1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Até 132 milhões de pessoas a mais podem acabar abaixo da linha do mar, alerta estudo da Nature que revisou 385 pesquisas e concluiu que 9 em cada 10 subestimaram o nível real do oceano nas costas do mundo
Tempo de leitura 7 min de leitura Comentários 1 comentário

Até 132 milhões de pessoas a mais podem acabar abaixo da linha do mar, alerta estudo da Nature que revisou 385 pesquisas e concluiu que 9 em cada 10 subestimaram o nível real do oceano nas costas do mundo

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 22/05/2026 às 13:16
Atualizado em 22/05/2026 às 13:18
Estudo da Nature revisou 385 pesquisas e concluiu que 9 em cada 10 subestimaram o nível do mar nas costas, colocando até 132 milhões de pessoas a mais em risco.
Estudo da Nature revisou 385 pesquisas e concluiu que 9 em cada 10 subestimaram o nível do mar nas costas, colocando até 132 milhões de pessoas a mais em risco.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
59 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Até 132 milhões de pessoas a mais podem ficar abaixo da linha do mar, segundo estudo publicado na Nature que revisou 385 pesquisas sobre risco costeiro. Mais de 9 em cada 10 usaram um modelo teórico em vez de medições reais, subestimando o nível do mar e exigindo a correção dos mapas de risco no mundo todo.

Em março de 2026, um estudo publicado na prestigiada revista científica Nature acendeu um alerta sobre os mapas de risco costeiro usados no mundo todo. Os pesquisadores Katharina Seeger, da Universidade de Colônia, e Philip Minderhoud, da Universidade de Wageningen e do instituto Deltares, ambos na Europa, revisaram 385 estudos científicos sobre exposição costeira publicados entre 2009 e 2025 e concluíram que mais de 9 em cada 10 subestimaram o nível real do mar nas costas do planeta, por causa de uma falha metodológica que se repetiu por mais de uma década.

O impacto dessa correção é grande. Segundo o estudo, ao aplicar o nível do mar correto em um cenário de elevação relativa de 1 metro, a área que ficaria abaixo da água aumenta em 37%, e o número de pessoas expostas cresce 68%, o que representa até 132 milhões de indivíduos a mais em risco do que se calculava antes. É importante esclarecer, no entanto, que o trabalho não questiona o aquecimento global nem a elevação do mar em si: o que ele aponta é um erro de referência nos mapas, que vinham usando uma base teórica em vez de medições reais do oceano.

Qual foi o erro encontrado nos estudos sobre o nível do mar

Estudo da Nature revisou 385 pesquisas e concluiu que 9 em cada 10 subestimaram o nível do mar nas costas, colocando até 132 milhões de pessoas a mais em risco.
O problema central identificado pelos pesquisadores é técnico, mas tem consequências práticas enormes.

A maioria das avaliações de risco costeiro não combinou corretamente dois tipos de dados essenciais: a altitude do terreno na costa e o nível real do mar medido no local. Em vez de usar medições diretas de marés, feitas por equipamentos como mareógrafos e boias, mais de 90% dos estudos adotaram o chamado geoide, um modelo matemático baseado na gravidade e na rotação da Terra, como se ele fosse o nível verdadeiro do mar.

O geoide é uma superfície teórica que aproxima o formato do campo gravitacional terrestre, mas as costas reais raramente coincidem com essa superfície idealizada. Ventos, correntes marinhas, marés astronômicas, temperatura e salinidade da água alteram diariamente o nível local do oceano, fatores que o geoide simplesmente ignora. Ao tratar esse modelo abstrato como o nível zero das praias e portos, os estudos começaram seus cálculos a partir de uma base mais baixa do que a realidade física do mar, subestimando a exposição das áreas costeiras.

De quanto foi a diferença no nível do mar

Estudo da Nature revisou 385 pesquisas e concluiu que 9 em cada 10 subestimaram o nível do mar nas costas, colocando até 132 milhões de pessoas a mais em risco.
Os números revelam o tamanho da distorção.

Segundo o estudo, o nível do mar medido nas costas é, em média global, de 0,24 a 0,27 metro mais alto do que o valor assumido pelos modelos teóricos, dependendo do geoide utilizado. Pode parecer pouco, mas em regiões de baixa altitude e alta densidade populacional, poucos centímetros já fazem diferença entre uma área segura e uma área inundável no planejamento urbano e na engenharia costeira.

Em alguns pontos específicos do globo, no entanto, a discrepância foi muito maior, chegando a impressionantes 5,5 a 7,6 metros de diferença entre o nível assumido e o nível real do mar. Mais de 99% das avaliações analisadas, segundo os autores, manejaram de forma inadequada os dados de nível do mar e altitude do terreno. A falta de transparência na documentação de muitas dessas pesquisas dificultou que revisores percebessem a propagação do erro de um estudo para outro ao longo dos anos.

Quais regiões sofrem o maior impacto da correção

A correção desses mapas não atinge todas as regiões da mesma forma, e aí está uma das descobertas mais relevantes do estudo. As nações desenvolvidas, sobretudo na Europa e em boa parte da costa do Atlântico, costumam ter monitoramento costeiro mais avançado e sofreram discrepâncias menores. Já as áreas mais vulneráveis do chamado Sul Global enfrentaram as piores diferenças entre o nível assumido e o nível real do mar.

O Sudeste Asiático e a região do Indo-Pacífico aparecem entre as mais afetadas, com diferenças que chegaram a 1 a 1,5 metro acima das bases anteriores em algumas localidades. Isso significa que deltas densamente povoados e ilhas inteiras dessas regiões podem estar muito mais próximos da linha de inundação do que seus governos estimavam. América Latina e Caribe também figuram entre as áreas que precisam revisar com urgência seus mapas de exposição ao avanço do mar, segundo o levantamento.

Por que o erro passou despercebido por tanto tempo

Uma das questões mais intrigantes é como uma falha tão ampla conseguiu se espalhar e permanecer despercebida por mais de uma década. A explicação está na desconexão entre duas áreas técnicas: a topografia, que mede a altitude do terreno, e a oceanografia física, que estuda o comportamento real das águas. Os dados de altitude e de nível do mar costumam ser coletados por satélites diferentes, com sistemas de referência vertical distintos, e exigem uma conversão cuidadosa para serem combinados corretamente.

Essa conversão simplesmente não foi feita de forma adequada na maioria dos estudos. Como muitas publicações não documentaram com clareza qual base de nível do mar haviam adotado, a suposição equivocada se propagou silenciosamente para novas pesquisas, que repetiam o atalho sem perceber. O resultado foi a consolidação de dados imprecisos que hoje comprometem o planejamento de diversas metrópoles litorâneas e exigem uma reavaliação ampla da metodologia usada na ciência costeira.

O que muda para a engenharia e o planejamento costeiro

As consequências práticas da correção são significativas para a infraestrutura. Com o nível do mar real mais alto do que o assumido, os parâmetros de engenharia civil para proteção costeira precisam ser revistos. Isso inclui o dimensionamento de muros de contenção e diques litorâneos, que podem precisar ser mais robustos e elevados, além do zoneamento urbano, que tende a se tornar mais restritivo em áreas vulneráveis para proteger comunidades expostas.

Também entram nessa conta a modernização de portos e complexos industriais marítimos, que dependem de cálculos precisos do nível do mar para operar com segurança. Os próprios autores do estudo, no entanto, oferecem uma solução concreta: usando supercomputadores, eles integraram quatro dos mais recentes modelos digitais de elevação do terreno com os dados mais atuais de nível do mar nas costas, e disponibilizaram esses conjuntos de dados em acesso aberto. A ideia é poupar outros pesquisadores de cálculos complexos e permitir análises costeiras mais realistas imediatamente.

O que o estudo realmente diz e o que não diz

Diante de um tema tão sensível, vale separar o que a pesquisa de fato conclui do que pode gerar interpretação exagerada. O estudo não afirma que o aquecimento global foi subestimado, nem que o derretimento das geleiras é maior do que se pensava. O foco é estritamente metodológico: a forma como os mapas de risco definiram o ponto de partida, o nível zero do mar, estava errada, o que fazia esses mapas subestimarem quantas terras e pessoas já estão próximas do nível atual do oceano.

Os 132 milhões de pessoas a mais em risco, portanto, não representam uma nova previsão de catástrofe iminente, e sim uma correção de cálculo sobre a exposição em um cenário hipotético de 1 metro de elevação relativa do mar. É uma diferença sutil, mas crucial para evitar alarmismo: a ameaça da elevação do mar continua sendo a mesma que a ciência já conhecia, mas os mapas que indicam quem está em risco precisavam ser ajustados para refletir a realidade física das costas com mais precisão.

O estudo publicado na Nature é um lembrete poderoso de como detalhes metodológicos aparentemente pequenos podem ter efeitos enormes em decisões que afetam milhões de pessoas. Ao revelar que 9 em cada 10 pesquisas sobre risco costeiro usaram uma referência incorreta de nível do mar, os pesquisadores não apenas corrigiram os mapas, mas também ofereceram as ferramentas para refazê-los melhor. Para governos de regiões litorâneas, incluindo o Brasil, fica o recado de investir em medições reais e contínuas das próprias costas.

Você mora ou conhece alguém que vive em uma região litorânea que pode ser afetada pela elevação do mar? Acredita que os governos vão levar a sério a necessidade de corrigir os mapas de risco costeiro? Deixe seu comentário, conte o que pensa sobre o avanço do mar sobre as cidades e compartilhe a matéria com quem se interessa por clima, ciência e o futuro das populações que vivem perto do oceano.

Inscreva-se
Notificar de
guest
1 Comentário
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Kleber
Kleber
25/05/2026 12:29

O nivel do mar não vai subir e fucar no nivel,minha opinião ficara alto por meses e voltará para seu nivel normal novamente. O que vai derreter de aguas geladas, irãi drenar pra fora da borda circular de gelo da terra plana. O reuno de Deus não fica só aqui na terra,ao.lado temos muitos reinos detro do.mesmo oceano. A terra não é uma esfera voando no universo. Despertem para a realidade escondida pelas elites mundiais.

Tags
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
1
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x