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Depois de gastar 50 bilhões de dólares, a Arabia Saudita avançou com uma cidade de 170 km no deserto, ergueu estacas e fábricas de concreto, viu os custos explodirem, suspendeu a obra em 2025 e passou a investir em inteligência artificial

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 08/02/2026 às 12:15
Atualizado em 08/02/2026 às 12:16
Depois de gastar 50 bilhões de dólares, a Arabia Saudita avançou com uma cidade de 170 km no deserto, ergueu estacas e fábricas de concreto, viu os custos explodirem, suspendeu a obra em 2025 e passou a investir em inteligência artificial
O fundo soberano saudita paralisou a cidade linear de 170 km em NEOM, revisou custos e passou a investir em centros de dados de IA, alterando o eixo estratégico do projeto
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O fundo soberano saudita paralisou a cidade linear de 170 km em NEOM, revisou custos e passou a investir em centros de dados de IA, alterando o eixo estratégico do projeto

O anúncio de uma cidade linear de 170 quilômetros no deserto saudita foi apresentado como um marco civilizacional. Uma estrutura espelhada, sem carros e sem ruas tradicionais, prometia condensar milhões de pessoas em uma faixa estreita de território e projetar poder econômico a partir do Mar Vermelho.

Cinco anos depois, o movimento é outro. A construção foi suspensa em setembro de 2025, o projeto entrou em revisão profunda e o capital passou a fluir para infraestrutura de inteligência artificial, sinalizando uma mudança de leitura estratégica por parte do Estado saudita.

O momento exato em que a obra foi interrompida

A paralisação ocorreu de forma formal em 16 de setembro de 2025, quando o Fundo de Investimento Público decidiu interromper as frentes ativas de construção de The Line. A decisão não foi anunciada como cancelamento, mas como uma pausa técnica para reavaliação completa do projeto.

Desde então, não há atividades estruturais em andamento ao longo do traçado original de 170 km. Máquinas foram retiradas, contratos passaram por revisão e equipes internacionais foram gradualmente desmobilizadas, sinalizando que a interrupção não seria curta nem pontual.

Frentes de perfuração e cravação de estacas ao longo do traçado de The Line, em NEOM, registradas antes da suspensão das obras em setembro de 2025, quando máquinas permaneceram no deserto e os trabalhos foram interrompidos para revisão estratégica do projeto.

Custos fora de controle pressionaram a decisão

Um dos principais fatores por trás da suspensão foi a escalada de custos. As estimativas iniciais falavam em valores entre 100.000 e 200.000 milhões de dólares, mas revisões internas passaram a apontar cifras muito mais elevadas para completar toda a extensão planejada.

Relatórios internos indicaram que o custo total poderia alcançar 8,8 billões de dólares, com um cronograma que avançaria até 2080. Esse cenário colocaria The Line como um projeto com peso financeiro incompatível com o ritmo fiscal e as prioridades imediatas do reino.

O impacto direto nas finanças do fundo soberano

A decisão de parar a obra veio após o registro de uma amortização de 8.000 milhões de dólares em grandes projetos estratégicos, incluindo NEOM. Esse ajuste contábil acendeu um alerta interno sobre retorno, liquidez e risco de longo prazo.

O Fundo de Investimento Público passou a enfrentar pressões simultâneas. Além de NEOM, o país assumiu compromissos pesados com a Expo 2030 em Riad e com a Copa do Mundo de 2034, exigindo investimentos com resultados mais previsíveis e prazos mais curtos.

Mudança de comando e revisão estrutural do projeto

Em novembro de 2024, houve troca na liderança de NEOM. Aiman al Mudaifer assumiu como novo CEO no lugar de Nadhmi al Nasr, iniciando uma revisão ampla de escopo, cronograma e finalidade do projeto.

Essa revisão foi planejada para durar cerca de um ano e tem conclusão prevista para o primeiro trimestre de 2026. O próprio conceito original de The Line passou a ser tratado internamente como inviável nos moldes anunciados em 2021.

A redução drástica da ambição urbana

Antes mesmo da suspensão total, o projeto já havia sido encolhido. A primeira fase, que inicialmente previa dezenas de quilômetros, foi reduzida para 2,4 km, com uma população estimada em 300.000 pessoas, bem abaixo das projeções iniciais.

Mais tarde, o governo passou a falar em um trecho central de 5 km até 2030, empurrando o restante para 2045. Na prática, isso fragmentou a ideia de cidade linear contínua e enfraqueceu o núcleo urbano que justificava o conceito.

A infraestrutura construída e o que ficou no chão

Apesar da paralisação, partes significativas da obra já haviam sido executadas. Foram cravadas mais de 4.500 estacas em alguns trechos, com ritmo que chegou a 60 estacas por dia no auge da construção.

Também foi planejada uma fábrica de concreto avaliada em 700 milhões de riyales, com capacidade diária de 20.000 metros cúbicos, além da movimentação de mais de 90 milhões de metros cúbicos de material até fevereiro de 2024.

A leitura estratégica por trás da mudança de rota

Segundo New Arab, portal internacional de jornalismo focado no Oriente Médio, a reavaliação de NEOM não se limitou ao custo da cidade, mas ao papel que o projeto deveria cumprir na estratégia de poder saudita.

A conclusão foi que uma cidade futurista de longo prazo oferecia menos retorno estratégico do que infraestrutura digital capaz de gerar influência imediata, atrair capital estrangeiro e posicionar o país na disputa global por computação avançada.

HUMAIN surge como novo eixo de investimento

Em maio de 2025, o Fundo de Investimento Público lançou a HUMAIN, empresa criada para estruturar toda a cadeia de valor da inteligência artificial no país. O plano prevê 1,9 GW de capacidade em centros de dados até 2030, avançando para 6,6 GW em 2034.

A primeira fase envolve um supercomputador com 18.000 GPUs NVIDIA GB300 Grace Blackwell e capacidade inicial de 500 megawatts dedicados a fábricas de IA, consolidando um salto rápido em poder computacional.

NEOM como território de dados, não mais de cidade

A localização de NEOM passou a ser vista sob outro prisma. A região oferece acesso ao Mar Vermelho, espaço disponível, potencial energético renovável e condições para refrigeração em larga escala, fatores decisivos para centros de dados de grande porte.

Nesse novo desenho, a infraestrutura já construída pode ser reaproveitada para usos industriais e digitais, abandonando a ideia de abrigar milhões de residentes em uma única estrutura linear contínua.

O abandono silencioso do conceito original

Embora não haja anúncio formal de cancelamento, internamente o conceito inicial de The Line é tratado como encerrado. A expectativa é de um projeto totalmente diferente, apoiado no que já foi construído, mas sem a ambição urbana apresentada ao mundo.

A ausência de NEOM no orçamento saudita de 2026 reforçou a percepção de que a prioridade mudou, com recursos sendo direcionados para áreas consideradas mais estratégicas e menos simbólicas.

Consequências para a região e para a estratégia saudita

A suspensão de The Line não representa apenas um ajuste técnico. Ela sinaliza uma mudança de postura do Estado saudita, que passa a privilegiar ativos de influência digital em vez de megaestruturas urbanas de retorno incerto.

O foco em inteligência artificial reposiciona o país no tabuleiro regional, ampliando sua presença em infraestrutura crítica e pressionando vizinhos em uma disputa silenciosa por capacidade computacional e controle de dados.

O que emerge desse processo é um NEOM diferente. Menos cidade futurista, mais plataforma estratégica. A interrupção de The Line encerra um ciclo de ambição arquitetônica e abre outro, mais pragmático, que muda a leitura estratégica do projeto e do papel da Arabia Saudita no século XXI.

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bendt
bendt
11/02/2026 21:02

Serán 50.000 millones!!!

Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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