Escavações feitas entre 2022 e 2025 encontraram fogueiras, cachimbos, contas de colar e moedas no piso original da antiga senzala da Fazenda do Pinhal, em São Carlos, revelando memórias soterradas da população negra
Restos de fogueiras, cachimbos, contas de colar e moedas foram achados na senzala do Pinhal, em São Carlos, a 50 centímetros de profundidade, nas escavações realizadas entre 2022 e 2025.

Achados no piso original
Os objetos estavam no piso original da senzala da Fazenda do Pinhal. O conjunto ajuda a reconstruir formas de ocupação do edifício pelas pessoas escravizadas que viveram na propriedade.
As escavações também apontam tentativas de apagamento dessa história no pós-abolição. O prédio passou por reformas, intervenções e mudanças de uso que descaracterizaram sua função inicial.
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A senzala foi edificada durante décadas, na primeira metade do século 19. A Fazenda do Pinhal remonta aos anos 1830, ligada à expansão cafeeira e à escravidão no interior paulista.
A propriedade esteve sob comando de Antônio Carlos de Arruda Botelho e de Ana Carolina. Na época, tornou-se unidade cafeeira de destaque.
Pesquisa recoloca trabalhadores na paisagem
O levantamento integra o Plano Diretor de Gestão Patrimonial da Fazenda do Pinhal, elaborado por Paulo César Marins, docente e atual diretor do Museu Paulista da USP.
A fazenda foi tombada em âmbito estadual em 1981 e pelo Iphan em 1987. A preservação manteve por muito tempo mais visível a memória dos antigos proprietários.
Joana D’Arc de Oliveira, professora da FAU da USP, afirma que a cidade cresceu ouvindo sobre o Conde do Pinhal, mas pouco sobre trabalhadores, escravizados e famílias negras.
A pesquisadora é autora do livro “Da senzala para onde? Negros e negras no pós-abolição em São Carlos-SP (1880/1910)” e uma das autoras do artigo com os resultados.
Ela coordena o projeto que investiga a presença negra na fazenda no pós-abolição. As famílias Zacarias e Silva viveram no edifício e estão ligadas à propriedade há mais de três gerações.

A senzala do Pinhal sob camadas
As primeiras escavações na senzala do Pinhal revelaram camadas de ocupação. O piso de terra batida original apareceu abaixo de níveis mais recentes, onde havia cimento queimado e lajota.
Esses pisos estavam ligados às ocupações recentes da família Silva e de imigrantes europeus. A identificação do piso original foi considerada incomum, porque muitos sítios sofrem mistura de sedimentos por vegetação, animais e movimentação.
Renato Kipnis afirmou que o piso se manteve protegido apesar das ocupações. Esse foi um dos motivos para remover os pisos mais recentes.
Nos níveis superiores, apareceram uma moeda de 400 réis, datada de 1926, bicos de pena, ampolas de vidro e fragmentos de louça do início do século 20.
No piso de terra batida, foram encontradas duas moedas de 1827 e cerca de nove estruturas de combustão, associadas a sedimentos queimados, carvão, cinzas, ossos de animais e sementes carbonizadas.
Fogueiras além da alimentação
As estruturas de combustão são vestígios de fogueiras. Em contextos de senzalas, elas indicam atividades domésticas, mas também funcionavam como espaços de sociabilidade, encontro e transmissão de saberes.
As fogueiras eram usadas para preparo de alimentos, aquecimento e iluminação. Ao redor delas aconteciam conversas, contação de histórias e práticas culturais mantidas por famílias negras no edifício.
Jorgina Silva, ex-moradora da antiga senzala, acompanhou as escavações. Ela relatou que o pai fazia fogueiras quando estava muito frio dentro de casa, para aquecer os filhos.
Ao saber que a população escravizada mantinha essa prática no local, ela se emocionou. A descoberta ampliou a leitura do edifício, não apenas como dispositivo de poder, mas como espaço habitado.
Cachimbos, contas e memroia religiosa
Outros vestígios reforçam a presença de práticas religiosas de origem africana no piso original. Foram exumados dois cachimbos e duas contas de colares, elementos ligados a conexão ancestral, cuidado e proteção.
No contexto escravocrata, o uso do cachimbo era comum, mas reprimido, especialmente entre a população negra. A associação entre cachimbo e escravizado data do século 17 e ficou mais frequente no século 19.
Benedito Silva lembrou que sua mãe fumou cachimbo até pouco antes de morrer. O hábito permaneceu vivo dentro da família.
As contas de colares ampliam a interpretação dos achados. Ligadas a práticas religiosas de origem africana, também eram associadas a escravizados fugidos.
O babalorixá Isaías relacionou a conta amarela encontrada ao culto aos Orixás e a Oxum.
Terreiros, documentário e visitas
Com o fim das escavações, o trabalho segue para análise arqueológica, catalogação e interpretação dos materiais. Os achados ainda serão levados a casas de Candomblé e Umbanda de São Carlos.
A intenção é reunir outras interpretações sobre os artefatos e incorporá-las aos relatórios arqueológicos. O processo terá um filme-documentário, gravado durante as escavações.
A produção reúne pesquisadores, representantes de terreiro, ativistas do movimento negro, ex-moradores e ex-funcionários da Fazenda do Pinhal. A iniciativa amplia a documentação sobre a antiga senzala.
Hoje, a Fazenda do Pinhal sedia um Centro de Estudos, Pesquisa e Educação. O espaço recebe visitas previamente agendadas, cursos e oficnas.
Com informações de Jornal.usp.
