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Desde 1963, idosa de mais de 80 anos corta o doce lupis com fio de linha numa calçada de Yogyakarta, na Indonésia, abre às 5h30 e esgota tudo antes das 9h

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 25/06/2026 às 21:41 Atualizado em 25/06/2026 às 21:43
Cortado com fio de linha em Yogyakarta, o lupis da Mbah Satinem virou febre após a Netflix: a comida de rua da Indonésia esgota antes das 9h.
Cortado com fio de linha em Yogyakarta, o lupis da Mbah Satinem virou febre após a Netflix: a comida de rua da Indonésia esgota antes das 9h.
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Vendido numa esquina de Yogyakarta, na Indonésia, o lupis da Mbah Satinem é arroz glutinoso coberto de coco ralado e açúcar de palma, cortado com fio de linha. Depois de aparecer na série Street Food da Netflix, essa comida de rua virou parada obrigatória e some do balcão antes das 9h.

Existe um doce no sul da ilha de Java que vira fila antes de o sol esquentar e desaparece em poucas horas. Ele se chama lupis, é um quitute tradicional indonésio, e o ponto mais famoso para prová-lo é uma barraca de calçada em Yogyakarta comandada pela vendedora conhecida como Mbah Satinem. O detalhe que encanta quem assiste: o doce é cortado na hora com um fio de linha, não com faca. A história foi contada pelo Good News from Indonesia.

O lupis sempre foi querido na cidade, mas o que transformou essa comida de rua em fenômeno global foi a televisão. A barraca apareceu na série documental Street Food da Netflix, e a partir daí turistas do mundo inteiro passaram a madrugar para garantir uma porção. Aberta às 5h30, a banca costuma esgotar tudo antes das 9h, prova de que um prato simples, bem feito, ainda atrai multidão.

O lupis cortado com fio de linha

Comecemos pelo prato, que é a estrela. O lupis é feito de arroz glutinoso cozido e prensado, depois coberto com coco ralado fresco e regado com um xarope grosso de açúcar de palma, o gula merah.

O resultado é um doce de textura firme e pegajosa, com aquele equilíbrio entre o salgadinho do coco e o caramelo escuro da rapadura de palma.

O que vira atração é o jeito de servir. Em vez de fatiar com faca, a vendedora corta o bloco de lupis com um fio de linha esticado, que passa pela massa numa única puxada limpa.

É um gesto rápido, quase hipnótico, que faz parte da identidade dessa comida de rua e rende os melhores vídeos para quem visita a banca.

O lupis não vem sozinho no balcão. Ele costuma ser servido junto de outros quitutes do chamado jajan pasar, os lanches tradicionais de mercado da Indonésia, como gatot, tiwul e cenil.

Tudo preparado de forma artesanal, em fogão a lenha e sem conservantes, do jeito que se fazia há décadas, o que dá ao doce um sabor que muita gente associa à infância.

A fama que veio da Netflix

Caça matinal ao lupis de Mbah Satinem em Yogyakarta Fonte: Dok Ang Tek Khun
Caça matinal ao lupis de Mbah Satinem em Yogyakarta Fonte: Dok Ang Tek Khun

A virada de chave teve data e endereço. Em 2019, a barraca da Mbah Satinem entrou na série Street Food: Asia, da Netflix, num episódio dedicado à comida de rua da Indonésia.

Nas imagens, o lupis aparece em destaque, coberto de coco e xarope escuro, e o programa mostrou a banca para milhões de espectadores no mundo todo.

O efeito foi imediato. O que era um ponto querido pelos moradores de Yogyakarta virou destino de turistas estrangeiros, que passaram a incluir a barraca no roteiro só para experimentar o doce que viram na tela.

A Netflix fez pela comida de rua local o que nenhuma propaganda faria: transformou um quitute de calçada em ícone reconhecido fora do país.

Esse é um padrão que se repete pelo mundo. Quando uma plataforma como a Netflix coloca um prato simples sob os holofotes, a fila aumenta, o nome se espalha e a tradição ganha sobrevida.

No caso do lupis, a exposição internacional ajudou a manter viva uma receita antiga que, sem esse empurrão, talvez ficasse restrita a quem já a conhecia.

Abre às 5h30 e some antes das 9h

Mbah Satinem vende lupis em Yogyakarta desde a década de 1060. Fonte: Dok Ang Tek Khun
Mbah Satinem vende lupis em Yogyakarta. Fonte: Dok Ang Tek Khun

A escassez faz parte do charme. A banca abre por volta das 5h30 da manhã e, na maioria dos dias, vende tudo antes das 9h, às vezes ainda mais cedo.

Quem chega tarde corre o risco de encontrar o balcão vazio, e por isso os guias recomendam aparecer bem cedo para não perder a viagem.

A quantidade preparada é limitada de propósito. Segundo as reportagens, a Mbah Satinem faz de 6 a 10 quilos de lupis por dia, um volume pequeno se comparado à procura que a fama trouxe.

Esse equilíbrio entre demanda alta e produção artesanal é o que explica por que a comida de rua some do balcão tão rápido.

Para o cliente, a corrida vale a pena. Uma porção de lupis e outros quitutes sai por um preço acessível, algo em torno de 10 mil rupias, e os pacotes maiores, usados em celebrações, custam mais.

O ritual de acordar cedo, enfrentar a procura e finalmente provar o doce vira parte da experiência, quase tão saborosa quanto o prato em si.

Uma barraca lendária de Yogyakarta

Turistas estrangeiros se misturam e aguardam pacientemente na fila para comprar os lupis de Mbah Satinem. Fonte: Dok Ang Tek Khun
Turistas estrangeiros se misturam e aguardam pacientemente na fila para comprar os lupis de Mbah Satinem. Fonte: Dok Ang Tek Khun

O ponto tem história longa. A barraca funciona desde 1963, no mesmo canto da cidade, perto do cruzamento das ruas Diponegoro e Bumijo, a poucos metros do marco do Tugu Yogyakarta. Mais de seis décadas no mesmo lugar transformaram a banca numa instituição local, daquelas que atravessam gerações de clientes.

À frente do balcão está a Mbah Satinem, hoje com mais de 80 anos, que se tornou o rosto reconhecível desse pedaço da culinária de rua indonésia.

O apelido carinhoso e a presença constante ajudaram a banca a virar referência, e muitos visitantes fazem questão de tirar foto ao lado da vendedora que aparece na série da Netflix.

Mais do que uma pessoa, a barraca representa um capítulo da cultura gastronômica de Yogyakarta.

O lupis dela é citado em guias, blogs e listas de comidas imperdíveis da cidade, e a longevidade do negócio é prova de que sabor e tradição constroem uma clientela fiel que volta sempre.

Por que a comida de rua encanta o mundo

O caso do lupis explica um fenômeno maior. A comida de rua virou uma das formas mais autênticas de conhecer um lugar, e séries como a da Netflix souberam capturar isso.

Um prato barato, feito na calçada com receita de família, diz muito sobre a cultura de um povo, às vezes mais do que um restaurante chique.

O segredo está na autenticidade. O lupis da Mbah Satinem encanta porque é exatamente o que promete: ingredientes simples, técnica tradicional, fogão a lenha e nenhum atalho industrial.

Num mundo de comida padronizada, esse tipo de comida de rua oferece algo raro, um sabor que carrega história e lugar.

No Brasil, a lógica é a mesma. Do acarajé baiano à tapioca nordestina, passando pelo pastel de feira, a nossa comida de rua também é patrimônio cultural e vira atração para turista.

A febre em torno do lupis em Yogyakarta mostra que, em qualquer canto do mundo, um bom quitute de calçada tem o poder de juntar fila e contar uma história.

E você, encararia a fila por esse doce?

A história do lupis da Mbah Satinem prova que comida de rua simples pode virar fenômeno mundial, com a ajuda de uma técnica curiosa, do fio de linha que corta o doce, e de uma vitrine global como a Netflix. Tanto que a barraca de Yogyakarta esgota tudo antes das 9h da manhã.

E você, acordaria de madrugada para enfrentar a fila e provar um doce que some antes das 9h? Conta aqui nos comentários qual comida de rua brasileira você acha que merecia aparecer numa série da Netflix e virar febre mundo afora.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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