O Pacífico Equatorial atingiu anomalia de temperatura de +0,5ºC, valor mínimo para caracterização do El Niño, pela primeira vez neste ano, segundo boletim da NOAA divulgado pelo portal Metsul, nesta segunda-feira (20), e a tendência é de aquecimento ainda maior nas próximas semanas, com risco de chuvas intensas no Sul e seca no Nordeste do Brasil.
O El Niño voltou a dar sinais concretos de vida no Oceano Pacífico. De acordo com o boletim semanal da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA), a anomalia de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, zona oficialmente usada para classificar o estado do fenômeno, alcançou +0,5ºC. Esse valor representa o piso da faixa considerada de fase quente do oceano e marca a primeira vez em 2026 que o Pacífico Equatorial Central-Leste atinge o patamar mínimo associado ao El Niño.
A última vez que essa região do Pacífico havia registrado anomalia igual ou superior a +0,5ºC foi na semana de 1º de maio de 2024, período em que o Rio Grande do Sul enfrentava o desastre das enchentes provocado pelo superaquecimento oceânico acumulado nos meses anteriores. O dado acende um alerta meteorológico importante para o Brasil, já que o fenômeno está diretamente ligado a padrões climáticos extremos em diferentes regiões do país.
O que está acontecendo nas profundezas do Pacífico e por que o El Niño pode se fortalecer

O aquecimento registrado na superfície do Pacífico Equatorial não surgiu do nada. Uma Onda Kelvin, mecanismo oceânico que transporta massas de água quente das profundezas para a superfície, está empurrando águas mais aquecidas de Oeste para Leste ao longo da faixa equatorial. Esse processo explica por que a anomalia saltou para o limiar do El Niño nas últimas semanas, mesmo após um período prolongado de neutralidade oceânica.
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O ponto crítico é que ainda existe um grande volume de água quente abaixo da superfície do Pacífico. Isso significa que a tendência nas próximas semanas é de aquecimento adicional, podendo elevar a anomalia para valores mais expressivos e aproximar o oceano de uma configuração plena do El Niño. A MetSul Meteorologia ressalta, porém, que uma única semana com anomalia de +0,5ºC não é suficiente para declarar oficialmente o início do fenômeno. São necessárias várias semanas consecutivas acima desse patamar para que o El Niño seja formalmente reconhecido.
Quando o El Niño pode ser oficialmente declarado em 2026
A expectativa dos especialistas é de que o fenômeno esteja plenamente configurado entre o final do outono e o início do inverno, possivelmente em meados de maio ou, no mais tardar, em junho. Para que isso aconteça, não basta o oceano aquecer na superfície. É preciso que ocorra o chamado acoplamento entre oceano e atmosfera, quando os ventos alísios enfraquecem na região equatorial e passam a retroalimentar o aquecimento da água.
Enquanto esse acoplamento não se completa, o Pacífico permanece em uma zona de transição entre neutralidade e El Niño. A diferença entre estar no limiar e ter o fenômeno plenamente ativo é enorme em termos de impacto climático. Um El Niño configurado altera padrões de chuva e temperatura em escala planetária, enquanto uma anomalia isolada pode se dissipar sem gerar consequências significativas. Por isso, as próximas semanas serão decisivas para confirmar ou não a instalação do fenômeno.
Como o El Niño afeta o clima no Brasil e o que esperar desta vez
Os efeitos do El Niño sobre o território brasileiro seguem um padrão bem documentado pela meteorologia. No Sul do país, o fenômeno agrava o risco de chuvas excessivas e enchentes, exatamente o cenário que devastou o Rio Grande do Sul em maio de 2024 durante o episódio anterior. Já no Nordeste, a dinâmica se inverte: o El Niño intensifica a seca, reduzindo o volume de chuvas em uma região que já convive com déficit hídrico crônico em diversas localidades.
No campo econômico, o fenômeno também produz consequências relevantes. Historicamente, as melhores safras agrícolas do Sul do Brasil ocorrem durante anos de El Niño, embora o excesso de chuva possa causar perdas pontuais em determinadas culturas. A dinâmica afeta diretamente a oferta e os preços de alimentos, com reflexos que se estendem por toda a cadeia produtiva. Para o Nordeste, o risco de seca prolongada pode comprometer a agricultura familiar e pressionar o abastecimento de água em comunidades que dependem de reservatórios já fragilizados.
Os maiores episódios de El Niño já registrados e como se comparam ao cenário atual
Para dimensionar o que pode estar por vir, vale olhar para os eventos anteriores. No El Niño de 2023-2024, a anomalia máxima no Pacífico Equatorial Central-Leste chegou a +2,1ºC na semana de 22 de novembro de 2023. O episódio de 2015-2016 foi ainda mais intenso, com pico de +3,0ºC em novembro de 2015. Já o evento de 1997-1998 registrou anomalia máxima de +2,3ºC, e o de 1982-1983 atingiu +2,6ºC, ambos considerados entre os mais severos do século passado.
O cenário atual, com anomalia de +0,5ºC, está muito distante desses picos. No entanto, o fato de haver grande volume de água quente abaixo da superfície indica que o potencial de intensificação existe. O quanto o fenômeno vai se fortalecer dependerá da evolução das Ondas Kelvin, do comportamento dos ventos alísios e da resposta atmosférica ao aquecimento oceânico nas próximas semanas. Cada fração de grau adicional na anomalia do Pacífico pode significar mudanças significativas no regime de chuvas do Brasil entre o inverno e a primavera, ampliando tanto o risco de enchentes no Sul quanto o de seca prolongada no semiárido.
Você está preocupado com os efeitos de um possível El Niño no clima da sua região? Conte nos comentários como o fenômeno já afetou a sua cidade em anos anteriores, sua experiência pode ajudar outros leitores a se prepararem para o que pode vir pela frente.

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