Aos 104 anos, Katty Reid Soskin reflete sobre política, memória e as diversas versões de si mesma, revisitando a trajetória que a levou de cantora e ativista a uma das guarda-parques mais emblemáticas dos Estados Unidos
Katty Reid Soskin ganhou destaque nacional aos 92 anos porque virou, quase sem perceber, uma espécie de celebridade dentro do Serviço Nacional de Parques. Ela já era conhecida por ser a guarda-parques em tempo integral mais velha dos Estados Unidos em 2013, aos 85 anos. Mesmo assim, foi colocada em licença não remunerada durante a paralisação do governo, junto com outros milhares de funcionários. A situação chamou a atenção da mídia e, em poucos dias, diversos veículos procuraram Soskin para entrevistas.
Ela dizia que a paralisação a deixava frustrada porque desejava continuar seu trabalho como guarda florestal. Além disso, afirmava que tinha tarefas a cumprir. A repercussão acabou dando início a uma nova fase de visibilidade, como ela mesma costuma mencionar.
O reconhecimento que veio depois
A projeção pública impulsionou novos projetos. Em 2018, lançou seu livro de memórias. Pouco depois, em 2020, estreou um documentário dedicado à sua trajetória.
-
O jovem órfão que começou sem dinheiro e transformou uma ideia desacreditada em curiosidade, desejo e prestígio mundial, ao apostar em um relógio de pulso que poucos levavam a sério
-
Inglês no setor de petróleo e gás: habilidades que ampliam as oportunidades profissionais
-
Só a China ficou na frente: 64 jovens do SENAI e do SENAC colocaram o Brasil em 2º lugar na WorldSkills 2024, o mundial das profissões, com 8 medalhas em Lyon, e o ouro veio das mãos de uma cabeleireira do Rio de Janeiro
-
3.000 militares, 10 países e fuzileiros dos EUA e da China treinando lado a lado no cerrado de Goiás: a Operação Formosa virou o maior exercício terrestre da Marinha, até ser cancelada pela 1ª vez desde 1988
Outro filme ainda está em produção. Barack Obama descreveu Soskin como profundamente inspiradora. Annie Leibovitz a fotografou.
A revista Glamour a elegeu mulher do ano. Agora, aos 104 anos, ela acredita que cumpriu tudo o que precisava realizar.
Soskin deixou oficialmente o cargo aos 100 anos. O trabalho dela foi essencial para a criação do Parque Nacional Rosie the Riveter World War II Home Front, localizado em Richmond.
Lá, compartilhava histórias de guerra vividas por pessoas negras porque entendia que a memória é moldada por quem participa do processo de relembrar. Ela dizia que seu papel era quase como liderar uma revolução financiada pelo próprio governo.
A percepção do tempo ao longo da vida
A chegada ao segundo século de vida alterou sua noção de tempo. Soskin afirma que tudo se mistura, como se os eventos recentes e antigos estivessem próximos demais.
Muitas memórias parecem acontecer simultaneamente. Ela menciona que o tempo parece comprimido e que os acontecimentos políticos entram nesse mesmo fluxo.
As lembranças sobre mudanças sociais também seguem esse padrão. Ela cita o envio da Guarda Nacional a cidades americanas, durante o governo Donald Trump, como exemplo de eventos que, para ela, se juntam em uma única narrativa.
A leitura de política nos dias atuais
Mesmo aposentada, Soskin continua acompanhando política de perto. Observa o cenário atual com mais preocupação porque, segundo ela, durante as décadas de 50 e 60, havia uma sensação contínua de progresso. Agora, descreve o ambiente como confuso e teme que o país tenha perdido o rumo.
A inquietação se mistura com reflexões sobre o futuro. Ela diz que cresceu acreditando que as próximas décadas seriam sempre melhores. Pela primeira vez, admite não ter certeza sobre isso. A dúvida permanece presente em suas falas.
As muitas versões de Betty
Soskin nasceu Betty Charbonnet. Começou a vida em Nova Orleans até que sua família precisou se mudar para Oakland, após as enchentes de 1927. Seu pai tinha origem crioula. A mãe, ascendência cajun.
A bisavó nasceu escravizada em 1846 e viveu até os 102 anos. Ao longo dos anos, conforme sua história ganhou projeção, novas partes de sua trajetória vieram à tona.
Ela costuma mencionar que existiram várias Bettys. A Betty dona da loja Reid’s Records, aberta em 1945. A Betty cantora de protesto.
A Betty ativista que arrecadou fundos para os Panteras Negras e trabalhou em campanhas comunitárias. Também existiu a Betty que atuou no governo local.
Tudo isso antes de se tornar a guarda florestal mais velha e, possivelmente, uma das mais sinceras do Serviço Nacional de Parques.
Transformações profundas na década de 1980
A grande virada ocorreu quando perdeu três homens importantes de sua vida: o primeiro marido, Mel Reid; o segundo marido, William Soskin; e o pai.
As mortes aconteceram em um período curto, no final dos anos 80. Ela descreve esse momento como uma transição de uma existência para outra.
Depois dessas perdas, diz que finalmente se tornou Betty. Essa descoberta mudou sua maneira de ocupar o mundo. Sentiu que tinha muito a fazer.
E continuou seguindo esse impulso até completar 100 anos. Ela afirma que não estava mais se formando. Apenas era.
Um encontro marcante em Washington
Em 2015, foi convidada a apresentar Barack Obama durante a cerimônia nacional de iluminação da árvore de Natal. Antes disso, havia recusado um convite da Casa Branca no governo George W. Bush.
No dia do evento, recorda que olhava mais para Michelle Obama do que para o presidente. Chegou a comentar em voz alta sobre como a achava linda.
Soskin carregava no bolso uma foto da bisavó, Leontine Breaux Allen. A lembrança reforçava o peso simbólico daquela ocasião.
Ela descreve o momento como estar ligada à história americana por uma linha direta. Ao mesmo tempo, observava a Casa Branca construída por pessoas escravizadas.
Ela guarda uma moeda comemorativa recebida de Obama. A original foi roubada durante um assalto, então esta é uma substituta.
Mesmo assim, diz que nada será comparável ao instante vivido naquele encontro. Para ela, recordações são como cinzas que apontam para o que já passou.
Identidade e música na vida de Soskin
Soskin não se define mais como feminista ou ativista. Também não se classifica como cantora. Considera-se apenas uma pessoa que cantava.
Ela começou a escrever músicas quando ganhou um violão e passava por um momento difícil no casamento. Achava que estava lembrando de fatos antigos, mas descobriu mais tarde que estava, na verdade, criando.
Chegou a se apresentar com Pete Seeger. Depois, passou duas semanas nos bastidores de um projeto musical, convidada por Henry Hampton.
Tinha uma audição marcada para o Village Vanguard, em Nova York, mas desistiu na véspera. Em uma festa, viu pessoas usando maconha e decidiu que aquele ambiente não era para ela.
Cantando apenas nos sonhos
Hoje, Soskin diz que só canta enquanto dorme. Afirma lembrar de cada verso que surge nesses momentos. A música continua presente de forma íntima, mas distante do palco.
A longevidade como dádiva de Soskin
Em tempos em que viver muitos anos é considerado valioso, Soskin encara a própria longevidade com naturalidade.
Ela acredita que recebeu esse tempo extra. Não sabe onde isso a levará e não tenta controlar. Apenas observa a vida seguir. E, segundo suas palavras, tudo está solto.

