Pesquisadores da Universidade de Oxford publicaram em 26 de junho de 2026 na Nature Astronomy evidências que reescrevem o que sabíamos sobre o interior de Marte: o planeta vermelho hospedou sistemas magmáticos profundos generalizados e tão complexos quanto os da Terra — apesar de nunca ter tido placas tectônicas, o mecanismo que na Terra gera e circula o magma pelos grandes sistemas ígneos.
O que são sistemas magmáticos profundos e por que sua ausência em Marte era assumida
Na Terra, as placas tectônicas são o motor do sistema magmático: elas se movem, colidem, subductam — e esse processo aquece a rocha do manto e a faz fundir, criando câmaras magmáticas que alimentam vulcões, arcos de ilhas e cadeias de montanhas. Sem placas tectônicas, o raciocínio era que o magma não circularia da mesma forma.
Marte não tem placas tectônicas. Tem uma crosta única e rígida que cobre o planeta inteiro — uma única “placa” sem mobilidade. A teoria dominante era que o vulcanismo marciano era localizado e relativamente superficial, concentrado em regiões como Tharsis (onde fica o Olympus Mons, maior vulcão do sistema solar) e alimentado por plumas de magma ascendentes, não por sistemas magmáticos distribuídos e complexos como os da Terra.
O que os pesquisadores de Oxford encontraram contradiz essa visão.
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O que o estudo da Nature Astronomy revelou
Analisando dados de missões orbitais e do sismômetro do InSight — que operou em Marte de 2018 a 2022 — os pesquisadores identificaram evidências de sistemas magmáticos profundos que se comportavam de forma muito similar aos da Terra. Os dados sísmicos, combinados com modelos geoquímicos, revelaram padrões que só fazem sentido se Marte teve câmaras e reservatórios de magma profundos, com diferenciação química — o processo pelo qual o magma se separa em componentes mais densos e menos densos ao longo do tempo.
Diferenciação magmática profunda é uma marca registrada dos grandes sistemas ígneos da Terra — como as câmaras que alimentam o Yellowstone, os rios de lava da Islândia ou os grandes basaltos de inundação que cobriram partes da Sibéria e do Deccan. O fato de o mesmo processo ter ocorrido em Marte, sem o motor tectônico, sugere que existem mecanismos alternativos de aquecimento e circulação do manto que não dependem de placas.
Isso muda fundamentalmente como pensamos sobre a evolução geológica de Marte — e abre uma janela nova para entender o passado quente do planeta vermelho.
Por que isso importa para a busca por vida
Onde há calor geológico e circulação de fluidos, há potencial para habitabilidade. Na Terra, os sistemas geotermais associados ao magmatismo profundo — onde água subterrânea aquecida pelo magma circula por fraturas na rocha — são ambientes onde a vida prospera, mesmo sem luz solar. As fontes hidrotermais do oceano profundo, alimentadas por calor magmático, abrigam ecossistemas inteiros.
Se Marte teve sistemas magmáticos profundos comparáveis aos da Terra, pode ter tido também sistemas hidrotermais subsuperficiais que persistiram muito tempo depois de a superfície marciana ter secado e esfriado. Isso amplia a janela de habitabilidade potencial de Marte além do que as estimativas anteriores — baseadas apenas na presença de água superficial há 3-4 bilhões de anos — sugeriam.
As missões futuras a Marte — incluindo a Mars Sample Return, que vai trazer amostras de Jezero Crater para análise na Terra — podem encontrar assinaturas químicas de atividade hidrotermal antiga que só faz sentido se houver sistemas magmáticos profundos operando no passado. A descoberta da Oxford recontextualiza o que os cientistas vão procurar nas amostras.
Marte como espelho da Terra e o que aprender com ele
Marte é, em muitos sentidos, um laboratório natural para entender o que acontece com um planeta semelhante à Terra quando perde o calor interno e o campo magnético. Há 4 bilhões de anos, Marte tinha atmosfera mais densa, oceanos ou mares de água líquida e possivelmente as condições para a vida. Então o campo magnético desapareceu, o vento solar erodiu a atmosfera e a superfície secou.
O que o estudo da Oxford adiciona é que, por mais tempo do que se pensava, Marte continuou sendo geologicamente ativo em profundidade — fervilhando por dentro enquanto sua superfície já esfriava. Esse aquecimento interno prolongado pode ter sustentado ambientes habitáveis subsuperficiais por centenas de milhões de anos além das estimativas anteriores.
Fico imaginando o que os cientistas vão encontrar nas amostras de Jezero se as evidências de hidrotermalismo magmático forem confirmadas. É um planeta que passou por uma transformação que a Terra também pode passar — e estudar Marte é, em parte, entender nosso próprio futuro geológico distante.
A descoberta da Oxford também tem implicações para como pensamos sobre habitabilidade em outros planetas e luas do sistema solar que não têm placas tectônicas. Titã, a lua de Saturno, tem litosfera rígida. Europa, a lua de Júpiter, provavelmente também — mas tem oceano líquido sob o gelo alimentado por calor de maré. A ideia de que sistemas magmáticos profundos complexos só existem em planetas com tectonismo de placas limitava o conjunto de mundos que poderiam ter sustentado condições para a vida. Se Marte — que claramente não tem placas tectônicas — teve sistemas igníeos complexos e potencialmente circulação hidrotermal por bilhões de anos, o princípio se expande: talvez Marte não fosse o único caso. Talvez haja outros mundos com litosfera estática que ainda guardam calor e atividade geológica suficientes para criar e sustentar nichos habitáveis por tempo longo. A Nature Astronomy de 26 de junho não é só sobre Marte — é sobre o que conta como condição necessária para a vida no universo.
Se Marte fervilhou por dentro muito mais tempo do que imaginávamos, as chances de ter abrigado vida em algum momento da sua história são maiores ou menores do que acreditávamos?
