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Cientistas descobriram como engarrafar o vento e o sol dentro de ar transformado em líquido: eles congelam o próprio ar a 196°C negativos até ele encolher 700 vezes, guardam num tanque e o soltam para gerar energia quando a rede precisa

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 08/07/2026 às 06:30
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Bateria de ar líquido, armazenamento de energia, Manchester e Highview Power entram no centro da corrida para guardar energia limpa por horas ou semanas.

Perto de Manchester, na Inglaterra, a britânica Highview Power está erguendo uma usina de armazenamento de energia que troca metais críticos e baterias químicas por um recurso banal, abundante e praticamente infinito: o ar atmosférico. A planta de Carrington foi projetada para usar a tecnologia LAES, sigla em inglês para armazenamento de energia em ar líquido, e virou a principal aposta comercial da empresa para transformar excedentes de energia renovável em eletricidade despachável quando a rede mais precisa.

O projeto foi apresentado pela Highview como a maior usina comercial de ar líquido do mundo em sua categoria. Quando estiver completa, a instalação deverá entregar 300 MWh de armazenamento e 50 MW de potência por seis horas, com capacidade que a empresa diz ser suficiente para atender aproximadamente 480 mil residências, além de prestar serviços de estabilidade à rede elétrica local.

Armazenamento de energia virou o gargalo central da transição renovável

O problema que essa tecnologia tenta resolver é direto. Energia solar e energia eólica não produzem eletricidade no mesmo ritmo em que o consumo acontece, e a ausência de armazenamento em grande escala obriga o sistema a desperdiçar parte da geração limpa ou recorrer a usinas fósseis quando vento e sol falham.

A própria Highview sustenta que o LAES pode guardar energia por períodos que vão de seis horas a várias semanas, preenchendo um espaço que baterias de curta duração nem sempre conseguem cobrir de forma econômica.

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Em 2023, os custos de curtailment na Grã-Bretanha, quando parques eólicos são pagos para reduzir geração e evitar sobrecarga na rede, chegaram a £800 milhões, segundo a The Chemical Engineer, reforçando o tamanho do problema que a tecnologia quer atacar.

Nesse cenário, a lógica é simples e poderosa. Em vez de desperdiçar o excesso de eletricidade renovável, a usina o captura, o converte em ar líquido e o mantém armazenado até que a rede volte a exigir potência firme, estável e limpa.

Como o ar líquido vira bateria para devolver eletricidade à rede

O funcionamento do sistema se apoia em um processo criogênico. O ar ambiente é limpo, seco, comprimido e resfriado até se transformar em líquido, que então passa a ser armazenado em tanques isolados para uso posterior como reserva energética.

highview power liquid air
highview power liquid air – Divulgação

A The Chemical Engineer destaca que a base técnica do sistema é o processo Claude, usado há décadas na liquefação de gases.

A adaptação feita pela Highview foi transformar esse processo industrial em infraestrutura de armazenamento elétrico em escala de rede.

Quando a rede precisa de energia, o ar líquido é bombeado, reaquecido e expandido novamente até virar gás sob alta pressão. Esse fluxo movimenta turbinas e gera eletricidade, sem necessidade de queimar combustível durante a descarga do sistema.

Tecnologia dispensa lítio, dura décadas e pode ser instalada sem depender de montanhas ou barragens

Um dos principais diferenciais do LAES está na matéria-prima. Em vez de depender de lítio, níquel, cobalto ou outras cadeias minerais críticas, o sistema usa o próprio ar, o que amplia o apelo da tecnologia em um momento de pressão crescente sobre suprimentos estratégicos da transição energética.

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A Highview também afirma que seu sistema pode operar sem degradação relevante por 40 a 50 anos, característica importante num mercado em que baterias químicas perdem capacidade ao longo do tempo.

A empresa sustenta ainda que a tecnologia é modular, locável e apta a ser implantada em diferentes regiões, sem a dependência geográfica típica de soluções como hidrelétricas reversíveis.

Outro trunfo é a possibilidade de combinar armazenamento energético com serviços de estabilidade de rede, como suporte de tensão, inércia e resiliência operacional. Isso faz a planta de Carrington ir além da função de “bateria gigante” e a coloca também como peça de infraestrutura elétrica mais ampla.

Projeto de Carrington atraiu £300 milhões e reuniu investidores de peso

A construção de Carrington foi impulsionada por uma rodada de £300 milhões anunciada em 13 de junho de 2024. O aporte foi liderado pelo então UK Infrastructure Bank e pela Centrica, com participação do governo britânico e de investidores como Rio Tinto, Goldman Sachs Power Trading, KIRKBI e Mosaic Capital.

O comunicado da Highview de 2024 dizia que a obra começaria imediatamente e que a instalação seria operacional no início de 2026, com impacto de mais de 700 empregos em construção e cadeia de suprimentos.

Já a FAQ mais recente da empresa informa que a fase 1 da plataforma de Carrington ficará operacional a partir de 2026, enquanto a cerimônia oficial de início das obras foi realizada em 21 de novembro de 2025, com a presença do prefeito da Grande Manchester, Andy Burnham.

Esse histórico mostra que a tecnologia deixou o campo da curiosidade técnica e entrou na etapa de implantação comercial pesada. A presença de capital institucional, utility, governo e grandes investidores privados deu ao projeto um peso que poucas soluções emergentes de armazenamento conseguem reunir tão cedo.

Carrington não surgiu do zero e foi precedida por um demonstrador em Bury

A usina de Carrington não é um salto no escuro. A Highview já havia operado um demonstrador de 5 MW/15 MWh em Bury, também na região de Manchester, que entrou em operação em 2018 como a primeira demonstração em escala de rede da tecnologia de ar líquido.

Esse avanço gradual dá mais consistência ao projeto atual. Em vez de surgir de uma aposta puramente conceitual, Carrington se apoia em uma trajetória técnica construída ao longo de anos, com sucessivos passos de validação e aumento de escala.

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A empresa hoje apresenta Carrington como sua primeira planta comercial de grande porte e como a base de uma expansão futura no Reino Unido e em outros mercados. Isso ajuda a explicar por que o projeto passou a ser tratado como referência mundial no segmento de armazenamento de energia de longa duração.

Vantagens e limites do ar líquido entram no centro do debate energético

A principal força da tecnologia está em sua combinação de longa duração, matéria-prima abundante, vida útil extensa e capacidade de fornecer não apenas energia, mas também suporte operacional à rede. Em sistemas elétricos com participação crescente de renováveis intermitentes, esse conjunto de atributos ganhou valor estratégico.

Mas a tecnologia não é isenta de desafios. A The Chemical Engineer destacou que soluções de longa duração como o LAES tendem a apresentar eficiência de ciclo completo inferior à de baterias de lítio e de fluxo, o que significa perdas maiores no armazenamento e na recuperação da energia.

Ainda assim, a mesma análise ressalta que sistemas como o da Highview compensam parte dessa desvantagem com menor degradação, maior longevidade e capacidade de descarregar toda a energia armazenada.

Se Carrington confirmar em escala comercial o que a empresa promete, o ar líquido poderá deixar de parecer uma ideia exótica para se tornar uma das peças mais relevantes da infraestrutura elétrica da era renovável.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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