doença genética rara e perigosa.
Estudo investiga gene decisivo para formação do feto e da placenta
Uma das pesquisas foi conduzida por Kathy Niakan, professora de fisiologia da reprodução e diretora do Centro Loke de Pesquisa do Trofoblasto, na Universidade de Cambridge.
A equipe utilizou embriões humanos nos primeiros estágios de desenvolvimento. O material havia sido doado para pesquisa por pessoas submetidas a tratamentos de fertilização in vitro.
O objetivo foi estudar o NANOG, gene fundamental para o desenvolvimento embrionário. Seu nome faz referência a Tír na nÓg, local da mitologia celta conhecido como terra da eterna juventude.
Os pesquisadores descobriram que o NANOG possui papel essencial na formação das primeiras células embrionárias que posteriormente darão origem ao feto e à placenta.
O estudo foi publicado em 25 de junho na revista científica Nature. Niakan afirmou que a edição de bases representa um avanço significativo em comparação com o CRISPR-Cas9 convencional.
Segundo a pesquisadora, substituir precisamente um único par de nucleotídeos dentro de um genoma formado por aproximadamente 3 bilhões de pares de bases representa uma capacidade técnica extraordinária.
A aplicação também permitiu investigar etapas muito iniciais da vida humana. Esse tipo de pesquisa pode ajudar a identificar por que determinados embriões produzidos por fertilização in vitro deixam de se desenvolver.
Helen O’Neill, professora associada de genética reprodutiva e molecular do Instituto de Saúde da Mulher da University College London, destacou o valor científico dessas análises.
Segundo ela, a edição genômica pode ajudar a compreender por que embriões aparentemente adequados não conseguem se implantar, interrompem seu desenvolvimento ou não avançam após as primeiras etapas.
O’Neill não participou dos estudos. Para a pesquisadora, o debate não deve considerar apenas a possibilidade de nascimento de crianças geneticamente modificadas, pois a tecnologia também possui utilidade científica e clínica.
Segundo experimento modificou genes ligados ao colesterol e à hemoglobina
Outro estudo foi conduzido por Dietrich Egli, professor associado de biologia celular do desenvolvimento da Universidade Columbia. A equipe inseriu uma de duas mutações genéticas em óvulos recém-fertilizados.
Uma das alterações atingiu o gene PCSK9, responsável por regular o colesterol. A outra teve como alvo o HBG, que codifica a forma fetal da hemoglobina, proteína envolvida no transporte de oxigênio.
Egli escolheu esses genes porque ambos são alvos bem estudados em procedimentos de edição genética não hereditária.
O pesquisador informou que o estudo foi aceito condicionalmente por um periódico científico revisado por pares.
Nos dois trabalhos, a edição de bases reduziu a ocorrência das grandes anomalias cromossômicas observadas em experimentos anteriores com o CRISPR-Cas9 tradicional.
Ainda assim, os resultados não significam que a técnica esteja pronta para uso em gestações. Os cientistas encontraram problemas capazes de produzir consequências em todas as células formadas a partir do embrião.
O primeiro deles foi o mosaicismo. Em alguns casos, a modificação planejada apareceu em determinadas células, mas não em todas, criando embriões com diferentes versões genéticas.
O segundo problema foram os efeitos fora do alvo. Nesses casos, a ferramenta alterou genes que não deveriam ter sido modificados.
Esse risco é especialmente relevante na edição genética de embriões humanos, porque as células embrionárias dão origem aos diferentes tecidos e órgãos do corpo.
Egli comparou o avanço a uma longa escadaria, formada por muitos degraus e possíveis intervalos. Para ele, os trabalhos representam apenas alguns passos iniciais em uma trajetória ainda distante da aplicação clínica.
O pesquisador afirmou que o progresso pode ser analisado para discutir as vantagens e as desvantagens de continuar desenvolvendo a tecnologia.
Segurança, legislação e ética ainda limitam qualquer aplicação clínica
A pesquisa com embriões humanos permanece rigorosamente controlada na maioria dos países. Em geral, o desenvolvimento em laboratório é permitido somente até 14 dias depois da criação do embrião.
Além dos problemas técnicos, a possibilidade de alterar características hereditárias reacende discussões sobre bebês geneticamente modificados e sobre o uso da tecnologia para selecionar características consideradas desejáveis.
Laurie Zoloth, professora de religião e ética da Universidade de Chicago, afirmou que a edição de embriões deve continuar proibida para reprodução enquanto os riscos permanecerem sem solução.
Ela destacou que o mosaicismo continua presente, que os efeitos de longo prazo são desconhecidos e que não seria possível testar uma gravidez sem envolver uma gestação real e uma criança.
Zoloth lembrou que já existem recursos para reduzir a transmissão de anomalias genéticas, como a triagem antes da concepção, os exames realizados durante a gravidez e os testes embrionários anteriores à implantação na FIV.
Ao mesmo tempo, ela reconheceu que determinadas doenças hereditárias graves podem manter o debate aberto. Um exemplo mencionado foi a doença de Tay-Sachs, distúrbio neurológico fatal que surge nos primeiros meses de vida.
O problema, segundo a especialista, seria estabelecer uma fronteira clara entre tratamento e aprimoramento. A tecnologia poderia deixar de ser utilizada apenas contra doenças e passar a servir à seleção de características.
Zoloth relacionou esse risco ao chamado “problema Gattaca”, referência ao filme de 1997 que retrata uma sociedade organizada em torno da seleção e da suposta perfeição genética.
Ela também questionou se o acesso desigual à tecnologia poderia ampliar diferenças sociais, permitindo que famílias com mais recursos oferecessem vantagens genéticas aos filhos.
Uma pesquisa sobre a opinião pública em quatro países mostrou apoio majoritário no Reino Unido, Holanda e Espanha ao uso da edição genômica em embriões para permitir uma gravidez sem uma condição grave ou potencialmente fatal.
Na Itália, o apoio ficou em 46%. Os resultados indicam que, além da segurança médica, uma eventual mudança nas regras dependeria de debates públicos, éticos e legais.
Zoloth afirmou que proibir completamente a investigação científica também apresenta riscos. Para ela, estabelecer limites claros pode proteger simultaneamente a pesquisa e a sociedade.
Esta matéria foi elaborada com base em informações dos estudos conduzidos por equipes da Universidade de Cambridge e da Universidade Columbia, incluindo dados publicados na revista Nature, com números e declarações preservados conforme o material consultado.

