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Cientistas coletaram bactérias do fundo do oceano e descobriram que 80% delas são completamente invisíveis para o sistema imunológico humano — e isso pode mudar o tratamento do câncer

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Escrito por Douglas Avila Publicado em 23/04/2026 às 19:15 Atualizado em 23/04/2026 às 21:52
Colônias de bactérias do fundo do mar em placa de Petri fluorescente
Mais de 80% das bactérias do fundo do mar coletadas pelo Schmidt Ocean Institute são invisíveis ao sistema imunológico humano
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Cientistas coletaram bactérias do fundo do oceano e descobriram que 80% delas são completamente invisíveis ao sistema imunológico humano — e isso pode revolucionar o tratamento do câncer

No fundo do oceano, a milhares de metros de profundidade, existem bactérias do fundo do mar que evoluíram em isolamento total durante milhões de anos.

Quando pesquisadores do Schmidt Ocean Institute coletaram essas bactérias e as expuseram ao sistema imunológico de mamíferos, descobriram algo extraordinário: mais de 80% delas eram completamente invisíveis ao sistema de defesa do corpo.

Em outras palavras, essas bactérias do fundo do mar possuem propriedades “imuno-silenciosas” — não atacam o corpo, não o beneficiam, e simplesmente não são detectadas pelo sistema imune.

Consequentemente, essa característica única abre uma porta revolucionária para a medicina: usar componentes dessas bactérias como veículos para entregar drogas anticâncer diretamente aos tumores — sem que o sistema imunológico as intercepte.

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Como as bactérias do fundo do mar enganam o sistema imunológico

O sistema imunológico humano evoluiu ao longo de milhões de anos para reconhecer e atacar qualquer organismo invasor — vírus, bactérias, fungos, parasitas.

Porém, as bactérias do fundo do mar nunca tiveram contato com mamíferos. Dessa forma, seus componentes moleculares são tão diferentes de tudo que o sistema imune conhece que simplesmente passam despercebidos.

De acordo com o Schmidt Ocean Institute, os pesquisadores testaram dezenas de micro-organismos coletados em profundidades abissais e descobriram que mais de 80% possuem propriedades imuno-silenciosas.

Na prática, é como se essas bactérias usassem uma camuflagem natural que as torna invisíveis para as defesas do corpo humano.

O que bactérias do fundo do mar têm a ver com câncer

A aplicação mais promissora da descoberta está no tratamento oncológico.

Além disso, um dos maiores desafios da quimioterapia é que as drogas atacam tanto células cancerígenas quanto saudáveis — causando efeitos colaterais devastadores como perda de cabelo, náusea e imunossupressão.

Dessa forma, se cientistas conseguirem empacotar drogas anticâncer dentro de componentes dessas bactérias do fundo do mar, poderiam criar um sistema de entrega que passa pelo corpo sem ser detectado — e libera a droga apenas quando chega ao tumor.

Por consequência, o tratamento seria mais preciso, com menos efeitos colaterais e potencialmente mais eficaz.

Essa linha de pesquisa se conecta a avanços recentes na compreensão de como o corpo humano funciona de formas que a medicina ainda não explorava, como a descoberta de que médicos cortaram por séculos um tecido sem saber que era um órgão.

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Vacinas e imunoterapia: a outra aplicação das bactérias do fundo do mar

Além da entrega de drogas, as propriedades imuno-silenciosas abrem caminho para outro campo: o desenvolvimento de vacinas e imunoterapias.

Em primeiro lugar, componentes bacterianos que não provocam reação imune podem ser usados como adjuvantes — substâncias que potencializam a resposta a uma vacina sem causar inflamação excessiva.

Além disso, a capacidade de “passar invisível” pelo sistema imune pode ser usada para reprogramar células imunológicas contra tumores — uma abordagem já testada em laboratório com bactérias de outras origens.

A diferença é que as bactérias do fundo do mar oferecem um repertório molecular completamente novo, nunca antes acessado pela medicina.

Da mesma forma que o tubarão-da-Groenlândia passou 400 anos sem desenvolver câncer e está ajudando cientistas a entender a resistência ao câncer, as bactérias abissais podem conter respostas que a superfície da Terra nunca ofereceu.

A escala do que o fundo do mar esconde — e que a medicina nunca acessou

Para ter uma ideia da dimensão dessa descoberta, considere que os oceanos cobrem 71% da superfície da Terra. Além disso, mais de 80% do fundo oceânico nunca foi explorado — nem fotografado.

Consequentemente, as bactérias do fundo do mar testadas pelo Schmidt Ocean Institute representam apenas uma fração microscópica do que existe nas profundezas.

Na prática, se 80% dos micro-organismos de uma única expedição possuem propriedades imuno-silenciosas, a quantidade total de compostos potencialmente úteis para a medicina é incalculável.

De fato, estimativas sugerem que existam mais de 10 milhões de espécies microbianas no oceano — a maioria jamais cultivada em laboratório. Dessa forma, cada expedição ao fundo do mar pode revelar moléculas que a indústria farmacêutica nunca imaginou.

A corrida farmacêutica pelo fundo do oceano

Grandes empresas farmacêuticas já começaram a olhar para o oceano profundo como fonte de novos medicamentos. Por exemplo, compostos derivados de organismos marinhos já deram origem a drogas aprovadas para tratamento de câncer, dor crônica e infecções resistentes.

Entretanto, a maioria desses compostos veio de águas rasas — corais, esponjas costeiras e algas. As bactérias do fundo do mar representam um território completamente inexplorado pela indústria.

Além disso, o fato de que esses micro-organismos evoluíram sob pressões extremas — centenas de atmosferas, sem luz, em temperaturas de 1-4°C — significa que suas enzimas e proteínas podem funcionar em condições onde compostos convencionais falham.

Na prática, isso abre possibilidades para drogas mais estáveis, que precisam de menos refrigeração e que funcionam em ambientes hostis do corpo humano — como o interior de tumores sólidos, onde a acidez e a falta de oxigênio destroem muitos medicamentos antes de agirem.

Mesmo assim, a distância entre uma descoberta em laboratório e um medicamento aprovado é enorme — geralmente 10 a 15 anos e bilhões de dólares. Portanto, as bactérias do fundo do mar não vão curar o câncer amanhã. Porém, podem ter acabado de abrir uma porta que a medicina nem sabia que existia.

As limitações que a ciência reconhece — e o caminho que falta percorrer

Apesar do potencial, a pesquisa ainda está em estágio inicial.

Os testes foram realizados em laboratório com células de mamíferos, não em humanos. Portanto, a eficácia e segurança dessas aplicações precisam de anos de ensaios clínicos antes de chegar a qualquer paciente.

Além disso, a coleta de bactérias do fundo do mar é cara e logisticamente complexa — exige expedições com navios e equipamentos de pesquisa de alto custo.

Mesmo assim, o fato de que 80% dos micro-organismos testados possuem a propriedade imuno-silenciosa sugere que o fundo do oceano pode ser o maior laboratório farmacêutico inexplorado do planeta.

A pergunta que a descoberta levanta é provocadora: se o fundo do mar esconde moléculas capazes de enganar o sistema imunológico humano — quantas curas estão enterradas a 4.000 metros de profundidade esperando para serem encontradas?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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