1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. Ela imuniza dois em cada três bebês do planeta, começou dentro de um haras de cavalos de corrida em Pune e se tornou a maior fabricante de vacinas do mundo sem que quase ninguém saiba o seu nome
Faça um comentário 6 min de leitura

Ela imuniza dois em cada três bebês do planeta, começou dentro de um haras de cavalos de corrida em Pune e se tornou a maior fabricante de vacinas do mundo sem que quase ninguém saiba o seu nome

Imagem de perfil do autor Bruno Teles
Escrito por Bruno Teles Publicado em 01/07/2026 às 23:51 Atualizado em 01/07/2026 às 23:54
Maior fabricante de vacinas do mundo, a indiana Serum Institute faz mais de 1,5 bilhão de doses por ano e já imunizou dois em cada três bebês do planeta
Maior fabricante de vacinas do mundo, a indiana Serum Institute faz mais de 1,5 bilhão de doses por ano e já imunizou dois em cada três bebês do planeta
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

A Serum Institute of India nasceu de um haras em Pune, começou extraindo soro de cavalos e virou o maior fornecedor de vacinas baratas do planeta, presente em cerca de 170 países

Poucas empresas decidem o destino de tanta gente sem que quase ninguém saiba o nome delas. A maior fabricante de vacinas do mundo não fica nos Estados Unidos nem na Europa: está em Pune, na Índia, e começou dentro de uma fazenda de cavalos de corrida ainda na década de 1960. Dois em cada três bebês nascidos no planeta já receberam ao menos uma dose produzida por ela.

Segundo o Serum Institute, a companhia é a maior “em número de doses produzidas e vendidas globalmente” e entrega mais de 1,5 bilhão de doses por ano. Cerca de 65% das crianças do mundo, espalhadas por aproximadamente 170 países, já foram imunizadas ao menos uma vez com um produto dela, informa a mesma fonte oficial. Tudo isso a preços que outros fabricantes nem tentam alcançar.

Como uma família de cavalos virou a maior fabricante de vacinas do mundo

A história é tão improvável que parece invenção. A família Poonawalla era dona do maior haras de cavalos puro-sangue da Índia, o Poonawalla Stud Farms, montado em 1946 para correr nas pistas de Mumbai e Pune. Cavalos de corrida, e não frascos de remédio, eram o negócio da casa.

O detalhe curioso é que os animais aposentados do haras eram doados a uma instituição pública que usava o soro do sangue dos cavalos para produzir antídotos. Foi aí que o jovem Cyrus Poonawalla teve o estalo: se os animais da família já serviam para fazer soro, por que não produzir imunizantes em escala industrial ali mesmo, dentro da própria fazenda?

Do haras ao antídoto: a origem improvável em 1966

Cavalos puro-sangue num haras, a origem improvável do maior fabricante de vacinas
Cavalos puro-sangue num haras, a origem improvável do maior fabricante de vacinas

O criador de cavalos fundou a companhia em 1966 e montou um pequeno laboratório num canto da própria fazenda. A página oficial confirma que a companhia “foi fundada em 1966 pelo Dr. Cyrus Poonawalla”. O primeiro produto saiu logo em seguida: uma antitoxina contra o tétano, feita justamente a partir do soro de cavalo, e o país “se tornou autossuficiente em antitoxina tetânica”.

A lógica por trás da aposta era simples e ousada. A Índia importava vacinas caras demais para um país tão populoso e pobre. Fazer imunizantes bons e baratos dentro de casa não era só negócio, era questão de saúde pública em escala continental. A empresa diz produzir seus imunizantes “a preços acessíveis ao homem comum e em abundância”, e o que começou como um puxadinho científico num haras se transformou, em poucas décadas, na maior operação de produção de vacinas já vista.

Dois em cada três bebês do mundo já receberam uma dose dela

O alcance da empresa é o dado que mais impressiona. De acordo com a Forbes India, “mais de 65% das crianças do mundo, espalhadas por cerca de 170 países, já receberam ao menos uma vez uma vacina fabricada” pela companhia. A publicação também a define como a maior do planeta “em número de doses produzidas e vendidas globalmente”.

Isso significa que sarampo, pólio, tétano, difteria e outras doenças que já mataram milhões foram barradas, em boa parte do mundo, com frascos que saíram de Pune. A companhia virou uma engrenagem invisível da saúde global, o tipo de negócio que salva vidas em silêncio, sem propaganda, sem marca reconhecível no bolso do consumidor. A produção em volume gigantesco derrubou preços e ampliou o acesso onde antes faltava tudo.

Mais de 1,5 bilhão de doses por ano e um preço que muda tudo

Criança recebendo vacina, cena que se repete em cerca de 170 países
Criança recebendo vacina, cena que se repete em cerca de 170 países

O segredo comercial da empresa é a combinação de escala absurda com custo baixo. Produzir mais de 1,5 bilhão de doses por ano, número confirmado tanto pela Forbes India quanto pela página oficial da fabricante, diluiu o custo de cada frasco a ponto de a companhia oferecer imunizantes por poucos centavos de dólar, um preço impensável para os grandes laboratórios ocidentais.

Esse modelo transformou o grupo numa fornecedora preferencial de programas globais de imunização, como os que distribuem vacinas para países de baixa renda. Quando uma organização internacional precisa vacinar milhões de crianças pobres, é quase sempre a fabricante indiana que entrega o volume no preço. Baratear o imunizante não foi caridade, foi engenharia industrial aplicada à saúde, e é isso que sustenta o império da família.

Covishield: quando o mundo inteiro dependeu de Pune

A pandemia de covid-19 colocou a empresa sob os holofotes que ela nunca teve. A companhia firmou parceria com a farmacêutica AstraZeneca e a Universidade de Oxford para produzir em massa a versão indiana da vacina contra a doença, batizada de Covishield, e virou peça central da imunização de dezenas de países em desenvolvimento.

A capacidade instalada permitiu prometer centenas de milhões de doses para a Índia e para nações de renda baixa e média num tempo recorde. O episódio expôs, para o público geral, algo que os especialistas já sabiam: boa parte da segurança sanitária do mundo depende da capacidade de produção concentrada em pouquíssimas fábricas, e a de Pune é a maior delas.

Por que baratear a vacina é uma revolução silenciosa

É fácil subestimar o impacto de um frasco que custa centavos. Mas, em saúde pública, preço é acesso. Um imunizante caro fica nos países ricos; um imunizante barato chega à aldeia, ao posto de saúde perdido, à criança que de outra forma morreria de uma doença evitável.

Ao empurrar o custo para baixo sem abrir mão de volume, a fabricante ajudou a redesenhar o mapa das doenças no mundo em desenvolvimento. A empresa provou que produção em massa e propósito social podem caminhar juntos, um recado poderoso num setor acostumado a margens altíssimas. Não por acaso, Cyrus Poonawalla se tornou um dos homens mais ricos da Índia fazendo o produto mais barato da prateleira.

O herdeiro Adar Poonawalla e a aposta de bilhões

Hoje quem toca o dia a dia é Adar Poonawalla, filho do fundador e presidente-executivo do grupo. Sob seu comando, a empresa investe pesado para ampliar a capacidade. Em entrevista de 2024, o executivo afirmou esperar que a demanda por vacinas dobre nos cinco anos seguintes, um crescimento que estima em cerca de 2,5 bilhões de doses adicionais.

A ambição não é modesta: a família quer que a fabricante deixe de ser apenas a casa das vacinas tradicionais e entre com força em imunizantes novos, contra dengue, HPV e malária, entre outras ameaças. A aposta é transformar um negócio nascido de cavalos numa potência da biotecnologia global, capaz de responder à próxima pandemia antes que ela se espalhe.

O que a história da empresa ensina sobre saúde global

No fundo, a saga é um lembrete de como o mundo é frágil e interligado. A saúde de bilhões de pessoas depende de decisões tomadas dentro de uma única companhia familiar, numa cidade indiana que a maioria das pessoas jamais visitou. Um problema em Pune vira um problema no planeta inteiro.

Também é uma história sobre enxergar oportunidade onde ninguém olhava, um haras de cavalos que virou linha de frente contra epidemias. Da próxima vez que uma criança receber a primeira vacina da vida, vale lembrar de onde tantos desses frascos vêm. Será que o mundo deveria depender tão pesadamente de tão poucas fábricas para se manter vivo?

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x