Reclassificado após mais de 100 anos de erro anatômico, o mesentério passou de tecido fragmentado a órgão contínuo após estudo publicado no The Lancet por equipe irlandesa — e a ciência ainda não sabe ao certo para que ele serve além de segurar o intestino
Durante séculos, cirurgiões abriram cavidades abdominais, cortaram e manipularam uma membrana que conecta o intestino à parede do abdômen. Nenhum deles suspeitou que estavam diante de um órgão inteiro. O mesentério, agora reconhecido como o mais novo órgão do corpo humano, passou mais de 100 anos sendo descrito incorretamente pela anatomia clássica.
A reclassificação oficial veio em estudo publicado no final de 2016 na revista The Lancet Gastroenterology & Hepatology. A pesquisa, liderada pelo cirurgião irlandês J. Calvin Coffey, professor da Universidade de Limerick e do University Hospital Limerick, mostrou que o mesentério não é fragmentado. Pelo contrário: trata-se de uma estrutura contínua e única.
“A descrição anatômica feita há mais de 100 anos está incorreta. Este órgão está longe de ser fragmentado. É uma estrutura simples e contínua”, afirmou Coffey, conforme reportagem do G1. A descoberta colocou o mesentério como o 80º órgão humano reconhecido oficialmente.
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O que é o mesentério e por que agora ele é um órgão
O mesentério é uma dobra dupla do peritônio, a membrana que reveste internamente a cavidade abdominal. Essa dobra fixa o intestino à parede do abdômen, mantém as vísceras digestivas no lugar e permite a irrigação sanguínea.
Antes da reclassificação, anatomistas tratavam o mesentério como um conjunto de estruturas separadas, fragmentos avulsos do peritônio sem conexão entre si. Assim, a descrição clássica excluía a possibilidade de que fosse um órgão independente.
Os exames microscópicos realizados pela equipe de Coffey entre 2012 e 2016 provaram o contrário. A membrana é contínua do início ao fim do intestino, como um leque aberto.
- Função conhecida: fixar o intestino à parede abdominal e permitir irrigação sanguínea
- Função real: ainda desconhecida pela ciência — “não fazemos a menor ideia”, diz a Superinteressante
- Localização: dentro da cavidade abdominal, ligada ao intestino delgado e grosso
- Formato: dobra dupla do peritônio, contínua como um leque
- Status anterior: tecido fragmentado, sem classificação de órgão por mais de 100 anos

Leonardo da Vinci já o descrevia — mas ninguém percebeu
O mesentério não é uma novidade anatômica no sentido literal. Leonardo da Vinci já o descrevia em seus desenhos de anatomia humana, séculos atrás, como uma estrutura que conectava o intestino à parede abdominal.
Contudo, da Vinci não o classificou como órgão. Gerações seguintes de médicos e anatomistas seguiram a mesma linha. Assim, durante mais de quatro séculos o mesentério permaneceu invisível como órgão — apesar de estar visível em cada cirurgia abdominal realizada no mundo.
Pesquisadores que estudam a história do corpo humano apontam que outros tecidos também levaram décadas para serem reconhecidos. Por exemplo, cientistas descobriram recentemente que microplásticos já invadiram o cérebro humano, uma região antes considerada protegida.

Como Coffey provou que o mesentério é um órgão
O cirurgião J. Calvin Coffey e o coautor Peter O’Leary passaram mais de 4 anos coletando evidências microscópicas. O primeiro resultado apareceu em 2012. A confirmação final saiu em 2016.
A publicação no The Lancet Gastroenterology & Hepatology foi o divisor de águas. A partir dela, livros e currículos de medicina ao redor do mundo atualizaram a lista de órgãos humanos para incluir o mesentério.
“Estabelecemos agora a anatomia e a estrutura do órgão. O próximo passo é saber sua função”, afirma Coffey. E complementa: “Podemos categorizar doenças digestivas relacionadas a este órgão.”
Essa perspectiva anima a comunidade médica. Compreender o mesentério pode abrir portas para diagnosticar anomalias abdominais que hoje não têm explicação e desenvolver técnicas cirúrgicas menos invasivas. Avanços médicos semelhantes, como o novo anticorpo que bloqueia vírus que infecta grande parte da população, mostram como revisões científicas podem transformar a prática clínica.

O que a ciência ainda não sabe sobre o mesentério órgão
A principal ressalva é que a função biológica real do mesentério permanece em grande parte desconhecida. Além de fixar o intestino no lugar, ninguém sabe ao certo quais processos fisiológicos ele coordena.
“Pela desconsideração histórica, a gente não faz ainda a menor ideia de para que serve o mesentério, tirando isso de segurar o intestino no lugar”, nota a Superinteressante.
Coffey defende que o próximo passo é mapear a função do órgão: “Se entendemos sua função, podemos identificar as anomalias, e estabelecer quando há uma doença, ou seja, quando o órgão passe a funcionar de modo anormal.”
Também vale registrar que a reclassificação não significa descoberta de algo fisicamente novo. O mesentério sempre esteve ali, visível em cada cirurgia abdominal. O que mudou foi o entendimento científico sobre sua estrutura: de fragmentos soltos para órgão contínuo.
Até o momento, não existem estudos de acompanhamento publicados após 2016 que detalhem funções específicas confirmadas. Portanto, a comunidade científica aguarda novos dados do grupo de Coffey na Universidade de Limerick para avançar. Para informações detalhadas, vale consultar a reportagem do Correio Braziliense e o material educacional do Mundo Educação.


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