Reconophalt transforma plástico, vidro, toner e asfalto velho em pavimento reciclado usado em ruas, rodovias e até aeroportos na Austrália.
A Austrália encontrou uma forma improvável de transformar lixo urbano em infraestrutura: misturar sacolas plásticas, garrafas de vidro, cartuchos de impressora e asfalto velho para produzir um pavimento reciclado usado em ruas, rodovias e até aplicações pesadas. A tecnologia se chama Reconophalt e foi desenvolvida pela Downer como uma alternativa de alto conteúdo reciclado para pavimentação.
O primeiro trecho foi aplicado em 2018, em Craigieburn, no estado de Victoria, em parceria com o Hume City Council e empresas de reciclagem. Segundo o estudo de caso da Municipal Association of Victoria, o projeto desviou de aterros materiais equivalentes a 200 mil sacolas plásticas, 63 mil garrafas de vidro, toner de mais de 4.500 cartuchos usados e 50 toneladas de asfalto recuperado.
Reconophalt troca parte do asfalto convencional por plástico, vidro, toner e pavimento recuperado
O Reconophalt pode incorporar plásticos flexíveis de sacolas e embalagens, vidro descartado, toner de cartuchos de impressora, pavimento asfáltico recuperado, borracha de pneus velhos e agregados reaproveitados de varrição urbana e hidroescavação.
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Na prática, o plástico e o toner entram como modificadores do ligante asfáltico, enquanto o vidro pode substituir parte da areia natural em determinadas formulações. O pavimento recuperado, conhecido como RAP, reaproveita material retirado de estradas antigas.
O resultado é uma fórmula que mantém a lógica do asfalto, mas reduz a dependência de materiais virgens e dá destino de maior valor a resíduos difíceis de reciclar.
Primeiro trecho em Craigieburn virou vitrine de estrada feita com lixo urbano reciclado
O marco inicial ocorreu em Rayfield Avenue, Craigieburn, no norte de Melbourne, em maio de 2018. O projeto foi apresentado como uma iniciativa pioneira na Austrália por usar resíduos pós-consumo em uma aplicação real de pavimentação urbana.

Em um único trecho, foram usados materiais equivalentes a 200 mil sacolas plásticas, 63 mil garrafas de vidro, toner de mais de 4.500 cartuchos e 50 toneladas de RAP, o asfalto recuperado de pavimentos antigos.
O material pode aumentar a resistência à fadiga e reduzir deformações no pavimento
Segundo a Downer, os materiais reciclados combinados com o desenho da mistura aumentam a vida à fadiga do Reconophalt, melhorando durabilidade e resistência a trincas.
A empresa afirma que testes de desempenho em alguns produtos indicaram até 65% de melhora na vida à fadiga e maior resistência à deformação sob tráfego pesado.

A companhia também afirma que o produto pode aumentar a vida útil do pavimento em cerca de 15%, elevar o volume de tráfego suportado em torno de 20% e permitir redução de espessura de aproximadamente 10%, dependendo da aplicação e da formulação.
Governo australiano destaca uso em calçadas, áreas recreativas, rodovias e até aeroportos
O Departamento de Mudança Climática, Energia, Meio Ambiente e Água da Austrália descreve o Reconophalt como um produto que incorpora asfalto reciclado, plástico reciclado, vidro reciclado e TonerPlas, um aditivo feito com toner e plástico.
No material oficial, representantes da Downer afirmam que algumas formulações podem ser usadas em aplicações leves, como calçadas e áreas recreativas, e outras em aplicações pesadas, como rodovias e aeroportos.
A mesma fonte informa que a empresa consegue ajustar proporções dos aditivos para alterar propriedades do pavimento, como resistência de carga, resistência a combustível e flexibilidade.
Projeto da rodovia M80 desviou 29,3 milhões de sacolas plásticas e 830 mil cartuchos de impressora de aterros
A tecnologia saiu de trechos municipais e chegou a obras maiores. No upgrade da M80, no norte de Melbourne, a Downer afirma que o Reconophalt foi usado em todas as camadas do pavimento, no primeiro projeto de freeway australiano com essa aplicação.
Segundo a empresa, a obra desviou de aterros o equivalente a 29,3 milhões de sacolas plásticas, 830 mil cartuchos de impressora e 13 mil toneladas de asfalto recuperado. A companhia também afirma que isso reduziu emissões em mais de 339 toneladas de CO₂, valor comparado por ela a tirar 140 carros das ruas por um ano.
Esse exemplo mostra a diferença de escala: o que começou como rua experimental passou a ser aplicado em infraestrutura viária de tráfego muito mais intenso.
Produto passou por testes ambientais antes de ser aprovado em Nova Gales do Sul
O uso de resíduos em estradas levanta perguntas inevitáveis sobre microplásticos, lixiviação de substâncias químicas e contaminação ambiental.
A Downer afirma que o Reconophalt passou por 18 meses de testes dentro de um programa desenvolvido com a autoridade ambiental de Nova Gales do Sul.
Segundo a empresa, esses testes analisaram riscos como liberação de microplásticos e lixiviação de BPA, antes da aprovação por meio de uma ordem e isenção de recuperação de recursos da NSW EPA.
Asfalto reciclado mostra como ruas podem virar destino nobre para lixo difícil de reaproveitar
O ponto mais forte do Reconophalt é transformar resíduos de baixo valor em infraestrutura de longa vida útil. Sacolas plásticas, embalagens flexíveis, toner de impressoras, vidro quebrado e asfalto velho deixam de ser apenas problema de descarte e passam a compor uma estrada nova.
A tecnologia também revela uma mudança de mentalidade: em vez de reciclar apenas para produzir objetos pequenos e de baixo valor, a Austrália passou a testar resíduos urbanos dentro de uma das maiores consumidoras de material do planeta, a construção de estradas.
O Reconophalt não é uma estrada “sem petróleo” nem uma substituição total do asfalto tradicional. Mas mostra algo poderoso: parte do lixo que iria para aterros já pode voltar para a cidade como pavim


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