“Você é humano?”, por mais distópico que possa parecer, essa é a pergunta que mais se encontra na internet atualmente, em particular após a popularização da inteligência artificial. Visando a limitar a atuação de criminosos que abusam da tecnologia para fins maliciosos, empresas de cibersegurança têm buscado alternativas para verificar se os usuários são seres humanos reais. Os resultados, contudo, são controversos.
Um exemplo dessas estratégias é o World ID, um sistema de verificação baseado na íris dos usuários, desenvolvido pela World. Inicialmente, o projeto oferecia um benefício financeiro a quem se submetesse ao escaneamento ocular, mas essa abordagem foi rapidamente proibida no Brasil devido a preocupações com a privacidade dos participantes. Atualmente, a empresa propõe a integração com plataformas afiliadas, como Tinder e Zoom, segundo a BBC, onde as preocupações com perfis falsos e falsificações de identidade (deepfakes) estão em ascensão.
Os benefícios da verificação humana
Os defensores da verificação humana apontam sua capacidade de reestabelecer da confiança online, sobretudo em serviços como aplicativos de relacionamento e redes sociais, onde a disseminação de contas fraudulentas tem sido um problema grave.
Outro argumento diz respeito ao combate de golpes que dependem de identidades geradas por IA. Em particular no contexto empresarial, a tecnologia deepfake tem sido empregada para imitar a aparência e a voz de funcionários durante reuniões online e levar a transações fraudulentas. Em um caso recente em Hong Kong, a perda foi de 25 milhões de dólares.
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O outro lado da moeda
Mas nem todos são a favor da estratégia. Muitos se preocupam com as repercussões que a verificação biométrica pode gerar, afinal, ao contrário das senhas, as características biométricas não podem ser simplesmente alteradas se forem comprometidas. Isso torna o tratamento desses dados particularmente sensível.
Em um contexto em que os usuários estão cada vez mais atentos à própria privacidade (basta observar a alta frequência de buscas por termos como “o que é VPN” ou “como proteger dados online”), esse argumento ganha peso considerável. Assim como sabem que redes Wi-Fi públicas podem expor seu tráfego de navegação quando não protegidas por uma VPN, os usuários com certeza iriam relutar em fornecer seus dados biométricos sem garantias sólidas de segurança.
O que dizem os especialistas
Em respostas a essas considerações, muitas empresas afirmam não armazenar a biometria dos usuários diretamente. A World, por exemplo, segundo o g1, alegou que seu sistema cria um código único a partir da leitura da íris e descarta os dados pessoais do indivíduo.
Os especialistas em privacidade, todavia, não estão convencidos. Eles argumentam que, mesmo diante dessas promessas, os usuários ainda devem examinar cuidadosamente como esses sistemas operam. Especial atenção deve ser dada a questões sobre armazenamento de dados, métodos de processamento e a supervisão a longo prazo dessas políticas.
Órgãos reguladores em diversas regiões também expressaram preocupação com a coleta e o processamento desses tipos de dados. Segundo eles, o foco deve estar na transparência. Conforme reportagem do G1, os usuários merecem explicações claras sobre quais informações são coletadas, como são usadas e quais medidas de segurança são implementadas para evitar o uso indevido.
Mantendo a segurança nos apps de namoro e redes sociais
Seja a verificação humana implantada de maneira generalizada ou não, uma coisa é certa: a cautela e o ceticismo continuam sendo práticas saudáveis no ambiente virtual. Ao interagir com novas pessoas online, portanto, os usuários devem ir com calma e prestar atenção aos detalhes.
Sinais clássicos de alerta incluem comportamentos que transmitem uma ansiedade exagerada para criar conexões emocionais muito rapidamente ou para ganhar sua confiança em um curto período. Também é prudente evitar migrar conversas para canais de mensagens privadas muito cedo. Golpistas frequentemente incentivam os usuários a deixar plataformas moderadas, pois isso dificulta a detecção de atividades fraudulentas.
Vivendo no equilíbrio
As propostas de verificação humana representam uma tentativa interessante de enfrentar um dos desafios mais complexos da internet atual. No entanto, essas tecnologias não vêm isentas de riscos. Dados biométricos são extremamente sensíveis, e a confiança do público dependerá diretamente da transparência das empresas que se aventurarem nessa empreitada.
Encontrar o equilíbrio entre a adoção dessas soluções tecnológicas e o respeito à privacidade individual dos usuários deve ser, portanto, o objetivo máximo.
