Um naufrágio achado no antigo porto de Alexandria renovou o debate sobre barcos de luxo, rituais religiosos e navegação no Egito antigo, em uma descoberta que conecta arqueologia subaquática, textos clássicos e a história urbana de uma cidade central do Mediterrâneo.
Um naufrágio encontrado no antigo porto de Alexandria, no Egito, reacendeu o interesse por um tipo de embarcação conhecido até hoje principalmente por textos da Antiguidade e representações artísticas.
Segundo a equipe liderada pelo arqueólogo subaquático francês Franck Goddio, os restos podem pertencer a uma thalamegos, nome grego associado a grandes barcaças luxuosas ligadas às elites do Egito ptolemaico e, possivelmente, também a usos cerimoniais.
Na prática, essa interpretação aproxima o achado da ideia de uma barca de prazer, usada por grupos privilegiados em deslocamentos, banquetes e exibição de status nas águas de Alexandria.
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A descoberta foi feita na área submersa do Portus Magnus, o Grande Porto de Alexandria, perto das ruínas do Templo de Ísis na ilha de Antirhodos.
De acordo com Goddio, a embarcação preserva madeiras em bom estado e tinha originalmente cerca de 35 metros de comprimento e 7 metros de largura, com aproximadamente 28 metros de estrutura remanescente identificada até agora.
A hipótese de que se trate de uma embarcação de luxo ainda está em análise.
Mesmo assim, os pesquisadores afirmam que o conjunto de dimensões, forma e contexto arqueológico torna essa identificação possível.
O achado ganhou relevância porque esse tipo de barco aparece em descrições de autores antigos, mas ainda não havia sido confirmado com segurança por meio de vestígios materiais desse porte.
Por isso, o naufrágio passou a ser observado por especialistas como um elemento importante para o estudo da navegação, do prestígio social e das práticas rituais em Alexandria entre o fim do período ptolemaico e os primeiros séculos do domínio romano no Egito.

Naufrágio em Alexandria e o que foi achado no antigo porto
Segundo o comunicado de Goddio, os arqueólogos localizaram a embarcação durante escavações subaquáticas realizadas em outubro na região do antigo santuário de Ísis.
O templo ficava em Antirhodos, uma ilha que integrava o núcleo palaciano de Alexandria e que hoje está submersa.
As ruínas do local teriam sido atingidas por um evento destrutivo em torno de 50 d.C., possivelmente relacionado a terremoto, e a área afundou entre os séculos IV e VIII.
Os vestígios identificados indicam uma embarcação larga, de calado raso e adequada para navegação em águas abrigadas, como canais e áreas portuárias.
A interpretação inicial sugere que ela tinha uma cabine central ornamentada e deslocamento por remos, características compatíveis com descrições antigas de barcos associados a grupos de alto status.
Ainda assim, a identificação definitiva depende de estudos adicionais sobre construção naval, contexto de uso e cronologia precisa do conjunto.
Também chama atenção o local onde o naufrágio foi encontrado.
Alexandria foi capital do Egito durante a dinastia ptolemaica, entre 304 a.C. e 30 a.C., e continuou a ter importância estratégica sob domínio romano.
Nesse contexto, uma embarcação desse tipo pode contribuir para esclarecer como lazer, religião, circulação aquática e representação de prestígio se articulavam nas áreas portuárias da cidade.

O que significa thalamegos no Egito ptolemaico
A palavra thalamegos significa literalmente algo como “portadora de cabine”.
Com o tempo, o termo passou a designar embarcações luxuosas descritas por autores gregos ao tratar do Egito helenístico.
Na divulgação da descoberta, Goddio associou o naufrágio a essa categoria por causa das proporções do casco e da possibilidade de que ele sustentasse uma estrutura central decorada.
Esse tipo de barco também aparece em registros iconográficos do Egito antigo, embora sem confirmação arqueológica direta até agora.
Uma das referências literárias mais citadas no debate é a do geógrafo grego Estrabão, que mencionou embarcações usadas por pessoas ricas em deslocamentos por áreas valorizadas da paisagem egípcia.
Em um dos trechos reproduzidos pela Live Science, ele relatou que essas pessoas “realizam banquetes em barcos com cabine, nos quais entram por entre a vegetação aquática e a sombra das folhas”.
A passagem costuma ser mobilizada por pesquisadores para mostrar que esses barcos não eram apenas meios de transporte, mas também espaços ligados a sociabilidade, banquetes e exibição de status.
Ainda assim, essa associação não resolve, por si só, a função exata da embarcação encontrada em Alexandria.
O próprio contexto arqueológico levou a equipe a considerar outra linha de interpretação.
Como o casco apareceu muito perto do Templo de Ísis, os pesquisadores avaliam a possibilidade de que o barco também tenha sido usado em cerimônias religiosas realizadas na cidade já sob influência romana.
Entre barco de luxo e possível uso ritual
Ao comentar a descoberta, Goddio afirmou que o barco poderia ter sido usado nos canais de Alexandria, como sugerem as descrições de Estrabão.
Ao mesmo tempo, ele acrescentou que a embarcação foi encontrada junto às escavações do templo de Ísis em Antirhodos e pode ter sido atingida pelo mesmo episódio que destruiu o santuário.
Com base nesse contexto, a equipe passou a trabalhar com a hipótese de um uso ritual para a embarcação.
Essa leitura se conecta à chamada navigatio iside, uma cerimônia naval do período romano associada ao culto de Ísis.
Segundo a explicação reproduzida pela Live Science, procissões desse tipo incluíam uma embarcação ricamente decorada que simbolizava a barca solar usada pelos deuses egípcios para atravessar os céus.
A partir dessa tradição, Goddio sugeriu que o barco descoberto poderia ter participado de um trajeto anual ligado à deusa, entre o Grande Porto de Alexandria e o santuário de Osíris em Canopus, ao longo do canal canópico do Nilo.
Por enquanto, essa interpretação permanece no campo da hipótese arqueológica.
Não há demonstração científica concluída de que o barco seja, de fato, a embarcação ritual mencionada por Goddio.
Também não há comprovação de que sua função principal tenha sido religiosa.
O que existe até agora é uma combinação de indícios de localização, cronologia e tipologia naval que sustenta essa possibilidade, segundo a equipe responsável pela escavação.
O que especialistas dizem sobre a embarcação antiga
A recepção inicial entre estudiosos foi positiva, mas cautelosa.
O arqueólogo marítimo Timmy Gambin, da Universidade de Malta, descreveu o achado como uma “descoberta espetacular”, segundo a cobertura da Live Science.
Na mesma cobertura, porém, ele ressaltou que ainda não foi determinado cientificamente se a embarcação era realmente uma thalamagos.
Em outra declaração, Gambin afirmou que “ainda é cedo para determinar exatamente para que a embarcação era usada”.
A observação resume o estágio atual da investigação: há um achado relevante, mas a definição final sobre a função do barco ainda depende de análise.
Essa cautela é central para a leitura do caso.
Em arqueologia subaquática, a interpretação de um naufrágio depende não só do casco, mas também de elementos como inscrições, objetos associados, contexto sedimentar, padrão de destruição e comparação com outras embarcações antigas já estudadas.
No caso de Alexandria, esse trabalho se torna mais complexo porque a cidade passou por terremotos, subsidência do terreno e transformações costeiras ao longo de séculos.


Não é atoa que é a profissão mais antiga do mundo, até na Alexandria tinha uma barca de prazer ksksksks